O Lorde

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

 

Ainda sem ver o mundo, sentia no entanto o instinto da disputa pelo leite materno com seus irmãos. Todos juntinhos, mas cada um numa competição de sobrevivência, tentavam abocanhar a teta materna, num frenesim acompanhado de pequenos latidos, mais parecidos com choro de bebes rezingões, quando deparavam que a sua fonte de alimentos já se esgotara ou estava ocupada pelo parceiro mais lampeiro.

Numa nova luta, ora por baixo ora por cima dos manos, empurrando com a cabeça para fora o concorrente sôfrego que não largava aquele lugar privilegiado ainda cheio de leite quentinho. Na refrega, havia um mais latagão que nem com empurrões largava a teta, ferrando os pequenos dentes, originando queixumes na dócil mãe, em forma de pequenos gemidos.

A claridade ao abrir os olhos fez com que os voltasse a fechar perante agressividade da luz. O seu coração acelerou em batidas frenéticas, ao sentir-se agarrado por um ser que o elevou nos ares, amarfanhando-o contra si. Emitia sons esquisitos, correspondidos por outros seres que lhe passavam as garras pelo pêlo sem no entanto magoar. Com olhar aflito, procurava a protecção da mãe que soltou um pequeno latido a acalma-lo. A tranquilidade só veio quando o depositaram no quentinho junto à barriga da sua mãe.

Esta vida feliz de come e dorme durou perto de um mês. Durante este período sentiu a importância que os seres de duas pernas lhe davam, sempre alisando-lhe o farto pêlo e conduzindo ao colo em exposições maçadoras, embora aconchegantes. Mas era junto dos irmãos que se sentia feliz, corria atrás dos outros numa corrida vertiginosa que as suas pequenas pernas permitiam. As lutas com os irmãos faziam parte da brincadeira e ajudavam no crescimento que se via a olhos vistos.

Um dia tudo mudou. As mãos carinhosas da dona, que volta e meia o exibia com orgulho, naquele dia após o depositar nos braços do novo dono, não mais as sentiu. Era agora uma voz mais grossa que o acarinhava. Já habituado a estas manifestações dos humanos não estranhou e até gostou do leitinho morno que lhe serviram. A outra voz mais fina, parecida com a dona que o levava a passear fez-lhe uma cama numa alcofa. Com a barriga cheia adormeceu, sentindo-se feliz na companhia daqueles sons dos humanos, que o embalava. Quando acordou era escuro e estava sozinho. Ao ver-se só, sentiu-se abandonado. Primeiro, a tristeza expressada em pequenos latidos. Depois o pânico ao não ver ninguém nem os seus irmãos nem os humanos que o acarinharam. Chorou, chorou, num choro que fez com que o humano da voz grossa acendesse a luz e o tranquilizasse com sons que não entendia, porém o acalmavam. Voltou-se a apagar a luz, vendo-se sozinho no escuro voltou a chorar, agora com mais insistência. Novamente a luz acesa e a calma no pequenino coração do cachorrinho voltou.

-Traz o cachorro para aqui senão ninguém dorme esta noite.

Era voz mais fina, já farta de o ouvir a chorar. Debaixo da cama dos humanos, voltou a adormecer, confortado pela presença deles. Aprendeu que quando quiser companhia basta chorar.

– Se eu contar que dormi com um cão debaixo da minha cama ninguém acredita.

– Deixa lá mulher, deve ter sido só esta noite! Coitadinho do animal! Ali ao ver-se sozinho, é natural ganisse.

– Já que estás com tanta pena porque é que não vais para ao pé dele e dormem os dois juntos? Podia ser que assim eu me livrasse de dois pulguentos.

– Eu ia, mas tenho medo que fiques para aí a ganir.

Confortado com este diálogo dos humanos o pequeno cachorro adormeceu feliz.

 

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