O Homem Que Quis Enganar A Morte

 

 

 

 

(Vieira de Leiria – PT)

Da janela da cozinha da sua pequena casa, o Silvério via toda a gente que passava, não fosse aquela a única rua do pequeno lugar onde nasceu. Ali, todos se conheciam e as pessoas cumprimentavam-no com um bom dia; «Bom dia Silvério, bom dia moço, ou ainda, bom dia meu rapaz». Retribuía e com os olhos seguia aquela gente, até à primeira curva onde deixavam de se ver.

Aquela era a sua casa, o seu pequeno mundo, e sempre viveu ali. Era menino quando viu passar alguém que se escondia sob um manto negro levando na mão uma foice tão grande que não cabia debaixo desse manto. Curioso, o menino quis saber quem ia ali.

– É a morte. – Respondeu o pai. – Anda pelas aldeias, tentando conquistar a confiança das pessoas, a quem depois vai lançar as garras, quando sente que estão mais desprevenidas. As gentes só deixam de viver quando a morte as vem buscar.

E o menino habituou-se a ver passar a morte, sempre que esta aparecia para vir buscar alguém. Um dia pensou dirigir-lhe uma saudação. Ela passava sempre silenciosa, seguia o seu caminho sem nunca lhe ter dirigido um cumprimento. Quis ouvir a sua voz.

– Bom dia disse o menino. Sei que és a morte, e ninguém gosta de ti. Dizem que és cruel, que não és amiga de ninguém. Queres ser minha amiga?

-Sim, eu sou a morte. Existo para impedir que as pessoas vivam eternamente.

– Mas, tu és velha! Não tens medo de morrer também?

– Não, eu sou a única coisa que não morre e por isso me chamo morte.

A partir desse dia e sempre que por ali passava, parava a conversar com o menino. Ficaram amigos, uma amizade que ia durar por muito tempo, até ao dia em que a morte se lembrasse de quem era. De momento, tinha ali alguém que gostava dela.

O Silvério cresceu, casou, e também a esposa criou amizade com aquele estranho ser, que vinha sempre coberta com o manto cor da noite. Amiúde convidavam-na para um chá, um café ou uma merenda. Nasceu-lhes o primeiro filho, a morte foi convidada para madrinha e aquela amizade foi crescendo ainda mais.

A morte era amiga dos compadres que viviam felizes, confiantes que esta nunca ali viria para fazer-lhes mal, talvez esquecidos daquelas palavras que lhes ouviam muita vez: “tudo nasce e tudo morre”. Só eu não morro porque me chamo morte.

-Bom dia comadre! – Dizia a dona Matilde, sempre que esta passava apressada, sem tempo para dois dedos de conversa.

-Hoje, não tenho tempo, fiquem bem!

Nunca dizia onde ia, tampouco quem era a pessoa que ia buscar. A morte não queria assustar ninguém. Aparecia quando não era esperada e as pessoas estavam desprevenidas, o que facilitava o seu trabalho. Dias depois, lá vinha outra vez, sem tempo para conversas.

-Bom dia comadre Matilde! Estou muito apressada. Tenho trabalho pela frente.

Logo deixava de ser vista e nesse dia mais alguém das redondezas deixava de existir. Porém, sempre que estava disponível, aparecia a visitar os compadres. Naquela noite estiveram conversando até tarde. A morte contou muitas histórias, mas nenhuma tinha um final feliz. Mais uma vez, Silvério e a esposa Matilde deram graças pela amizade que os unia àquele poderoso ser que se chamava morte.

Despediu-se dos compadres com um: «até prá semana», mas na manhã seguinte voltou ali. Foi recebida por dona Matilde com um:

-Então, comadre o que se passa?, – perguntou preocupada, por a ver por ali tão cedo. – O compadre Silvério está? – Perguntou a morte.

-Não! Saiu cedinho e só volta lá para a tarde.

-Ouça comadre, eu não costumo abrir excepções, mas em nome da nossa velha amizade, vou contar-lhe o que não devia: O compadre que se prepare, que se despeça dos amigos, faça o que tem a fazer, pois amanhã virei busca-lo.

-Não, não comadre – gritou a dona Matilde ao saber que seria o marido o próximo que a morte vem buscar. Pensava talvez que a morte por ser sua amiga se esquecesse deles.

-Sabe comadre, – disse a morte, – todos têm a sua hora de partir. Chegou a hora do compadre, e nada posso fazer para o impedir. Amanhã virei para o levar.

Ao chegar a casa, o Silvério foi informado de que a morte viera ali e a sua vida ia terminar no dia seguinte.

O quê? Eram tão amigos e a comadre não era capaz de o poupar? Afinal, o povo tinha razão. A morte era covarde, traiçoeira, e não sabia respeitar ninguém. Diz o povo que actua sempre pela calada e arranja sempre uma desculpa para a desgraça que traz com ela. O Silvério é que não estava pelos ajustes. Amava a vida e como todos, recusava-se a partir. Afinal para que servem ao amigos?

Como tinha sido avisado, não ia deixar que a morte lhe lançasse a mão. Pensou engana-la, lutar contra essa ideia de a ver chegar para lhe lançar as garras. Afinal, havia por ali tanta gente mais velha e a comadre logo o escolheu a ele? Cortou os longos cabelos que lhe chegavam aos ombros, rapou as barbas que desciam do seu queixo, encheu os alforges com toda a comida que tinha disponível, pôs tudo sobre o cavalo e partiu para longe onde nem a morte o reconhecesse se um dia se encontrasse. Quando a comadre voltasse para o levar, ele já estaria longe.

Cavalgou toda a noite, e ao raiar do novo dia estava numa terra onde ninguém sabia quem era nem de onde tinha vindo. Não ficou por ali. Queria que ir para mais longe, onde pudesse sentir-se em segurança, onde a morte não pudesse encontra-lo.

Quando na manhã seguinte, a morte chegou, o compadre já estava longe. Sentiu-se enganada. Na única vez em que agiu de boa-fé alguém se rira dela. Mas não seria por muito tempo. E ainda nesse dia partiu em busca do compadre.

Procurou-o por todas as ruas, becos e praças, perguntando às gentes que encontrava: «Viram o Silvério?», mas ninguém sabia dele. E mais uma vez, lamentou a informação que em nome da velha amizade transmitiu à comadre Matilde. Um erro que não mais ia repetir. Talvez que com calma e astúcia que são coisas que tem de sobra, acabe por encontra-lo.

Entretanto, o Silvério, cavalgando o seu cavalo ia ficando cada vez mais longe, cada vez mais difícil de ser encontrado. Fizera bem em ter rapado barbas e cabelos, pois mesmo que se cruzasse com a comadre, esta não ia reconhecê-lo. Sentia-se seguro. E quem sabe se a esta hora a morte não esteja já esquecida dele. Quem não aparece, esquece, assim sempre ouviu dizer ao povo.

Uma tarde, chegou a uma localidade. Havia festa e as pessoas acotovelavam-se na pequena praça. Prendeu o cavalo num olival onde já estavam outros e misturou-se na multidão. Foi quando se apercebeu que a comadre estava ali. Viu-a passar a poucos passos por entre as pessoas, como se procurasse alguém. Pensou que andasse à sua procura, mas sem barbas nem cabelo, certamente que não seria reconhecido.

Não, não era por ele que a morte estava ali. Tinha passado e aproveitava para levar alguém, sem ter ainda decidido a quem ia lançar as garras e por isso caminhava por entre as pessoas, observando, até encontrar a mais desprevenida. Não ia sair dali de mãos vazias como aconteceu no dia em que foi para buscar o compadre Silvério e este não estava lá. Por onde andará o malandro a esta hora? Deixá-lo andar. Quando ele menos o esperar, ela irá aparecer para saldar aquelas contas atrasadas.

Começou a música e as pessoas começaram a dançar. Novos e velhos, rodopiavam alegremente, pois só no ano seguinte a festa seria repetida.

Silvério pensou que o melhor seria participar na dança, pois misturado com aquela gente melhor ainda podia passar despercebido. Esqueceu que a falta das barbas e cabelos faziam dele, alguém diferente das outras pessoas, pois ali não havia desbarbados. Ia manter-se por ali, até que a comadre fosse embora. Deixou de a ver, olhava disfarçadamente em redor sem resultado, mas pressentia que estava por perto.

Entretanto e para melhor escolher a sua vítima, a morte trepou sorrateiramente pelas traseiras do palco e tapada pelos músicos vigiava as pessoas que dançavam. Tinha chegado a hora de escolher a pessoa a levar com ela. Mais uma vez, pensou no compadre que anda fugido, mas aqui as pessoas não me conhecem e tudo será fácil. Só ainda não escolheu quem. Talvez aquele velhote que esquecido da sua idade, dança ainda como um diabo abraçado a uma moça nova? Não! Deixai dançar o velho, pois depressa a artrose e o reumático hão-de chama-lo à razão.

Aquela velhinha que do alto da sua cadeira de rodas, sorri feliz vendo a neta a dançar nos braços do namorado, um moço bonito e ainda, filho de boas famílias? Não! Deixai a velhinha em paz por mais uns tempos, pois ainda não chegou a sua hora. E pela primeira vez, a morte se sentiu indecisa sem saber quem havia de levar.

Era ao compadre que queria lançar as garras, o malandro tinha fugido a tempo, mas hoje não vai partir de mãos a abanar. Terá que levar alguém. Nos últimos dias nada tinha feito que justificasse o nome, mas morte é morte, tem que fazer o seu trabalho. Foi quando notou que naquela dança, havia alguém diferente, desbarbado e sem cabelo. Seguiu-o com o olhar. Aquele rosto recorda-lhe alguém, mas não sabia quem pudesse ser. Olhou, olhou, até que se fez luz na sua mente.

Era o compadre Silvério disfarçado! Sim era o malandro que a enganou. Esfregou as mãos de contente. Não ia permitir que se escapasse como aconteceu na outra vez.

Esperou pelo momento certo e quando Silvério se preparava para partir no seu cavalo, sentiu que uma foice penetrava no seu pescoço. Teve ainda tempo de ver quem estava ali, e compreendeu que a sua fuga terminava nesse dia.

One thought to “O Homem Que Quis Enganar A Morte”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *