O Homem Que Tinha Uma Saúde De Ferro

 

 

 

 

(Vieira de Leiria – PT)

O Sr. Maurício Pintadinho gozou sempre de boa saúde. O homem tinha saúde para dar e vender – assim diziam os vizinhos e amigos com quem convivia mais de perto. Passava os Invernos de mangas arregaçadas, indiferente às baixas temperaturas que obrigavam a vizinhança a consumir mezinhas e chá de limão, cascas de romã, hortelã e erva-cidreira.

–Tenho uma saúde de ferro! – Assim dizia, quando mais um “ensamarrado” passava defronte à sua casa a caminho da farmácia, em busca da saúde que os malditos Invernos teimavam em lhes roubar.

O Maurício Pintadinho via-os passar e ao saber para onde se dirigiam não esquecia de dizer:

–Até hoje nunca entrei numa farmácia! Eu tenho uma saúde de ferro!

Depois, o nosso homem sabia que os médicos nos levam os “olhos da cara” e tinham ainda o péssimo hábito de proibir as pessoas de muita coisa que o Maurício jamais iria abdicar.

–Médicos nem vê-los! A mim não me apanham lá! Eu tenho uma saúde de ferro!

Começava o dia com dois copos de cachaça bem aviados, pelas dez da manhã atacava umas sopas de “cavalo cansado” que a sua Carolina lhe servia num púcaro de resina trazido dos pinhais do “Corgo Seco”, pois era no púcaro que elas lhe sabiam bem. Por vezes, na refeição do meio- dia, a garrafa de litro que ia encher ao barril tornava-se demasiado pequena. Pedia então à mulher com toda a doçura deste mundo, pois é assim que elas gostam de ser solicitadas.

–Ó Carolina, não te importas de ir buscar-me mais uma pinguinha?

–Ó homem, não bebas tanto que te faz mal – dizia a mulher pegando na garrafa a caminho da adega, pois o marido por nada deste mundo se levantava antes de terminar a refeição.

Na parte da tarde tudo se repetia, pois afinal o Maurício tinha uma saúde de ferro!

Até que um dia certamente que o ferro começou a enferrujar e o Maurício começou a ter problemas como um qualquer mortal. Primeiro, foi aquela dorzita nas costas – uma pequena pontada como lhe chamava – mas que não havia maneiras de partir. Depois, aquele maldito cansaço que mal permitia que caminhasse.

Dizia-se que o Maurício fumava quarenta cigarros por dia, talvez dai a razão daquela tosse que o apoquentava durante a noite. Começou a perder as forças e os vizinhos deixaram de ouvir aquela frase que sempre morou na sua boca:

–Eu tenho uma saúde de ferro!

–Ó homem, devias ir ao médico – dizia a sua Carolina – tu não andas bem!

–Ir ao médico? Tu sabes que sempre tive uma saúde de ferro!

–Mas tu não andas bem! Na noite passada, não dormiste nem deixaste dormir. Isto não pode continuar. Tens que ir ao médico!

O Maurício recusou, mas depressa entrou numa decadência rápida e progressiva, e pela primeira vez, aceitou beber uns chás e tomar umas colheres de xarope comprado pela mulher na farmácia da sede da freguesia que não surtiram qualquer efeito. O homem continuava a piorar e o trabalho foi ficando para trás, para desespero da mulher que tinha agora o seu trabalho e o trabalho que o marido deixou de poder fazer.

–Tens que ir ao médico, caso queiras andar por cá mais uns anos! Não podes continuar a arrastar-te por aí, querendo e não podendo.

Mas o médico mais próximo era um assassino disfarçado de doutor que já matara muita gente, mesmo que o povo tivesse receio de dizer tal verdade. As pessoas procuravam-no com uma pequena gripe ou constipação, ele receitava remédios em dose de cavalo e os doentes, não morrendo da doença, acabavam por morrer da cura.

No consultório do Dr. Ferreira não punha ele os pés.

–Ó mulher, tu não vês que ele estudou até aos quarenta e três anos para chegar a médico?! Isso só prova que sempre foi um incapaz, sem inteligência, sem arte nem engenho e que para nosso mal continua a matar pessoas?!

–Até aí concordo! – Disse a esposa Carolina, sabendo que duas das suas amigas o tinham procurado com uma pequena constipação e dias depois, entregaram a alma ao Criador. Dizia-se pela calada que as pessoas para se curarem, não podiam ir além de metade dos medicamentos que teimosamente continuava a receitar.

–Vais a um médico da cidade! Tens que ficar bom e muito rapidamente. É preciso cuidar da vinha, plantar as couves, semear o feijão, e as batatas não podem ficar na terra. Eu estou cansada, sabes que é trabalho a mais para mim!

E o Maurício Pintadinho que sempre teve uma saúde de ferro, meteu-se no combóio das nove e viajou para a cidade. Pela primeira vez na vida, o homem ia entrar num consultório médico.

Regressou no combóio das cinco, mais abatido do que nunca. A esposa Carolina vendo-o chegar, depressa se apercebeu que algo tinha corrido mal.

–Então homem, que te disse o médico?

–Proibiu – me de fumar, respondeu o Maurício como uma tristeza que fazia dó.

–Eu não dizia que o tabaco te fazia mal?! Tens que fazer o que o médico manda.

–Proibiu-me me também de beber, continuou o pobre homem com uma tristeza cada vez maior.

–Eu sempre disse que a bebida te prejudicava, mas tu nunca me deste ouvidos. O médico é que sabe! Para te curares tens que fazer rigorosamente como ele mandou.

–Sabes mulher, ele também me proibiu de trabalhar!

–De trabalhar?! – Gritou a esposa Carolina levando as mãos à cabeça. Proibiu-te de trabalhar?

–Sim, ele foi bem claro no que disse: Senhor Maurício Pintadinho, a partir de hoje, fica proibido de trabalhar

–Ó homem, não se deve acreditar em tudo o que dizem os médicos. Eles são humanos e também se enganam. Tu tens que ir a um outro médico! O melhor será consultar o Dr. Ferreira.

 

3 comentários em “O Homem Que Tinha Uma Saúde De Ferro

  1. A dona Carolina quer à força despachar o Pintadinho para o tal Dr. Ferreira e tudo por causa da ferrugem. Como não trabalha que vá enferrujar pra outro lado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *