O Incrível Objeto de Chapecó

 

 

 

 

 

(Salvador – BA)

Talvez aquele não fosse o seu desejo mais íntimo. A sua vontade verdadeira estaria somente em observar o voo livre dos pássaros e admirar aquela impossibilidade. Guaraci pela primeira vez sairia da sua aldeia. Encontrava-se doente, uma anemia grave que o deixava pálido e sem forças. Todos os recursos espirituais e de cura já tinham se esgotados. A pajelança há uma semana tinha sido realizada e até o momento nenhuma melhora tinha sido percebida. O pajé acreditava que em breve aquele espirito iria retornar para a convivência como os seus antepassados. Mas era muito cedo, Guaraci tinha somente dezesseis anos.

Dr. Manuel Antônio, médico do governo, responsável pela aquela aldeia no sul da Bahia, tinha a nobre missão de entender, observar, e pouco intervir nos costumes daquele povo. Guaraci era um mameluco, provavelmente teve sua ancestralidade tupi-guarani, era um tupinambá. Dr. Manuel suspeitava que Guaraci estivesse apresentando algum tipo de leucemia. Isto precisava ser investigado. Exames precisariam ser realizados e aquele não era o local onde tudo isto poderia ser feito. Se existia uma chance ele precisava ser retirado daquela aldeia. Depois de dias de conversas com o cacique e o pajé, e diante da piora de Guaraci a tribo autorizou sua retirada.

Esta seria a primeira vez que Guaraci iria voar. O seu medo e encanto era maior que o seu sofrimento. Ele iria voar como os pássaros e vencer aquela impossibilidade que tanto admirava. A segurança de ter ao seu lado Dr. Manoel, homem branco, mas de confiança, que o vira nascer lhe dava certa tranquilidade. Em poucos minutos o seu povo e a sua aldeia era somente um clarão preso na densa floresta. O rio que ele tanto conhecia e amava, e que por incontáveis momentos tiveram convivências íntimas, agora era uma silhueta espelhada ziguezagueando a mata. Em menos de uma hora já estavam no aeroporto internacional de Salvador onde teriam uma conexão para Brasília, local do seu tratamento.

Guaraci enquanto aguardava o próximo voo esteve o tempo todo paralisado, mirando através dos vidros. Era um olhar de admiração e de perguntas. O avião lá no pátio, estático, preso pela gravidade. Tinha vários deles. Não podiam fugir da sua forma. As leis da física os escravizaram naquele tipo de ser. Sempre cilindriformes com suas asas eternamente abertas. Na sua quase totalidade eram sempre brancos. Talvez aquela cor tivesse uma razão. Minúsculos homens trabalham ao seu lado. Movimentos rápidos, decididos e treinados. Inspeções, checagens e combustível era a rotina. Outros colocavam malas, caixas, bagagens. Todas organizadas, ora pelo tamanho, forma ou peso. Lá fora na garoa, no frio, na noite ou no dia a cena se repetia. Cá dentro Guaraci pouco compreendia aquela realidade. Buscava uma associação como o voo dos pássaros, mas tudo parecia muito distante.

No ritual de embarque todos atentos. Guaraci só observava e repetia. Pessoas silenciosamente caminhavam. Palavras curtas, atenção. Bilhete à mão e identidade. Inspeção. Às vezes tiravam-se os sapatos, cintos. Tudo aquilo é necessário. Todo aquele cuidado e o avião lá fora aguardando, parado, pesado, preso ao chão. Este ritual de respeito e preparo justifica a admiração daqueles que silenciosamente o observavam através da vidraça. Para Guaraci parecia ser algo espiritual como os rituais do pajé, nada entendia, simplesmente aceitava e cumpria. Aos poucos a saudade vai ocupando lugar. Esperança e expectativa se misturavam. O tempo agora é a razão da espera, da ida e da chegada. Talvez este seja o seu fascínio. Vencer o tempo. Com ele podemos acelerar o momento ou voltar no tempo. Então, não é mais o tempo sentido em nós é o tempo do meridiano.

Todo ritual simboliza o respeito. Aquelas pessoas igualmente uniformizadas, arrastando suas malas também padronizadas, agora já estão nele. No objeto cilindriforme, pesado, parado lá fora. Nos seus rituais treinados, incorporados, eles vão checando. Confere alimentos, também padronizados. Olham os gráficos no mapa, conferem os painéis, os níveis, as informações, os números. Tudo precisamente detalhado e revisado. Informa-se ao controle e os procedimentos continuam. Solenes conferem a chegada de todos. Corteses, seguros, simpáticos com sorrisos aliviam o medo. De forma organizada, cadenciada todos se ajeitam e encontram os seus lugares. Aos poucos através das instruções e dos protocolos se entregam àquele objeto. Agora, os apêndices já se desprenderam, as entradas e saídas foram hermeticamente fechadas e sua forma se completa. Vagarosamente ele será conduzido ao início do seu desafio. O deixar ser conduzido, não por impossibilidade, mas por humildade diante do seu poder o faz ainda mais grandioso. Neste instante o controle é total, contatos e autorizações. O seu poder o levará à liberdade. O esforço será enorme para livrar-se do cordão que o prende a gravidade e ao movimento de rotação. No espaço encontrará o seu destino.

Guaraci aceita tudo isto na esperança de reencontrar a sua força vital, o seu vigor. Este desejo o faz flutuar. Ele vai contra o tempo em busca do seu destino. Protegido pela presença amiga do Dr. Manoel, ele aceita aquele instante. Guaraci flutua veloz, camuflado entre as nuvens. Sempre a o seu lado, Dr. Manoel relaxa ao sentir a confiança nos olhos daquele jovem índio. E em raro momento de descontração se lembra de uma velha canção que diz: “Se eu ando o tempo todo a jato, ao menos aprendi a ser o último a sair do avião”. Após algumas horas de voo o grande momento se aproxima. A esperança é total e ele já começa a pensar na bateria de exames que aquele jovem irá se submeter. Neste momento lá fora é muito frio. Alguma coisa acontece, o movimento da tripulação não é habitual. A ordem é para manter-se sentados e com os cintos fechados. E diante do impensável imprevisto a angústia é real. Todos retornam à posição fetal. Aquele gesto simboliza a segurança e a suavidade da entranha feminina desejados naquele instante. Apesar da agitação o silêncio é duro. Rápido. Todos entram de novo em movimento universal. Guaraci agora poderá reencontrar os seus antepassados.

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