O Lobo Preguiçoso

lobo mauAntônio Roque Gobbo

Da série “Contos da Vovó Bia”

— Vó Bia, conta uma historia… conta? — Pede Dorinha, com seu jeitinho carinhoso.

— É, vovó, uma história de bichos que falam. — Tavinho completa o pedido da prima.

— Do lobo mau. — completa Dorinha

A avó sorri para os netos. Um sorriso afável, bondoso e cheio de ternura. Estão sentados no grande alpendre da casa da Fazenda Palmeiral. Vovó Beatriz faz tricô, atenta aos pontos do trabalho e ao mesmo tempo de olho em tudo que se passa ao seu redor. Os dois netos sentam-se no chão de tábuas lisas, tão lisas que parecem envernizadas., tantas vezes foram esfregadas por Emerenciana. ,

A manhã está meio chuvosa, razão pela qual Otávio e Dora estão ali, ao redor da avó.

A velha senhora ergue os olhos por instantes do trabalho que executa com perfeição.

— Não, não. Do Lobo Mau ela já contou outro dia, diz Tavinho.

— Sim, diz a avó, respondendo aos dois. — Já contei do Lobo Mau e Chapeuzinho Vermelho, do Lobo Mau e os três Porquinhos… Mas existem tantas histórias de lobo mau.

— Então, conta ma história que a senhora não contou ainda. — Dorinha levanta-se e chega até onde a avó está sentada, e passa a mão direita pelos ombros da avozinha.

— Bem, acho que vou ter de refrescar a memória. —Diz Dona Beatriz, levantando-se e dirigindo-se para dentro da casa, — Venha comigo, Dorinha, vamos escolher um livro com histórias de lobos maus.

Caminha até defronte à grande estante com portas de vidros, repleta de livros e que ocupa quase que toda a parede da sala de visitas. Usa a chave para abrir a estante, e inicia a procura.

— Vamos ver… Aqui… — passa os dedos pelas bordas dos livros e para sobre um, de costaneira vermelha. — Aqui está: História do Lobo Preguiçoso e a Sabiá esperta

Retira o livro e volta para a cadeira no alpendre. Abre o livro e antes de iniciar a leitura, olha por sobre o parapeito de madeira, e sua vista se perde até o horizonte. Mas a névoa e o chuvisqueiro fino só permitem que ela veja até a borda da mata.

— Este livro tem uma história que mostra bem como a astúcia do lobo é vencida pela esperteza de um pequeno passarinho, uma sabiá-coleira.

Otavinho estranha o modo como a avó fala da ave:

— Uma sabiá? Eu sempre ouvi dizer um sabiá.

— Sim, diz-se geralmente O sabiá. Mas neste caso, é uma sabiá fêmea.—Explica Dona Beatriz. — Aliás, em alguns locais do Brasil dizem A sabiá.

Acomodada de novo à poltrona de vime, abre o livro.

— Bem, mas vamos à história.

 “Em uma pequena mata vivia um casal de sabiá com seus filhotes. O casal não descuidava dos filhotes e tanto o papai como a mamãe sabiá voavam o dia inteiro, daqui pra ali, sempre à cata de insetos e pequeninas frutas que traziam para alimentar os três filhotinhos. Não se preocupavam com nada, nem com os dias de verão, nem com a estação e nem mesmo com os dias de inverno, de frio cortante.

Entretanto, bem debaixo da árvore onde vivia a família de sabiás, e de onde os sabiás enchiam de alegria as manhãs e as tardes com seus alegres trinados, morava um lobo, numa toca cavada sob a árvore.

O lobo era diferente dos outros da sua espécie: era preguiçoso, mas tão preguiçoso, que não tinha ânimo nem para ir caçar, e vivia constantemente com muita fome.

Era outono e pelas manhãs soprava um vento fresco. A família dos sabiás acordava cedo e se punham a cantar muito alto, para anunciar o novo dia. Depois, saiam para se alimentar e trazer comida para os filhotes.

O lobo, pelo contrário, gostava de ficar dormindo até tarde, e ficava muito irritado com a cantoria dos sabiás, no galho bem acima de sua toca.

O lobo pensou então numa maneira de se ver livre dos sabiás, e ao mesmo tempo matar um pouco a sua fome crônica. Ficou esperando na beira do poço onde os sabiás iam bebericar água todas as tardes.

— Fico aqui de tocaia e pego esses sabiás de surpresa. — falou consigo mesmo.

Uma tarde, dona sabiá foi bebericar água no pequeno poço. O lobo preguiçoso estava detrás das moitas, esperando justamente por aquele momento.

Que sorte! Eis minha oportunidade de acabar com a sabiá. — pensou o lobo.

Esperou engolindo saliva. Quando a ave estava bem distraída, com o biquinho assim para cima — glu, glu, glu — ele ZAPT!  Pegou a sabiá com sua boca grande e babenta.

A mamãe sabiá se viu, num abrir e fechar de olhos, na boca do lobo preguiçoso. Mas rapidamente gritou, antes que o lobo a engolisse, com a voz sufocada:

— Espera um momento, seu lobo!  Estava asfixiada, porém não desanimou e prosseguiu, trinando com quanta força ainda tinha:

— Escuta só. Estou quase morta e não me queixo de ser engolida por você. Estava distraída e você me pegou. Tudo bem. Mas quero lhe fazer um último pedido. Peço-lhe que chame meu marido para me despedir dele e falar para ele cuidar bem dos filhotes. Ele mora ai, bem em cima de sua toda, naquele galho ali, está vendo?

Ao ouvir o pedido da Sabiá, o lobo pensou astutamente

Agora, sim, vou poder comer também o sabiá marido dela.

E abrindo a boca, gritou para o sabiá, que a tudo assistia lá de cima do galho:

— Seu sabiá, venha despedir-se de sua mulherzinha.

Mas quando o lobo abriu a boca para gritar, chamando o marido da pobre avezinha, a mamãe sabiá espertamente escapou, e ainda que estivesse sem algumas penas nas asas, voou até o galho ondO LBOe estava o marido.  O lobo ficou roxo de raiva e não teve outro remédio senão ficar olhando para o galho, para os dois passarinhos, da mesma forma que um cachorro perseguindo uma galinha, fica contemplando triste o poleiro alto onde ela subiu.

A dona sabiá, olhando o lobo lá em baixo, falou:

— Como você é idiota, seu lobo. Pensou que comendo uma ave tão pequenina como eu, você encheria seu estômago?

Depois de mais alguns trinados, a fim de enfurecer o lobo, mudou de tom

— Mas espere um momento, a sorte vai sorrir pra você. Como poderei esquecer que foi você mesmo quem me liberou? Em agradecimento, vou levar você a um lugar que tem muita comida. Venha, siga-me.

Oferecendo-se como guia, foi voando de galho em galho, sendo seguida pelo lobo preguiçoso. Levou-o para um local onde passavam pessoas que iam ao mato, buscar lenha.

Naquele exato momento, passavam dois lenhadores com machados afiadíssimos e cordas para amarrar os feixes de lenha.

— Olha lá, não é um lobo o que estou vendo? — cochichou um dos lenhadores para o companheiro.

— Sim, sem dúvida. Vamos pegá-lo!

O lobo não tinha visto os lenhadores. A sabiá pousou suavemente na sua nuca para avisá-lo que os lenhadores iriam matá-lo.

Quando o lenhador viu a ave na nuca dói lobo, falou baixinho:

— Veja! Tem um passarinho no lombo do lobo. Vamos pegá-lo primeiro.

Assim dizendo, foi se aproximando devagarzinho, passo a passo, com um pão pronto para bater na cabecinha da sabiá. Ela, então, falou para o lobo:

— Lobo, não se mova. Finja que está morto. A fuga algumas vezes é pior. Mesmo que o lenhador te dê uma paulada, a primeira vítima serei eu, pois estou sobre o seu cangote.

O lobo pensou que a mamãe sabiá tivesse razão. Assim, obedeceu a ordem da pequena ave.

Neste momento, o outro lenhador disse ao ouvido do primeiro:

— Olha, vamos pegar o lobo e o passarinho de uma só vez.

Ato seguido, os dois golpearam na direção do lobo, que se fingia de morto e da sabiá. Esta, no exato instante que os paus iam lhe cair em cima, voou, escapando agilmente das cacetadas que lhe seriam fatais.

O lobo não teve tempo para fugir. Quando percebeu as cacetadas nas costas, começou a lançar gemidos e uivos de dor. Finalmente, conseguiu escapar da fúria dos lenhadores, e voltou correndo para sua toca.

Enquanto lambia as feridas e sentia mais fome (pois fazia dias que nada comera), ia pensando no desastre que tinha sido a idéia de comer os passarinhos.

Desde então, quando acordava com os trinados dos sabiás sobre sua cabeça, pensava:

— Deixa eles. São muito pequenos para minha grande fome.

E voltava a dormir. “

2 comentários em “O Lobo Preguiçoso

  1. Muito bom o seu conto. Aqui e ali umas pequenas gralhas que só acontecem a quem escreve, “na nuca dói lobo”, “ondO LBOe “. isto não desmerece em nada o seu texto, pelo contrário, conheço um escritor amigo que escreve como eu gostaria de escrever, todavia, os seu textos têm que passar sempre por um “crivo”,alguém que lhe detete as gralhas embora ele afirme que lê e relê. Eu também faço o mesmo, pedindo à patroa que reveja e mesmo assim sempre escapa qualquer coisa. Bom, depois disto só nos resta pedir, caso fosse possível, o acesso ao texto para que o pudéssemos corrigir. Meu caro Antônio Roque Gobbo, dou-lhe os meus parabéns e continue a brindar-nos com o seu talento

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