O Monstro Faminto

 

 

 

 

(Ubatã – BA)

 Naquele tempo, ouvia-se muito falar sobre um monstro que perambulava nos arredores do vilarejo. Os aldeões, todas as noites, faziam uma fogueira na parte central da vila, como uma promessa aos deuses, em troca de proteção. Porém, seja pela consciência dos sábios, seja pela natureza de toda imaginação sobrenatural, todos tinham em mente que, a misericórdia dos deuses é pouca e, por isso, um dia aquele monstro iria invadir tudo e destruir a todos, indubitavelmente.

Apesar disso, o dia a dia na vila era controlado. Tarefas eram bem divididas e disciplinadamente cumpridas. Homens e mulheres juntavam-se nas colheitas, na caça e nas atividades domésticas. E no final das tardes, todos levavam metade de toda a produção, pública ou particular, para ser oferecida aos deuses, na fogueira.

A vida ali era uma tentativa coletivamente sóbria de adiar a morte. No entanto, dentro dos lares, tinha certa tensão. À noite, em algumas cabanas, havia sempre alguma discussão na divisão da comida, que sobrava sempre pouca, do trabalho coletivo. Em outras, via-se demonstrações melancólicas de sacrifícios e de generosidade em prol dos mais jovens. Mas ainda assim, a fome se fazia sempre presente.

De umas noites para cá, uma das cabanas estava mais tumultuada do que as outras. Isso porque ali havia nascido um novo bebê. Daí exalava-se dali um misto de alegria e apreensão, visível pelas sombras que a grande fogueira fazia daquelas pessoas à noite.

Em uma dessas noites habituais, uma daquelas sombras se destacou do aglomerado que se fazia na casa da nova criança. Era a mãe.

Chorosa e aflita, ela saíra de perto das bocas cheias de ameaças em sua casa. E caminhara em direção à fogueira, que já ardia a todo vapor.

Deitou o menino raquítico no chão e sentou-se, tristonha. Foi quando viu uma movimentação por trás da fogueira. Alguns aldeões estavam jogando madeira no fogo. Porém, aguçando a visão, a mulher conseguiu ver sob a luz trêmula do fogo, outros carregando os recursos destinados às oferendas para longe da fogueira. Desesperou-se. Correu, berrando, a denunciar o desvio de recursos, a fim de solucionar a fome do filho, que acabara deixando ali no chão, no impulso de ter, enfim, encontrado a impossível saída. Sem nem mesmo pensar que isso implicaria no questionamento ao sistema de crença de toda a sua terra.

Os gritos da mulher alarmaram o povoado. Todos saíram com armas na mão, e alguns até gritaram, jurando terem visto o monstro invadindo a vila. Toda a confusão despertada suprimia a voz da mulher, que se confundia com a amálgama de gente para todo lado. Até que um tiro unificou a visão de todo mundo. Era na direção da mata.

Outro tiro, no mesmo lugar, despertou um urro grotesco. Muitos, então se ajoelharam, suplicando aos deuses piedade. Fez assim também a mulher, apavorada e sentindo-se absolutamente culpada pelo despertar do carrasco de todos. Quem não ajoelhou fugiu para sempre ou foi na direção do berro monstruoso. Alguns desses últimos, exaltados, apontavam, aflitos, marcas de garras enormes nas árvores e acabaram ajoelhando-se também. Apenas um homem e uma mulher sobraram de pé, anunciando terem visto a cara do demônio, e gelaram paralisados de pavor.

Todos, então, escutaram os berros da fera, cada vez mais altos e agoniantes, em seu anúncio definitivo do fim daquele povoado. Até que cessou. Fez-se um silêncio medonho. Após alguns minutos de angústia resignada, aos poucos, as pessoas começaram a se levantar, perscrutando se havia ainda vida neles próprios e no lugar, quando viram o monstro caído, todo ensanguentado e despedaçado no chão, e por cima dele a criança recém-nascida, devorando-o, com ferocidade faminta, pedaço a pedaço, a saciar a sua fome.

 

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