O Lobisomem Destruidor de Lares

 

 

 

 

(Salvador – BA)

Ela era apenas mais uma. Mais uma que eu tinha uma esperança – quase surreal… – quase autodestrutiva e mórbida – de ser minha namorada. Era sempre assim, eu fazia de tudo no início… eu sempre estava na seca entre uma paixão e outra, sempre há meses sem conseguir ninguém…

nada de beijos e nem trepadas, nada de amor gostoso, nada de dormir de conchinha, nem mesmo andar mãos dadas… nada de nada.

Michele era apenas mais uma, ela era mais uma… que eu queria que fosse muito mais do que apenas mais uma. Eu queria que ela fosse a última… nunca tive paciência pra sair pegando geral… me sentia injustiçado, azarento demais… “Cristo do céu, tanta mulher no mundo e eu só quero UMA…, só UMA! O que há de errado comigo?”

Michele era uma galega de olhos verdes, que um dia antes se pareceram azuis, olhos claros que pareciam mudar constantemente de cor. Estávamos com uma barraca de camping armada na beira do rio São Francisco. Estávamos na cidade de Andaraí, na Bahia. Era uma noite meio chuvosa e fria. Ninguém em nossa volta…

– Você contempla demais a vida. Pensa demais… – Zombou Michele.

– Eu escrevo roteiros de peças de teatro pra viver… pensar faz parte do trabalho. É como se fosse uma prévia. – Respondi bestamente… e tentando parecer um gênio incompreendido ou algo assim. Ela não riu… a coisa parecia estar piorando pro meu lado…

“Seu corpo parece feito de mármore”, pensei. Talvez o melhor e mais caro mármore que eu podia encontrar numa loja de decoração.

Ela vestia um short curtinho e uma camiseta branca. Não usava sutiã e eu podia ver sua calcinha aparecendo, – também branca, quase uma segunda pele… – pois estava sentada com as pernas um tanto… abertas, mas não de forma sensual… ela apenas estava à vontade. Estava à vontade com seu livro em mãos; à vontade falando alguma coisa de vez em quando e me ignorando logo em seguida. Dançávamos uma espécie de tango comportamental… que fazia eu me sentir muito mais vivo, do que nos últimos dez anos passados.

Sentado numa pedra, vendo Michele deitada num colchãozinho improvisado, eu sonhava acordado. Sonhava com um momento seguinte àquilo ali. Sonhava com o momento em que ela finalmente acabaria me achando mais interessante do que o livro, “O Profeta” de Khalil Gibram.

Eu estava pensando comigo mesmo, segurando meu celular quase descarregando, tentando ouvir uma música do Led Zeppelin chamada, “Heartbreaker” (“Destruidora de Corações”, bem adequado…) mas, eu sou chato com a qualidade das músicas que escuto e aquilo estava realmente terrível com o som do celular… sintonizei então num aplicativo de rádio que só tocava música clássica. Um som de órgão – bem tenebroso – começou a tocar… o que fez Michele me olhar por cima dos óculos, com uma cara de “SÉRIO? Vamos escutar ISSO?!”. Eu ri sem graça e dando de ombros, mas com o meu gosto musical ninguém mexe, e me recusei a tirar. A medida que as horas iam passando eu ia ficando cada vez mais puto e impaciente. Eu queria alguma coisa… algum sinal de que não éramos só amigos. Sempre fiquei impressionado como a capacidade de dissimulação das mulheres. Será que ela estava realmente TÃO INTERESSADA naquele livro?!

Alguns minutos se passaram e resolvi catar um livro de Bukowski que tinha trazido comigo. De repente com o órgão de Bach começou a me trazer de volta aos eixos e o mundo em minha volta, pareceu se mostrar pra mim… A lua estava cheia e linda, e iluminava a água… Uma garoa que caiu mais cedo fez com que tudo ficasse com um cheirinho gostoso de mato molhado. Bocejei e fui me encostando em meu colchão, quase roçando minhas costas como um urso. Juro que por alguns segundos… APENAS alguns segundos, Michele passou a ser segundo plano em meus pensamentos. Tudo ali estava deliciosamente confortável. Eu lia poemas do velho safado, enquanto a Aria na Corda Sol, de Bach, soava como se viesse de dentro da floresta… e não do meu pequeno aparelho. Foi quando ouvi a voz – dengosa – de Michele…

– Ué, já vai dormir…?

Levantei os olhos (pra responder que ia, mesmo…), e não pude acreditar no que vi. Até hoje não posso.

Michele vinha, meio que… “engatinhando” em minha direção, como uma gata. E logo foi se encostando e se enlaçando à mim tão rápido, que por alguns instantes parecia que ficaríamos grudados pra sempre. Suas pernas subiam e desciam entre as minhas vagarosamente e sua boca parecia querer engolir a minha.

Entre um beijo e outro – e pequenas pausas para respirar – eu encarei seus olhos… e um pensamento veio em minha cabeça; “meu Deus, pode me matar agora, se quiser…”.

Talvez eu não devesse ter pensado assim.

Um barulho de galho se quebrando nos fez darmos um pulo de susto juntos, como se fossemos irmãos siameses. Michele gritou “QUEM TÁ AÍ!!”, e eu tapei a boca dela, sussurrando “ei, shhh… você tá maluca, é?!”, ela virou pra mim atirando minha mão pra longe com uma cara de quem ia esquecer o galho (e todo a coisa sexual anterior…) e ia me despejar alguns bons murros na cara. Mas um outro barulho se fez… ainda mais alto. Não pareciam galhinhos pequenos se partindo. Parecia algo bem pesado subindo e descendo pelas árvores e quebrando galhos. Só que… galhos grandes… do tipo que fazem muito barulho quando caem.

Com o segundo barulho voltamos a ficar agarrados de novo. Não vou mentir que mesmo com a tensão, não pude deixar de notar o cheiro doce do pescoço de Michele… e também percebi que a “Rádio Lumen Clássic FM/Curitiba”, “Música da Melhor Qualidade!”, estava tocando uma obra de Camille Saint-Saens, cujo título em português seria “Dança Macabra”. O que hoje, parece sugestivo… ao que aconteceu em seguida.

– Olha ali, K. olha aliii!! Meu Deus K.!! – (a propósito…, eu sou “K.”).

– shhh… deve ser um gato do mato, não se mexa… – Era impossível, porque eu mesmo tremia que nem vara verde.

Eram dois grandes olhos vermelhos vindos da escuridão do mato. E junto à eles podíamos ouvir – e também sentir em nossas espinhas – um rosnado forte… algo que não podíamos estabelecer o que realmente era. Lembrava o rosnado de um cachorro grande tipo um pastor alemão, mas… vez ou outra, podíamos escutar algo que parecia um gemido humano, misturado à um riso insano… o riso de um homem insano. Não sabíamos o que era, mas já tínhamos certeza absoluta de que ele estava nos olhando. E que estava com muita… muita… raiva de nós.

Não sei quantos minutos ficamos ali parados. Me lembro de ouvir o barulho indicando que a bateria do celular já chegaria ao final enquanto um violino solitário tocava alguma coisa que eu acho que era Franz Liszt… quando Michele, que sempre fora mais corajosa que eu, deu alguns passos para frente – largando com força a minha mão que tentou segurá-la – e deu alguns gritos como se faz pra cachorro vira-lata cair fora. Os olhos vermelhos e o rosnado sumiram por poucos segundos… e Michele virou-se com um ar heroico pra mim, sorrindo lindamente.

– VAMOS DAR O FORA DAQUI! – Berrei, alucinado.

– K.! São quase cinco da manhã! Não vamos sair assim… vem dormir, venha! Vem deitar COMIGO.

– tá. – (e eu iria descordar?)

Já íamos entrando na barraca aos beijos e abraços e risadas – risadas meios nervosas, mas… risadas… quando ouvimos novamente o rosnado. Me virei rapidamente me pondo à frente de Michele, e ela me abraçou por trás, enquanto – aterrorizados – finalmente vimos o dono daqueles diabólicos olhos vermelhos.

Parecia um homem, nu e curvado, suas pernas eram secas, mas seu tronco e braços eram extremamente musculosos. Sua cabeça era a cabeça de um lobo preto. A baba branca, raivosa contrastava com todo o resto. Ele andava curvado aparentando lentidão… balançava seus longos braços enquanto se mexia, o que me fez reparar suas mãos, que na verdade eram garras enormes. Ele rosnava e mostrava seus dentes enormes, brancos e famintos. Agachou-se no chão e uivou… este uivo até hoje está em mim. Ele entrou em mim naquele dia, e hoje mora em mim… o uivo do lobo soa dentro do meu corpo quase todos os dias, principalmente na hora de dormir. O lobisomem correu em nossa direção.

Dizem que o ser humano é capaz dos atos mais heroicos em momentos de adrenalina e desespero. Mas, o que não dizem, é que o ser humano também é capaz dos atos MAIS COVARDES, em momentos assim.

Talvez o ataque tenha durado dois ou três segundos… mas foram dois ou três segundos que destruíram minha vida. Às vezes é melhor uma morte honrosa do que viver como um covarde.

Segundos antes do bote do lobisomem, tive a reação de empurrar Michele (que estava abraçada à mim) em cima do monstro… que aceitou de bom grado a comida (obviamente uma carne mais saudável, macia e cheirosa que a minha).

Ele a estraçalhou, diante dos meus olhos… numa ligeireza que somente algo sobre-humano seria capaz de fazer. Eu não consegui me mexer nem um segundo, e também não conseguia parar de olhar. Eu vi – como em câmera lenta – cada pedaço do pescoço e do rosto de Michele saindo de seu corpo e indo parar nos dentes daquele demônio enfurecido. Seu olhar agonizante, era de uma incrédula decepção… direcionada à mim.

O lobisomem se saciou… e foi se rastejando em direção ao mato enquanto seu corpo se contorcia e mudava de forma. O dia estava nascendo e ele estava se transformando em humano. O homem agonizou há poucos metros de mim, perto da floresta… e por minuto algum passou em minha cabeça a ideia de ir atrás dele. O castigo dele é ser o que é. Quando finalmente terminou de se transformar em humano… se levantou. Nu, magro, trêmulo e em prantos… tentando esconder sua nudez. Seu rosto, vermelho, as lágrimas descendo enquanto encarava a carcaça humana logo à frente. Ele sabia que o que tinha feito.

… me olhou com um ar de sofrimento e curiosidade. Parecia não compreender minha presença ali e o porquê de eu continuar imóvel. Alguns minutos depois um barulho se fez. Vinha de longe… mas o fez correr para dentro do mato. Eu voltei para Andaraí, pedindo socorro e contei o que vi. Ninguém acreditou em mim.

Hoje estou preso, obviamente. E não durarei muito tempo porque fui fichado como assassino de mulher e esquartejador… até os outros presos acham que sou perigoso demais – até mesmo pra esse mundo – e vão me matar assim que enjoarem de torturar meu corpo. Quanto a tortura acaba, me deito no chão, tão culpado e apático que não consigo entrar em desespero… aceito a dor, mas espero que ela acabe logo.

Mãe, quando você ler esta carta, provavelmente já estarei morto… a única coisa que espero com ela, é que pelo menos VOCÊ acredite em mim. Não quero que você me enterre pensando que enterrou um filho que se transformou num monstro. Pois o monstro ainda está lá. Solto pela Chapada Diamantina… talvez faminto… talvez não.

 

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