O Misterioso Homem da Sela

 

 

 

 

 

 (Goiânia – GO)

Num dia, seco e calorento de agosto, apareceu na cidade um indivíduo trazendo uma sela nas costas, como se fosse um cavalo arreado. Era moreno, magro aparentando no máximo 40 anos. Estava descalço, barbas crescidas, vestia uma calça de brim e camisa de algodão, ambas velhas, desbotadas, com alguns rasgões. Imagine o medo da população ao ver tão estranha criatura. Por um instante, pensando que ele pudesse representar algum perigo uma multidão foi ao seu encontro. Ao pressentir toda aquela gente se aproximando e, acreditando que iria atacá-lo, ele tentou se esconder, tomado pelo pânico.

As pessoas se aproximaram dele e ficaram olhando. Ninguém fez nem falou nada. Seus olhos tinham a profundidade de quem já sofrera muito, mas trazia no rosto uma inocente loucura. A sela nas costas tornava-o uma figura exótica. Seu nome ninguém perguntou, mas ficou conhecido como o “Homem da Sela”. Perambulava de cidades em cidades carregando o arreio nas costas, talvez, fruto de uma demência que o transformava naquela criatura estranha. Até que um dia chegou aquela cidade, alojando-se debaixo de uma mangueira.

Quando aparecia no centro da cidade, provocava a reações variadas das pessoas. Algumas, ao virem passar não deixava de persignar-se e rezar o credo em voz baixa. Enquanto outras, o olhavam de esguelha, principalmente, por causa da sela nas costas. Muitas pessoas pareciam apiedar-se dele e lhe ofereciam comida, contudo mantinham-se a distância com medo. Já outras, o olhavam com indiferença, tendo o cuidado de não se aproximarem muito dele, como se aquele homem fosse portador de uma terrível doença contagiosa. Com medo, as mães levavam os filhos para dentro de casa e fechavam as portas. Ele se sentia ameaçado, como um intruso num mundo em que entrara sem pedir licença. Mas, nada podia fazer. O abrigo mais seguro, a melhor opção para ele era debaixo da mangueira.

Passaram-se alguns dias e então, começaram surgir versões sobre a existência e o comportamento daquele homem, que além de divergentes traziam muitos preconceitos. Para uns, os mais esclarecidos, ele era um louco que pensava ser um cavalo. Para os supersticiosos e simplórios, ele tinha parte com o demônio e, por isso, o evitavam sistematicamente. Já os religiosos afirmavam que ele cometera um pecado muito grave e por isso fora castigado por Deus, pagando em vida sua falta. Não demorou muito e ganhou a fama de amaldiçoado.

A presença desse homem na cidade gerou todo tipo de apelo a imaginação de que a lenda precisa para se propagar, estimular a fantasia e criar suas próprias histórias. Por isto, edificados nas versões formuladas pelos habitantes, e que em nada se baseavam, muitas histórias foram surgindo e se transformando em explicações verdadeiras na boca do povo para aquela sela em suas costas. De qualquer forma, todos estavam de acordo com o que ninguém sabia, mas tinham a certeza de que fora do jeito que imaginaram. Passou-se a correr pela cidade, uma história de que a sela nas suas costas fora um castigo, uma praga da mãe, que teria sido montada e espancado por ele, até a morte. Antes de morrer, ela teria lhe rogado a terrível maldição de carregar aquela sela grudada nas costas, pelo resto da vida. Diante disso, ele merecia mesmo ser castigado, diziam todos. Com a junção de todos esses ingredientes, aquele homem passou a levar consigo, além da sela, o estigma de ser o assassino da própria mãe.

Um dia, ele desapareceu da cidade. Nunca mais soube-se dele. Entretanto, a cidade continuou contando por muito tempo, uma história que ela mesma inventara para explicar aquele homem misterioso e sua inseparável sela, transformando-o num cumpridor de uma impiedosa sina.

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