O Milagre da Flecha

 

 

 

 

 

(Imbé – RS)

– Sim, amor… sim… É, amanhã tô de folga… Certo. Beijo, te amo.

Assim Zé finalizava a chamada para Joana, a “patroa”, avisando que não chegaria para o jantar, já que surgia um serão de última hora.

Eram sete da noite de uma sexta-feira fria de inverno em Tramandaí. A obra em que Zé trabalhava progredia bem, a turma estava pelo menos três dias a frente do prazo, e o senhor Amaral, contente com o bom andamento, havia adiantado o pagamento do pessoal, normalmente feito aos sábados, e ainda um pequeno bônus por produção. Com verba no bolso e folga no fim de semana, a maior parte dos trabalhadores já estava ou se encaminhava para sua residência, mas uma parcela do pessoal marcara de ir ao Mega Privé, encher a cara e descolar umas garotas que se encantam com cifras. Zé fazia parte do segundo grupo.

 

Zé não era um calouro quando se tratava de Mega Privé. O mais popular dos inferninhos era frequentado assiduamente pelo peão desde a sua mocidade. Vira várias garotas estrearem e se aposentarem do local, a grande maioria já tendo passado por suas mãos (e sua carteira). Quando casou, há dois anos, as idas tornaram-se bem menos frequentes, se resumindo a uma outra noite de sexta ou sábado quando tocava alguma obra nas proximidades e, evidentemente, possuía recursos financeiros suficientes para que Joana não notasse. Sua última ida ao local havia sido há mais de meio ano, sentia falta da farra e de variar de lençóis, de modo que não perderia tempo nesta noite. Se a mulher notasse que estava bêbado, diria que, entre um e outro intervalo, bebera com a rapaziada. Já usara esta desculpa algumas vezes e sempre funcionara.

Vivi, uma loira bronzeada que nascera Rosicler e morena, já havia oferecido seus serviços duas vezes a Zé e, como em sua profissão o diabo conhecido sempre é melhor, insinuava-se para o peão desde a sua chegada, ás 22:30. Faltando quinze minutos para a meia-noite, e após cinco garrafas de cerveja, Vivi e Zé subiam para o quarto com mobília pobre e cafona que, pela última vez, o marido de Joana entraria.

***

Garoava às quatro da manhã. Zé acordou de sobressalto, sem saber onde se encontrava por alguns poucos segundos, mas, quando a vista desanuviou, reconheceu o quarto familiar. Dormira por quase duas horas, como constatou no relógio. Vivi encontrava-se a seu lado, roncando e também exausta. Levemente cambaleante, Zé vestiu-se e desceu novamente para a pista que, a esta hora, estava com um terço da capacidade, mas seus colegas já tinham ido embora.

– Porra, Ribamar! – Zé falou para si.

Ribamar era sua carona pra voltar para casa, na Barra, em Imbé, cidade vizinha. Pelo visto, o colega se fora, e agora Zé teria de voltar de Dindinho, o único ônibus de linha da região. O ponto de ônibus mais próximo ficava a meio quilômetro dalí, mas o primeiro horário era apenas às seis horas. Pesando rapidamente os prós e os contras, Zé decidiu que iria caminhar até o ponto e ficar por lá, até o Dindinho passar. Talvez ajudasse a curar a ressaca, pensou.

Assim, após comprar uma garrafinha de água sem gás e pagar a consumação, saiu do Mega Privé e, lentamente, caminhava na garoa fina rumo à parada de ônibus, alheio de que, desde que saíra do quarto de Vivi, ainda visivelmente bêbado, era observado por um jovem de vestes escuras. O mesmo jovem que agora seguia seus passos na escuridão, sem tirar a mão do interior da jaqueta.

***

Perdido em pensamentos e devaneios devido ao álcool, Zé foi empurrado contra um muro, ao mesmo tempo em que o assaltante pressionava o .38 contra seu pescoço. De olhos arregalados, sem poder enxergar devido à escuridão, o peão sentia-se apavorado.

– P-por f-f-favor, eu… – tentava falar.

– Cale a boca, negão! – respondia o jovem, pegando a carteira do bolso da calça de Zé, sem tirar a arma de seu pescoço.

– Mo-moço, eu.. eu tenho filho pra criar e…

– Eu mandei calar a boca!

O assaltante golpeou Zé com a coronha da arma. A cabeça do peão bateu com força no muro, enquanto sangue e pedaços de dente enchiam sua boca. Zonzo, deslizava lentamente para o chão, quase sem sentidos, quando escutou o cão do revólver sendo puxado.

– Por favor – suplicava Zé -, por favor… Leva tudo, mas não me mate… pelo amor de Deus!

– Deus? Acha que Deus mora do lado da zona, crioulo?

As lágrimas corriam pela face de Zé. O homem só havia chorado no velório de sua mãe, há mais de uma década, mas agora nem se dava conta de que soluçava ao implorar por sua vida ao desconhecido.

– Chega de papo, negrão – continuou o jovem -. Se sabe rezar, pode tentar, tem três segundos…

Zé só se lembrava de ter ido a igreja uma vez no último ano, para o batizado de Junior, seu filho. A bem da verdade, não sabia nem rezar um Pai-Nosso direito, nem mesmo lembrava se o sinal da cruz era feito tocando o ombro direito ou esquerdo primeiro. Mesmo assim, tentou balbuciar algo.

– A-Ave M-Maria… A-A-Aleluia… A-Av…

Um forte clarão tomou conta de seus olhos. Inconscientemente, Zé julgou que era efeito do tiro. Depois pensou ser algum caminhão desgovernado. Mas, ao notar seu agressor caído no chão, deu-se conta de que ainda estava vivo.

***

Lentamente, ignorando a dor na mandíbula, engatinhou até o assaltante. A luz ainda era débil, mas Zé distinguia uma flecha cravada no peito do rapaz, que arfava com dificuldade na rodovia molhada. Antes que Zé pudesse chegar mais próximo, o peito do jovem inflou, expirou e ficou imóvel. Seus olhos sem vidas fitavam o peão, sob a luz do luar.

De joelhos, Zé ergueu a mão aos céus, num gesto de súplica e gratidão, mesmo sem ter certeza de quem lhe atendeu. Chorando, benzeu-se, passou ao redor do corpo do jovem e apanhou sua carteira. Dalí até sua casa daria em torno de 10 quilômetros, mas, uma caminhada não era nada para quem acabava de renascer para a vida.

***

O dia amanheceu nublado, mas, quando Zé passava pela Avenida da Igreja, o sol apareceu entre as nuvens, como um sinal. Sem pensar no que fazia, dobrou à direita e dirigiu-se a Igreja Nossa Senhora dos Navegantes. Sua intenção era de apenas acender uma vela, mas, já que as portas estavam abertas, entrou para tentar rezar um pouco.

Já na entrada, viu a caixinha de donativos, e deixou tudo o que restara de seu pagamento. Afinal, pensava, quanto valeria sua vida? Ajoelhou-se em um banco e, sem errar, rezou um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, enquanto a torrente de lágrimas fluía. Ao terminar, sentia-se renovado, purificado e, acima de tudo, grato por ainda poder viver, ainda poder estar com a família.

Consultou seu relógio e viu que já passava das 7:00, Joana já devia estar preocupada. Mas, antes de sair, decidiu que deveria tocar cada imagem que havia no local. Dezenas de santos estavam postados nas laterais da nave da igreja, e, todos, sem exceção foram tocados por Zé.

– Obrigado. Eu prometo ser uma pessoa melhor – Zé dizia a cada imagem.

– Ei! Não me toque nas imagens! – gritava o sacristão.

Zé acabava de tocar a última imagem, justamente a de Nossa Senhora Aparecida. Encabulado, pediu desculpas e, sem dar maiores detalhes, contou que estava apenas agradecendo a uma benção.

– Tudo bem, meu filho – disse o padre -. Não queria assustá-lo. Só gritei para não mexer nos santos porque, hoje pela manhã, ao abrir a igreja, notei que na imagem de São Sebastião está faltando uma das flechas.

(história foi baseada na canção “Milagre da Flecha”, de autoria do compositor Moacyr Franco.)

One thought to “O Milagre da Flecha”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *