O Murão

 

 

 

 

(São Paulo – SP) 

Todos os dias funcionários de telemarketing da rua direita passam no horário de almoço pelo extenso muro do colégio particular para crianças de pais ricos. O murão se localiza logo ao lado de onde todos eles lutam diariamente por um salário mínimo.

Não havia um que não soubesse fazer algo além de reclamar naquela empresa e Amélia era uma deles, porém pontual e fiel a sua rotina, reclamava assertivamente de sua coordenadora com as colegas de trabalho enquanto passava pelo murão em direção ao restaurante de prato feito do final da rua, ela economizava seu vale refeição assiduamente com um objetivo: comprar seus maços de cigarros.

O escritório era denso, os telefones não podiam ficar desligados um segundo qualquer, era preciso vender. Falar. Ligar. Mentir. Esbravejar. Relevar. Ludibriar. Não ceder. Tolerar. Não era permitido parar. Era o lema da empresa se quisesse manter o emprego.

Tudo que é muito rígido acaba rachando um dia, sendo assim, se permitiam por quinze míseros minutos da carga horária para conversas fiadas e alguns tragos encostados no murão.

Jaqueline sempre acompanhava Amélia nestas escapadas.

– Quem mandou nascer pobre né amiga.

Amélia acendia um cigarro e a luz do sol dava vasão nos seus cabelos ruivos, então ela lamentou:

– Cansei dessa vida Jaque, todo santo dia é a mesma coisa!

– Ai amiga… Um dia eu vou abrir meu salão de beleza.

– Fumando igual uma caipora, você nunca vai conseguir! – Amélia respondeu com risos.

– Olha só quem fala… Você nunca tá sem um maço Amélia. – Retrucou com deboche.

– Mas eu sou realista, é o que me resta.

– Quem tá reclamando é você, eu apenas estou sonhando!

– Complicado!

– Difícil mesmo é defecar um coco! – Jaqueline respondeu rapidamente.

Vícios precisam ser alimentados, era o mínimo que elas julgavam merecer nesta vida assalariada e desgastante; Jaqueline era viciada em sonhos e nicotina, já Amélia, apenas nicotina.

Marina também havia descido para fumar logo em seguida das duas. Completara uma semana naquele exato dia desde que começara e ainda estava tentando se enturmar com as colegas, então se aproximou dizendo bem humorada:

– Conversando com o Diabo meninas?

– Tá Louca? – Amélia respondeu ríspida.

– Calma, é que minha vó sempre dizia que o fumo era a ficha para uma ligação direta com o cão, mas nunca acreditei! – explicou ponderadamente.

– Credo menina, isso é coisa de se falar! – Jaqueline afirmou receosa.

– Você é doida mesmo novata, mas gostei dessa comparação! – Amélia afirmou com um sorriso discreto.

– O clima no escritório é pesado né.

– Vai se acostumando novata, se não consegue coisa melhor, é o que tem pra hoje!

– Você tem razão Amélia – Jaqueline concordou enquanto acendia outro cigarro – Isso aqui é quase um inferno.

– É cada um que liga aqui… Sério! Não são deste planeta! Deve ser tudo coisa do Diabo mesmo. – Amélia concluiu tossindo violentamente.

– Cuidado com essa tosse aí – Advertiu Jaqueline – Lembra do Marco? Começou assim!

– O que aconteceu com ele? – Marina perguntou curiosa.

– Câncer.

Pairou um silêncio no ar.

– Vou fumar só mais um, podem ir subindo se quiser meninas. – Amélia afirmou.

Naquele último trago da tarde, havia ressentimentos. Palavra não dita. Palavra mal (dita).

Em cada tosse, cada escora no murão era repleta de arrependimentos.

Doía saber que era preciso retornar para sua mesa, colocar o headset e atender centenas de ligações enquanto sua coordenadora a chamava de inútil. Parecia não haver escolhas. Reclamar foi o que restara. Quando avistava ao longe os carros luxuosos que chegavam para buscar as crianças, Amélia sentia tristeza e uma fisgada de injustiça.

O que será que o murão teria para dizer caso respirasse?

Após aquele último trago, ela apagou sua bituca no murão e notou as marcas de cinzas que já haviam sido deixadas por outros naquela parede, suspirou lentamente buscando algum conforto e retornou ao trabalho contando quantos cigarros ainda lhe restavam.

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