O Rumor de Um Ausente

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(Petrolina – PE)

ausenteCá, a mesma parede ferida por um prego. Um espelho retangular, o Charlie Chaplin ao centro, sustinha-se no prego deslembrado por vórtices e rodamoinhos. Argamassa, matéria bruta, cobre o rasgo. A parede, aplanada, alumbrando tonalidade distinta, outra – o buraco, apesar, diante dos meus olhos, próximo ao primeiro quarto, espaço da sala de entrada. Não o alcançávamos, eu e meus irmãos. Meu vô saía do quarto – a camisa por dentro da calça de brim azulada; obliquamente, uma pasta de pano rijo -, caminhava em direção à sala frontispícia, a mão, no bolso, retirava um pente oval, mirando-se no espelho: fiapos de cabelos lançados para trás. Imagens eidéticas me povoam.

Há muito não retornava. Pais, familiares, amigos – ao final de uma ligação ou em palavras derradeiras de e-mail qualquer, a desconcertante pergunta: Por que não vem nos visitar? A promessa de ir tão logo pudesse repetia-se, mas os anos se passavam sem que eu julgasse pertinente retornar ao lugar de origem. Exilado de minha terra, dos meus, do dialeto provinciano, exilado dos amores passados, de lembranças turvas e límpidas – exilado de tudo, sem fuga de mim. Talvez fosse medo – e já agora ainda não o é? -, apreensão em querer sufocar vozes de tempos longínquos, inabilidade ante a dor de uma ausência. Alguém dissera ser a escrita, em sua origem, a linguagem de um ausente. Os fantasmas esvoaçando ao derredor dos móveis, espremidos nas brechas da estante, entre um livro e um porta-retrato. Disfarçado, como num haicai, pela emergência ilusória do imediato absoluto, escrevo para redesenhar continuamente rostos perdidos na rigidez das horas, tentando, aqui e ali, repetir um movimento apreendido pelos olhos e que não mais é, senão nos próprios olhos, volvidos para dentro. Espectros que não me abandonam, como uma cidade que fosse obrigada a cultuar os próprios mortos, sempre presentes, mais vívidos do que os que constroem casas em torno e acendem velas, diariamente. Silhuetas, carícias, estalos de ferrete, reflexos de látego, os primeiros passos, o chão duro arranhando o joelho de pele frágil, delgada – miúda, esta cidade é um fardo imagético.

Da cozinha, o odor do café se espalhava pela casa, através do grande corredor. Dona Letícia, minha vó, repetia, com seu pé direito, o movimento ondulante no retângulo de ferro da máquina de costura. Bordava. A recendência perfumada do líquido escuro representava um chamado a seu Lourenço, que, sempre às cinco da tarde, empurrava a porta e jogava a pasta em cima do sofá. Muita correspondência, pai? – perguntava meu tio. Todos os dias. Sorvia o café, retirando, da bolsa, os livros ansiosamente esperados. Capas variadas, cheias de cores, títulos com letras garrafais. Distinguíamos pouco a pouco a amarração das letras, espantados ante o fascínio de nosso avô. Lia em francês, italiano, espanhol, inglês e, por imposição, em português. Em casa, todos sabíamos do rumor que cercava o velho. Cidade pequena, a privacidade era um direito extorquido. Até hoje. Preguiçoso, amalucado, o vetusto carteiro que, ao invés de entregar cartas, visitava as árvores sombrosas e esquecia-se, abismado em palavras. Algarobeiras, juazeiros, quaresmeiras, umbuzeiros, cássias, diziam, onde quer que houvesse sombra e vento, Lourenço agachava-se, abria um livro e todo o dia transcorria.

Este retorno, sem avós e tios, o vazio na sala desta mesma casa, renovada, um profundo mau gosto, almofadas de croché, tamboretes, vasos cerâmicos… entulhados, cobertos de bosta de mosca, no quarto do muro. Um modo de fazer pretérito perfeito a dor do vazio? Meus pais riscam as paredes, dão-lhes novos contornos, retiram o balcão da cozinha outrora pequena, despejam em caixas lacradas os porta-retratos antigos – e, no entanto, o silêncio da casa não dura muito. Vozes além, batidas de portas, o mesmo número de xícaras à mesa – os mortos não morrem.

– Ande, vê isto! – aponta-me meu avô.

Um livro pequeno, capa dura, folhas um tanto amarelecidas. Vidas secas. Inicio, logo soube, num caminho sem volta. Descerro-lhe, folheio sentindo o cheiro do pó envelhecido, a tristura das traças premidas. Precisava chegar, não sabia onde, sublinho a frase da página dez. Até hoje, perseguido por ela, confrontado pelo revérbero de suas palavras.

Meu pai arreliava, deixa o menino longe dessas tolices, daqui a pouco estará bestando como o senhor. Lourenço dava de ombros, comentava comigo sobre livros vários, ajudava-me a prosseguir diante do esbarrão em alguma palavra e, vez ou outra, acendia o cigarro e me narrava estórias confusas, deliciosas. Mais que em meus irmãos, notou que eu tomava gosto pela coisa, vivia a perguntar em que página eu estava, anunciava o próximo título, e eu seguia, azafamado, impaciente para ter capa de outra cor nas mãos.

Este quarto de paredes comidas pelo sal da terra, no extremo da casa, desenha o traçado de um mausoléu falto de corpo, impenetrável pelos moradores da casa, couraçado, suportando os ventos cálidos e frios, raios de sol, chuvas, abalos sísmicos, traças e cupins – roedores do tempo. A porta, emperrada, lança um gemido arranhado, preguiçoso, acostumada nessa posição oclusa desde a mudança da vida dos mortos. Primeiro meu vô, seus livros, discos enormes e suas folhas preenchidas por anotações confusas. Depois dona Letícia, cansada da resignação em manter-se viva quando todos os seus contemporâneos, os que ouviam as canções da era áurea do rádio, já haviam transcendido, orou a Deus, lembrou-lhe o esquecimento e rogou fosse desfeito esse grande disparate. Máquinas de costura, rolos de linha, bordados inacabados, óculos arredondados – desdobramentos do que foi, reunidos com as palavras emprestadas e próprias do velho Lourenço. O interruptor aciona, inflama uma luz amarela. Teias de aranha pousam sobre objetos, dividem espaço com os mortos da casa, suas vidas de falecidos. Círculos de madeiras, os quais nos serviam de volantes de carros imaginativos, um prego ao meio, triunfam ante térmites contumazes. Com estes fiapos orbiculares, viajávamos, eu e meus irmãos, engendrando países desconhecidos, dando-lhes nomes fantásticos, rompendo limites e barreiras; pelo retrovisor, a mãe nos chamava, devolvia-nos ao terreiro da casa, ao chão esburacado – o som do cacarejar das galinhas retornava como prenúncio de vidas impossibilitadas, ladeadas por quintal pequeno, destituídas de pés alforriados: nossos voos, asas tosquiadas, todos rasantes.

Inalo o pó do móvel – meu corpo dele repleto, modelado por ele -, avisto resíduos de Lourenço, a sujidade desenhando os contornos de seu rosto mordaz, sarcástico. Ouço a sua voz grave, alentadora.

– O que te tornaras, meu rapaz?

Tartamudeio. Não há palavra a devolver, relutando ante a possibilidade de fantasiar outra vida que não esta, medíocre, pequena, inexpressiva.

– Dos livros que eu te dei, todas aquelas brochuras de capa dura, as palavras, frases, parágrafos, o que é feito de tudo isso em ti?

Um espelho miúdo, moldura alaranjada, reverbera o meu rosto pálido. De meus braços escorre suor lodoso, as mãos tiritam, um frio particular se assoma num único ponto deste Sertão, esquecido por todos e por mim carregado.

– Teu pai triunfara? Os bestas da família, suas insignificâncias ornando as casas, te fizeram doutor, arco de bacharel no dedo?

A voz se oculta, vai sem resposta. Um apelo, penso, à reflexão vagarosa, ao propósito alcançado e à bravura de desertar do que não é vida. Mesmo ele, pondero, a matéria esvaecida, vive e desafia os que vivem. Mesmo ele. Não fora ele que, servindo-se da boca de Débora, dissera-me aquelas palavras, aquela frase cortada por vírgula que me constrangera e, no entanto, enlevara-me? Tresvario? – indago a mim mesmo. Sei que a resposta, dentre as duas possibilidades, representará fuga deliberada, consentida. Caligem: os olhos selados pelo negrume movediço.

Longe, retine um choro de criança que, abrupto, silencia – a morte, assim tão cedo?

(Dedicado ao meu avô Geuid.)

2 comentários em “O Rumor de Um Ausente

  1. Caro Breno. O seu texto é a mostra da competência que ja tem sido demonstrada através de seus outros escritos neste portal. Apesar de longo, fato que desistimula a leitura de muitos, aquele que chegar ao final ficará satisfeito com a dedicação e espero eu que um dia, o que é inegavel, chegará, possa eu ser homenageado por um neto, numa forma tão digna, carinhosa e espetacular como você fez.
    Abraços literários

    1. Agradeço as palavras, caro Flavio. Meu avô foi uma pessoa fantástica, uma das melhores parcelas de minha infância.
      Tenho certeza que você também será homenageado. Um bom neto não esquece um avô, como é o seu caso, que tem sensibilidade ante a palavra, literatura etc.
      Abraço.

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