O Jantar da Junta

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

 

Corpo dengoso, nariz entupido, garganta seca, remelas que dificultavam o abrir dos olhos e uma irritação sem causa aparente fez Rufino acender o candeeiro para ver as horas. O vento lá fora zurrava fazendo levantar e baixar uma chapa meio solta no capoeiro. O som de uma trovoada ao longe desinquietou o cão que ajudava na chinfrineira ao arranhar na porta.A seu lado, Matilde ressonava de tal forma que nem o ranger da cama a acordou. Com as peúgas calçadas preparava-se para ir à cozinha beber um copo de água, mas faltava um chinelo. Teve que acender a luz novamente, desta vez não se poupou a um impropério da companheira, queixando-se esta que assim não dormia. Um esgar meio torcido que na sua mente pretendia ser um sorriso irónico, foi o que o seu rosto cansado deixou transparecer.

Enquanto preparava o café da manhã, dava volta à cabeça para se lembrar do motivo da má disposição. O ribombar de um trovão a poucos metros dali, fez latir o cão, e a exclamação “valha-nos Santa Bárbara!” junto a si, fez-lhe dar um pulo de susto.

– Que raios mulher! Olha o cagaço que me pregaste! Isto lá são modos de dar os bons dias?

– Não deve ter sido tanto como o que me pregaste ontem à noite. Dois bombeiros chegaram contigo em braços. Camisa desabotoada, um sapato calçado e outro não, e o cabelo em desalinho, pensei no pior. Só sosseguei quando eles me garantiram que umas horas de sono era tudo o que precisavas.

Conforme a esposa ia contando, a sua mente retrocedia. A vitória da lista para qual fora convidado ganhara as eleições, e nada melhor para comemorar do que sentados à mesa com um bom leitão e batatinhas a fumegar. Assim foi, assim se fez, bem regado com o melhor vinho da região.

Os discursos de vitória, longe de se tornarem enfadonhos, foram curtos e objectivos, e centralizados nas boas medidas para o futuro. Assim, ficou assente que daí em diante o Cabreiro seria o fornecedor oficial de leitões nos eventos da Junta. O vinho que no princípio, alguns ao olharem para o rótulo torceram o nariz, mas logo se remitiram ao avançarem com o copo vazio, para nova dose, desculpando-se de que o primeiro era para provar, também foi aprovado…

Um estardalhaço lá fora interrompeu por momentos a dissertação sobre o dia anterior, para soltar entre dentes: «Lá se foi a porcaria da chapa», ainda fez menção de pôr o pescoço de fora para ver onde a chapa fora parar, mas o vendaval acovardou-o.

– Vês o que faz descuidares a tua obrigação e só te importares com a junta.

O ar de enjoo com que a olhou, remeteu ao silêncio a sábia esposa, bem conhecedora do animal que tinha como marido, e que se havia alturas em que o silêncio valia ouro, esta era uma delas.

Seguiram-se brindes, à vitória, ao leitão que estava uma delícia, até que o secretário se lembrou de brindar aos antigos presidentes da junta. A coisa animou, havendo necessidade de se recorrer à reserva, trazendo mais umas garrafas.

Estava tudo feliz, ainda que alguns quando se levantassem iriam na certa sentir tonturas. Porém, o nosso presidente valendo-se da presença do segundo comandante dos bombeiros, achou por bem que dois dos homens que estavam de piquete trouxessem a ambulância dos doentes sem pressa, ali para o local da degustação. O leitão sobrara, e cos diabos! Sempre ficava bem confraternizar com os soldados da paz.

À vista da ambulância Rufino congratulou-se, e sem pensar duas vezes quis brindar aos bombeiros que ali na vila faziam serviço. Mas alguém mais previdente olhou para o estoque ou stock das garrafas aconselhando que só se falasse nos medalhados. Ainda assim, eram tantos que se corria o risco de alguém ficar para trás. O melhor era só citar os de há duas décadas atrás.

Foi aí que Rufino valendo-se da sua memória prodigiosa, mas incapaz de se levantar, pediu que o colocassem sentado na mesma cadeira, mas em cima da mesa. Começou por enumerar, sempre acompanhado de um brinde ao homenageado. Porém, algum discordante ou em completo desacordo com o esvaziar do líquido que poderia fazer falta em outras ocasiões. Obrigou Rufino a dar duas sapatadas em algo que o fizesse ouvir. Não conseguiu, mas o sapato voou acertando na calva do eminente coveiro da vila. Este, habituado a lidar com mortos e com vivos de igual forma, agarrou-se aos colarinhos de Rufino que desfaleceu sem se dar conta de quem o espojou no meio de tantos copos e talheres…

– Bem me parecia que esta tua sede só poderia ser resultado de tamanha bebedeira, mas para além da sede que não colmatas, fica-me a interrogação sobre a causa da tua irritação.

– Agora que falas nisso, é que me veio à memória que não mencionei a minha pessoa. O bombeiro medalhado como a pessoa mais calma da corporação.

 

3 thoughts to “O Jantar da Junta”

  1. Espetacular! Ler tal narrativa tão bem delineada, acompanhada de sotaque da terra-mãe, faz a gente “ver” o acontecimento como estivesse assistindo o filme na tela da vida. Mais uma vez, PARABÉNS, meu caro Lorde!

    1. Obrigado amigo Flávio Dias Semim! Vindo de quem vem, este comentário tem tudo para que se continue martelando nas teclas, buscando nelas inspiração que preencha estes meus devaneios literários. Obrigado Amigo!

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