O Papel, os Subterfúgios e a Luz

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(Fortaleza – CE)

hospitalSaíra do hospital Chagas Nobre atônita, demasiadamente taciturna. As lágrimas, sufocadas, anestesiaram seus pensamentos. O olhar paralítico, estático, fitava um ponto qualquer da rua oposta da qual se encontrava. A mão esquerda segurava quase sem força um papel. O papel. A outra mão buscava desesperadamente acariciar algo. Um algo que ela não sabia bem. Este instante espaço de concatenar sua existência somente fora interrompida pela frenética buzina de um corsa prata que passava.

“Sai da frente, quer morrer sua louca”.

Neste momento, percebeu o quanto já havia atravessado a avenida homônima do hospital. Completou o diminuto percurso viva. Viva, pensou. A irônica reflexão soou como se fosse uma senha bancária que liberou as amarras que prendiam as tais lágrimas. Pôs-se a chorar.

Enfim, chorou.

“O que a senhora vem sentindo?”

Relatara ao médico tudo aquilo que a importunava há dias: a perda de apetite, o emagrecimento considerável, as febres com suores noturnos, o cansaço fora da normalidade. Pensara, a princípio, em diabetes. Lembrara que havia casos na família. Uma tia havia falecido por complicações oriundas das altas taxas de glicose no sangue, sua avó também havia padecido dessa doença Não. O retorno daquela tarde de junho não daria vazão as suas suspeitas. Não estava com diabetes Mellitus.

“Então, doutor?… é grave?”

Doutor Fonseca, embora estivesse acostumado com tais resultados, assustou-se com o aumento desenfreado de leucócitos. Estava consumado: aquela produção excessiva e inadequada de glóbulos brancos defeituosos. Após idas e vindas ao hospital, repetições de exames, laudos e relatos ao médico, enfim, o diagnóstico cruel.

Em casa, no lar, no seio da família desmanchou-se em fluidos lacrimais novamente. Na folha que havia caído ao chão da cozinha e a qual Pedro, o marido, apanhara segundos depois, pôde-se ler em letras garrafais:

NEOPLASMA MALIGNA.

Abateu-lhe inicialmente o desespero comum a todos aqueles que se descobrem com um câncer. A leucemia cravou-lhe um âmago de dor e angústia. A falta de força para enfrentar essa enorme avalanche se desfez quando viu, poucos dias após o diagnóstico, da janela do quarto matrimonial que dava para frente da rua em que morava, seu esposo ensinando ao Lucas, o único filho, as artimanhas de se pedalar.  Aluminou-se com os sorrisos largos dos dois. Lembrara o quanto a vida apresentava-se como uma pluma para ela. Tinha um bom emprego em um escritório jurídico. É bem verdade que vez enquanto queixava-se do salário, entretanto o bom trato no ambiente de trabalho, as boníssimas amizades e a certa “estabilidade” que adquirira a faziam permanecer naquela labuta. Havia casado com um gentleman. Carinhoso, atencioso, trabalhador, respeitador e que acima de qualquer circunstância a amava. Dessa relação harmoniosa, ganhou um de presente de Deus como sempre repetia ao mundo, uma criaturinha terna, de olhinhos miúdos como se sempre estivessem pedindo um colo, um afago, um ‘te amo’. SIM. Lutaria. Sangraria. Venceria.

Com este pensar, o sol parecia-lhe mais intenso que de costume, os pássaros pareciam-lhe cantar mais afinadamente. Sim. Havia de lutar. A guerra havia apenas iniciado. Na mente, agora, havia um quê de esperança. Sim. Definidamente haveria de erguer a espada e o escudo e ir avante.

“Bem, Dona Bárbara, iniciaremos na próxima semana seu tratamento. É uma parte mais complicada…”

Doutor Fonseca, solícito, explicara os procedimentos que adotaria. Assim, optara pelo tratamento comum no trato daquela doença: Quimioterapia seguido de Radioterapia. Bárbara sentira, como de praxe, os enjoos… As náuseas… Daí para os derradeiros vômitos foi um milésimo.

“Doutor, esses enjoos, essa tontura, esse mal-estar…”

“Estamos bem. Estás reagindo bem ao tratamento. Esses sintomas são normais. Os medicamentos são para ajudar a destruir as células doentes…”

A explicação de como o tratamento seguia seu curso ia leve e amigável. A fala compassada, porém absoluta do médico, trazia apaziguamento a ela, ao filho e ao companheiro matrimonial. Toda vez que as nuvens turvas assopravam-na melancolicamente, lembrava-se dos afagos do filho, que mesmo sem tomar conhecimento da gravidade da doença de sua mãe, agarrava-se a ela como se ainda estivesse dentro de seu útero, como se ainda fossem ligados pelo cordão umbilical. Lembrava-se, também, do apoio do esposo e das palavras de conforto e de encorajamento do médico. Sentia-se mais viva, encorajada para enfrentar as tormentas, embora, a violência do tratamento assustasse. Queixava-se das limitações decorrentes da doença, principalmente o cansaço que a impossibilitava das tarefas triviais do cotidiano. Ultimamente, dera para implicar com a devoção do marido, que desde enfermidade da mulher, assumira o papel dela nas tarefas domésticas. E ainda havia os tais efeitos colaterais. Esses sim a aborreciam demasiadamente. Detestava o incômodo de cada sessão de radioterapia. Pensara muitas das vezes em desistir, em apenas retornar ao lar e cuidar de seus dois homens até o fim de sua carne. Pensamento este que desaparecia a cada rosa cuidadosamente comprada para entregar-lhe após cada vitória. Sempre se emocionava com tais gestos de amor e solidariedade. Embora soubesse que ganharia uma rosa a cada sessão findada, era sempre uma surpresa. Era sempre uma sensação de ser amada incondicionalmente.

“Para quê esses panos, papai?”

“Olha filho, mamãe está doentinha. Está melhor agora. Vai sarar logo, mas para ela ficar curada, ela ainda…”

A paciência e a força do afeto com que explicara a comprar daqueles lenços que serviriam para amenizar a dor que ela sentiria ao perder os cabelos foram dignas de admiração. O filho entendera que sua mãe perderia daqui a dias os longos cabelos negros. Lisíssimos. Belos. Dela.

O quão foi difícil. Havia sim lido sobre o assunto, Dr. Fonseca explicara o que ocorreria, entretanto, nem sempre podemos associar a teoria à prática. Chorou por deveras a perda de suas tão cultivadas madeixas. Demorou  um tempo até se acostumar ao novo estilo. O marido e filho, sempre ao lado dela, como que para incentivar o novo look, vestiram-se com alguns dos vários lenços que o marido comprara. Gargalhadas e abraços generalizados. A comédia transformara a tragédia em uma epopeia. Tal episódio fincou-se sim para sempre na história deles.

As internações foram sim a parte mais indigesta do tratamento. A separação. Ficar longe de seus “homenzinhos” foi um golpe cravado no peito. No total, foram aproximadamente cinco ou seis. E a cada retorno, a felicidade de estar em seu lar, perto dos amores de sua vida e a tristeza da limitação de visitas por causa do seu sistema imunológico em reabilitação.

Da descoberta da doença à cura foram cerca de 8 meses. De certa ótica, tivera muita sorte, pois descobriu a enfermidade em fase inicial. As doses de quimioterapia associadas ás torturantes sessões de radioterapia tiveram resultados eficazes. É lógico que teria atenção redobrada para com a alimentação, com a saúde como um todo. Jamais esqueceria as palavras contundentes do médico que a advertia sobre a inconstância dessa moléstia. Claro que teria que realizar acompanhamentos e exames de tempo em tempo, no entanto, a normalidade das taxas de leucócitos no seu sangue, bem com a estabilidade de sua saúde, encharcaram seu coração de alegria e vontade de viver. Agradeceria a deus pela benção alcançada e por ter lhe dado a força necessária para enfrentar aquela batalha junto com seu presente terreno: Sua família amável.

Ás 17:35, ou menos, saíra do Chagas Nobre. Era uma quinta-feira nublada. De novo, estava lá. Defronte ao hospital. O hospital de tantas idas, vindas e internatos. As lágrimas desta vez despendiam-se de seus olhos com a liberdade lírica de qualquer verso de um poema qualquer. Olhou novamente para rua oposta, seus olhos passeavam levemente a fim de enxergar os pormenores devolvidos aos seus sentidos. Percebeu que do outro lado da rua, havia uma pracinha. Os bancos brancos abrigavam os transeuntes e os clientes de uma banca de revistas. Ainda reparou que as poucas gramas estavam protegidas por grades verdes, meia-altura. Enfim, havia vencida a guerra, embora com cicatrizes. Mas havia devorado aquilo que a devorava. Neste instante, suas reflexões foram interrompidas pela buzina que viam do lado da tal praça de bancos alvos…

De prontidão, foi ao encontro do palio fira vinho, 2013, sem antes, certificasse de que daria tempo de atravessar sem ser colidida por algum automóvel. Ao completar o percurso, antes de adentrar ao carro, ainda teve tempo de lembrar que quase fora atropelada há meses quando fizera esse mesmo caminho. Após um beijo carinhoso no marido e um “eu te amo, meu príncipe” ao filho, percebeu uma linda rosa vermelha pendurada no espelho central do carro. Com o barulho do motor e a partida do carro, respondeu ao motorista do corsa prata:

“Não. Não estou louca nem quero morrer”.

“Oi, falou algo, amor?”.

 Ela balançou a cabeça negativamente, acariciou os cabelos do marido e sorrindo docemente sussurrou: “eu amo vocês, obrigada”.

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