O Pesadelo

Roberto J. Fraga Moreira

(Rio de Janeiro – RJ)

A tarde estava chegando aopesadelo fim e a luz do dia cedia lugar às sombras do entardecer, conferindo ao ambiente uma tonalidade cinza que passava para o negro à medida que o sol desaparecia no horizonte. As pessoas saiam apressadas do trabalho e se dirigiam aos automóveis, ônibus e metrô num frenesi próprio dos que anseiam chegar rapidamente às suas residências.

Raul, da janela do seu escritório, situado no 30° andar de um luxuoso prédio comercial, desfrutava de uma visão privilegiada da cidade. De lá observava o burburinho do final de tarde e achava divertido toda aquela correria, como se todos estivessem fugindo de um perigo imaginário.

Sonolento com essa movimentação, não percebeu quando a secretária entrou na sala, e somente deu conta de sua presença quando ela disse:

– Passei para desejar boa-noite e indagar se o senhor pretende fazer alterações na agenda de amanhã?

Movimentando a cadeira, Raul deu com ela um giro de 180 graus, colocando-se de frente para ela, e respondeu:

– Nenhuma! Pode manter todos os compromissos.

Antes que saísse, pediu-lhe que apagasse as luzes do escritório, exceto as do seu gabinete, pois o faria tão logo resolvesse ir embora.

Dito isso, virou novamente para a janela e continuou observando a circulação das pessoas 30 andares abaixo.

Não soube precisar quanto tempo permaneceu assim, até que de repente lembrou que a sua mulher o esperava para jantar com alguns amigos, já previamente convidados.

Deixando o prédio em rápidas passadas, dirigiu-se ao seu automóvel e rumou para o espaçoso apartamento em que morava com a esposa e dois filhos adolescentes.

Enquanto acendia um cigarro e concentrava a atenção no trânsito, sintonizou o rádio na estação de sua preferência para relaxar as tensões vividas no escritório, sempre às voltas com problemas administrativos próprios de um executivo bem-sucedido.

Após alguns quilômetros percorridos, surgiu o bairro em que ficava do seu condomínio, fruto do laborioso desempenho à frente da empresa que havia criado e que prosperara significativamente ao longo dos anos.

Lá estava a senhora Adelaide, a vizinha, fazendo a caminhada noturna como era hábito. Ao passar por ela em marcha reduzida acenou-lhe amistosamente,  recebendo em troca um sorriso amável que o deixou feliz por ter o privilégio de conviver com pessoas amigas e sociáveis. O mundo não fora feito apenas para se ganhar dinheiro, pensou.O cultivo de novas amizades era questão relevante, eis que criava o espírito da cooperação e do bom relacionamento, tão relegados nos dias de hoje.

Parecia flutuar numa nuvem bem alta, tamanha a sensação de bem-estar que sentia, como há muito não desfrutava. Apesar de ser bem reconfortante, era bem estranho estar sentindo isso. Mesmo após um duro dia de trabalho o corpo e a mente estavam inexplicavelmente descansados, como se tivesse passado o dia inteiro deitado e sem fazer nada.

Logo entrava na garagem subterrânea do prédio, não sem antes passar pela guarita onde deveria estar o manobreiro encarregado de colocar os veículos nas respectivas vagas. Ao notar essa ausência, não pôde deixar de sentir uma ponta de irritação, já que implicava em ter que estacionar ele mesmo o carro. Teria ainda de carregar alguns embrulhos de documentos que trouxera do escritório para examinar em casa.

Ah! Mas o ocorrido não ia ficar sem registro! O empregado era pago para servir aos moradores em suas pequenas necessidades. Não achava justo ser privado desse conforto, o qual achava ser de seu direito desfrutar.

Estacionando o carro, e após retirar os pacotes do porta-malas, ainda contrariado com a ausência do funcionário, dirigiu-se rapidamente aos elevadores em razão do peso extra que carregava.

Na medida em que deles se aproximava, notou que os dois equipamentos que serviam à garagem estavam com as portas abertas e as luzes internas desligadas. Por certo apresentaram defeito, resmungou contrariado!

Decidiu então subir os dois lances de escada que o separavam do vestíbulo social, onde estavam os elevadores que serviam as demais alas do luxuoso condomínio. Só esperava que estivessem em perfeitas condições, caso contrário teria que subir novas escadas até o seu apartamento que ficava no sexto andar.

Vencido o último lance, e já ofegante, viu-se diante da entrada social do edifício completamente vazia de pessoas.

O que estava acontecendo? Os elevadores sociais também estavam com as portas abertas e as luzes apagadas. Falta de energia não era, pois a entrada da portaria estava com a iluminação ligada, incluindo a luz vermelha do intercomunicador que piscava intermitentemente.

Diante desse estranho quadro, percebeu que algo de anormal ocorria. Por que haviam abandonado a entrada social e a garagem? Isso nunca acontecera. Tinha que haver uma explicação lógica. Será que ocorrera um sinistro e não percebera?

Tantas indagações lhe provocaram uma crescente ansiedade, e fez que sentisse uma fremente necessidade de chegar rapidamente em casa e receber da família  respostas para essa estranha situação.

Tomada a decisão, subiu de um só vez os seis lances de escadas, sempre carregando os malditos embrulhos apertados contra o seu corpo suado, que a essa altura pesavam o dobro do peso real.

Afobado e sentindo a sensação do coração na garganta, usou a reserva de oxigênio que restava para bater pesadamente na porta do apartamento, esquecendo-se que carregava as chaves da entrada social.

Como não obteve resposta, largou os embrulhos no chão e nem ligou quando estes se romperam e espalharam os seus documentos no corredor.

Ato contínuo, esmurrou com as duas mãos a barreira que o impedia de acessar o interior do seu lar. Mas continuou sem receber nenhum sinal de vida do interior do apartamento.

Desesperado, resolveu tomar uma atitude drástica: arrombar a porta como o único recurso que o permitisse inteirar-se da bizarra situação que estava vivendo.

Tomando distância no amplo corredor, projetou-se ao encontro do obstáculo com tal fúria, que por mais sólido que fosse não resistiria ao impacto que lançou sobre ele com o seu peso de 90 quilos.

Assim que transpôs a abertura, sentiu imediatamente a sensação do vento frio bater-lhe no rosto, enquanto imagens difusas surgiam e faziam que despertasse bruscamente para a apavorante realidade:

Enquanto aquela massa humana girava descontrolada no espaço vazio, a mente num resquício de consciência percebeu que estivera adormecida durante todo aquele tempo, enquanto via aproximar-se velozmente o nível da rua situado trinta andares abaixo.

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