O Par de Nozes

 

 

 

 

 

(São José do Rio Preto – SP)

Era um tanto quanto difícil levantar as pálpebras com a luz do sol que entrava entre as frestas da persiana – especialmente aquela que, de forma aparentemente estratégica – se posicionava bem na direção de suas pupilas. Ela cintilava à medida que o vento entrava pela janela e balançava a cortina, de modo que, nos momentos em que o raio solar brilhava em suas bochechas, ele aproveitava para abrir ligeiramente os olhos e examinar o lugar.

– O armarinho branco, a camisola azul, o lençol verde piscina, a agulha no meu braço… Ah, claro, o quarto do hospital. Já era de se imaginar. Onde mais eu estaria? – disse, pausadamente, entre alguns profundos suspiros.

Findas as malfadadas conclusões, viu a maçaneta mexer-se sorrateiramente e a porta abrir-se. Entrou, então, um rapaz de sorriso terno, com uns poucos trinta anos de vida e carregando nas mãos um ramalhete de flores amarelas.

– Como vai, papai? – disse ele, agachando-se amavelmente ao lado da cama e tascando um beijo estalado na testa de seu herói.

O velhinho sorriu timidamente com os cantos da boca, olhando para as próprias mãos cruzadas em cima do peito – ora, quantas rugas! Quando tinha ele envelhecido tanto? Onde estava aquele garotão que costumava andar com seu Cadillac e óculos escuros? Arregalou os olhos.

– Acredito que já estou com meu passaporte carimbado, petiz.

Seu filho acomodou gentilmente o queixo sobre seu ombro direito e falou-lhe ao pé do ouvido:

– Não diga bobagens, tolinho. O senhor não vai para outro lugar que não seja a minha casa, assim que te derem alta. Quer um pouco de água?

O pai acenou afirmativamente com a cabeça. Dirigiu-se até a janela, escancarando as persianas. Em seguida, acomodou as rosas em um jarro ao lado da cama e encheu um copo com água, colocando-o sobre o criado-mudo.

– Não está um lindo dia, paizinho? Que acha de irmos pescar na semana que vem, só eu e o senhor?

– Não vai dar… Você sabe, já estou com a viagem marcada. Quando vierem me buscar, já estarei a postos. Estou pronto! – disse retraidamente feliz, com um tímido fio de água escorrendo-lhe sobre a bochecha direita.

O rapaz parou, curvando o rosto levemente para o lado enquanto seus olhos marejavam e sua boca ensaiava aquilo que deveria ser um sorriso, mas acabou por ser apenas dois lábios cerrados e levemente curvos nos cantos, num lugar desconhecido entre a tristeza e a admiração.

– Pai… O senhor não quer ir embora, quer?

– Filho… Há coisas que só aprendemos quando estamos chegando ao fim da estrada. Uma delas é que – acredite – todos temos passagens com data e hora marcadas. Tudo que é vivo deve viajar um dia, e a minha hora se aproxima. – Fez uma pequena pausa. −Eu nunca costumei ser um passageiro pedante, desses que se penduram na porta do vagão do trem e alongam-se demasiadamente nas despedidas, atrasando o trajeto. Não será agora que farei o papel de inconveniente. Sabe como é… O maquinista pode se zangar! – e gargalhou.

Seu filho acompanhou-o na casquinada, porém não tardou para que cobrisse a face com as mãos e, entre soluços quase infantis, iniciasse um choro abafado que vez ou outra escapava entre os vãos dos dedos. Ainda com as palmas salgadas, puxou uma pequena banqueta para perto da cama e sentou-se, debruçando a cabeça sobre o peito do velhinho.

– Eu entendo que existam os ciclos, pai. Entendo que existam as vindas, as idas, as horas de chegar e também de partir… E entendo que todos nós, um dia, teremos que arrumar nossas malas. Mas será mesmo que o senhor não pode adiar ao menos um pouquinho a tua ida? Eu sem você serei um homem sem rumo.

A observar calmamente as pequenas manchas molhadas que seu menino fez sobre sua camisola azul, o pai respondeu-lhe de forma paciente, como quem conta uma história ao filho antes de dormir:

– Na verdade… Sim, há sim um jeito de fazer um pequeno atraso! Na verdade, isto me é preciso. Sem isto, não posso tomar o trem.

Olhando-o fixamente e com alguma esperança, o rapaz levantou brevemente a cabeça:

– E o que é?

– Pois, meu filho, eu não posso partir sem antes ver, pela última vez, o meu precioso par de nozes.

O jovem, então, parou por um momento, arqueando as sobrancelhas e olhando o pai com certa curiosidade.

– Par de nozes? Mas que par de nozes?

O velhinho, desta vez, escancarou um sorriso sincero e inveterado, suspirando e revirando os olhos molhados, quase tão cintilantes quanto a luz que vinha da janela.

– Pequeno, existe apenas uma vez na vida de um homem em que ele tem a sorte de deparar-se com um par de nozes. O dia em que isso acontece, é como se te arrancassem o chão sob os pés: você perde o ar, passa a agir como um tolo e a ter palpitações toda a vez em que eles se aproximam… Mas, acredite: é a partir desse dia, desse encontro, que finalmente descobrimos quem somos e nos sentimos grandes. Passamos de meninos a homens feitos, inteiros e de coração aquecido. Lembre-se: quando encontrá-los, não os deixe escapar.

O rapaz permaneceu com o olhar confuso, voltando o tronco para trás e cruzando os braços. O pai completou:

– Se me tornei um homem plenamente feliz do dia em que achei meu par de nozes em diante, então não posso ir embora sem que eles estejam bem na minha frente, uma última vez. Sem este adeus, meu filho, eu não posso partir.

De repente, a maçaneta mexeu-se e, pela porta do quarto, entrou sua mãe. Ela veio a passos curtos e lentos, enquanto o vento da janela mexia seu vestido branco rendado. Sob as rugas e as lágrimas estava uma encantadora senhora, em cujas mãos estava perfeitamente acomodada uma rosa vermelha sobre o peito.

– Oh, meu amor… Meu eterno namorado. Como está? – disse ela, sorrindo.

Neste momento, foi como se a face moribunda do velhinho se tornasse iluminada, jovem e viva outra vez.

– Minha garota! Melhor agora!

Enquanto o filho conservava-se sentado no pequeno banco ao lado do pai, ela se aproximou calmamente, apoiando-se na cama e, em seguida, aninhando-se de maneira terna, deitada ao lado do marido com a cabeça ajeitada entre sua orelha e seu ombro.

O velhinho fitou-a enternecidamente, apertando seu frágil corpo contra o dele e beijando-lhe a bochecha. Permaneceu por incontáveis minutos admirando seus olhos e respirando com alguma dificuldade.

– Esses olhos, minha querida… Esses olhos… Perfeitamente luzidios e castanhos, como no dia em que os conheci. Que coisa, eles não envelhecem!

– Serão sempre suas nozes, meu anjo. Eternamente suas nozes.

– Minhas pequenas nozes… Era tudo que eu precisava.

Dito isto, ele cerrou as pálpebras e tomou seu trem. Viajou, finalmente, para onde deveria ir.

O rapaz, já levando as mãos ao rosto e inclinando-o quase sobre os joelhos, percebeu, entre um e outro soluço, que nada que visse para além daquela janela, por toda sua vida, superaria aquilo que havia visto ali, naquele dia, naquele quarto.

O amor é um par de nozes.

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