O Pequeno Relato Sobre o Meu Patrão Assassino

 

 

 

 

(Salvador – BA)

Memorandos, cartas, contas a pagar, telefonemas, marcação de consultas, reuniões. Jantares com sua esposa… jantares com suas amantes. Está tudo aqui neste meu arquivo. Uma pequena pasta e algumas subpastas, arquivos dentro de arquivos, dentro de arquivos, dentro de outros arquivos. Informações que deixam sua vida em minhas mãos, é o que parece. Já que eu sei tudo sobre ele. Mas não é assim. A lealdade ultrapassara os limites quando ele matou aquela mulher. Ela estava sempre lá. Era apenas uma das tantas outras. Se vestia de preto como se estivesse sempre de luto, sentava-se em minha frente no banco da recepção e eu fingia que ela era qualquer cliente como todas as outras, “você tem hora marcada”, “Olá Srta. D, bom te ver de novo! Como vão os meninos? ”, e ela sempre inquieta na cadeira, envergonhada, culpada, “Estão ótimos, obrigada. ”, com um sorriso bem difícil de se dar. Às vezes eu pensava que perguntar sobre as crianças só a fazia lembrar-se mais ainda do pecado que estava prestes a cometer, mas havia algo em mim que gostava de puni-la. Meu patrão parecia, já sem o paletó, mas banhado em perfume e fazia um sinal com o queixo que dizia algo como “Entre agora mesmo, rapidinho, vamos! ” E as moças entravam, algumas, bem descabreadas, outras num andar curto, provocante, sensual… outras que mais pareciam coelhinhas, tamanha a excitação…, mas apenas ela – aquela moça de preto -, esboçava um profundo pesar. E naquela vigésima quinta noite (sim, eu sei quantas vezes ela esteve aqui), eu escutei meu patrão gritando. E ela dizia que não era uma vagabunda qualquer ou coisa do tipo… às vezes elas tentam dizer essas coisas, mas é difícil pra elas, se defender, e falar, enquanto suas calcinhas estão no chão do escritório do seu advogado, e suas famílias em casa esperando. Ela chorava aos berros e parecia tentar vestir-se rapidamente. Dizendo que não voltaria mais e que estava desonrando a imagem de seu marido morto. Não me lembro de meu patrão sendo rejeitado por ninguém. Não apenas com as amantes, mas em todas as coisas da vida ele sempre era o vencedor… o homem que ditava as regras. E naquele momento uma mulher fraca, nua, uma viuvinha magrela e de cabelos pretos, que vivia fungando e com um rosto acabado, destruído de tanto chorar, justamente essa mulher… estava lhe dizendo não. Eu escutei um barulho surdo, que pareciam duas pedras se chocando, e depois um ruído de agonia e dor. Não era um grito. Era um engasgo assustado. E uma frase que não terminou, uma pergunta… “O que você…”. E eu fico aqui agora me perguntando o tempo inteiro o que seria o resto da frase. Enquanto ele está ao lado, trabalhando, esperando um cliente às quatro horas, outro cliente às quinze para as cinco e uma amante às seis da tarde, antes de voltar para os braços de sua mulher e filhos. Quando a briga se silenciou, meu patrão saiu, minutos depois. Completamente suado e sem camisa, vestindo apenas um suspensório. Segurava firmemente uma bola de cristal de natal que recebera de presente do filho há dois anos atrás… encharcada de sangue. Me olhou, deu de ombros como quem diz, “Que mais eu podia fazer? ”, sorriu sem o menor sinal de remorso. Estremeci. Nos olhamos por alguns minutos intermináveis. E percebi rapidamente que minha resposta àquele dar de ombro definiria o destino de minha própria vida. “Posso receber um aumento? ”, perguntei sorrindo. “Claro, o que eu faria sem você? ”. E então nos livramos do corpo. É impressionante nessa sociedade, certas mulheres são facilmente esquecidas. Ninguém perguntou, e ninguém perguntará. E cá estou, organizando ofícios e processos, o dia está tedioso. Na verdade, hoje é domingo e eu não preciso mesmo estar aqui, mas não há nada para mim, no mundo lá fora. Não restou ninguém. Minha felicidade consiste em ficar aqui recepcionando pessoas e operando a vida do homem no escritório ao lado. Talvez no fundo eu queira ser uma amante, um cliente, um parente, uma filha, uma esposa. Mas sou apenas a pessoa que coordena as coisas. A pessoa que lhe possibilita estar em todos os lugares, exatamente na hora certa. Ele está na sala ao lado, e muito quieto ultimamente. Acho que sente enorme falta da mulher de preto.

 

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