O Homem Que Flutuava

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(Santa Brígida – BA)

Saíra de sua casa, e no terreiro já deparou com o sol abrasador a queimar a planície avermelhada. O sertanejo colocou o chapéu de palha sobre a cabeça e seguiu tocando em frente. Os espinhentos mandacarus estreitavam três manchas verdes num solo sofrido, e Matheus se encontrava demasiadamente taciturno. As lagrimas, sufocadas, anestesiaram seus pensamentos, mas não abalavam a sua fé de bom Romero que era de Padim Padre Cícero e Frei Damião.

O olhar paralítico, estático, fitava um ponto qualquer no céu, como que buscando a Deus. A mão esquerda segurava quase sem força um naco de papel. A outra mão buscava desesperadamente acariciar algo. Um algo que ele não sabia bem. Este instante espaço de concatenar sua existência somente fora interrompido pela frenética buzina de um Jeep de capota preto lustroso, era o “Prefeito indo à missa”, que por ele passou sem ao menos oferecer carona.

Eis que aquele homem, sofrido pelo calejar do tempo, e do peso dos anos vividos em perene labuta na esperança de colher leite de pedra caminhava sertão adentro. Andava a passos largos em direção a capela de São Francisco de Assis. A pequena Igreja construída a partir de pedras ficava situada no centro do desértico Povoado de Arraial do Sol, no sertão de Pernambuco.

Após uma longa caminhada, desde o seu sítio no sopé da serra vermelha até o povoado foram cercas de sete léguas canelas a baixo. Assim que adentrou na capela, o senhor Matheus se benzeu e proferiu, como de costume sempre que freqüentava aquele lugar sagrado: “Maldito Seja Deus”. O Padre Sebastian assim que o via ficava vislumbrado, pois aquele homem caminhava suspenso do solo, parecia flutuar sobre o chão batido do singelo templo.

O vigário Sebastian encontrava-se naquela comunidade há um pouco mais de nove meses, e como as missas eram trimestrais, não havia ainda tido oportunidade de conversar com aquele homem silvestre, pois precisava repreendê-lo por chamar a Deus de maldito.

No entanto, nas duas poucas vezes que o viu entrar na capela, o viu planar feito anjo sobre as nuvens e ficava desnorteado, e quando dava por si, o homem já havia se indo embora. Assim sendo, o Padre afirmou para si mesmo que daquele dia não passaria, teria a tal conversa com o Senhor Matheus e explicaria para o sujeito como de fato deveria se pronunciar diante de Deus. Por sua vez, o rústico do pé rachado, como singelamente era conhecido o Matheus, naquele dia iria ter com o vigário, pois tinha em mãos uma missiva que deveria entregar para ele, da parte do seu patrão o Coronel Macambira.

Matheus seguiu-o com a vista, e bem antes do vigário fazer menção de se retirar do altar, ele caminhou em sua direção. O fato se deu logo após o encerramento da missa;

– Seu Padre, seu padre! – Gritava o homem de chapéu de palha na mão, e um pedaço de papel na outra. Atraído por aquela algazarra o Padre Sebastian virou em sua direção e afirmou; – Senhor Matheus, preciso ter um dedim de prosa com vosmecê.

À medida que a multidão iria se desfazendo, os dois homens conseguiram se aproximar um do outro para a tal conversa. Curioso o curiboca foi logo perguntando. – Mas primeiro diga seu padre, que prosa é essa que o sinhô que ter cum eu?

Veja bem meu filho – Foi logo dizendo, de forma amável, o vigário. E nisso ele conseguiu, aos poucos explicar para o caboclo que a pronuncia correta, após adentrar na capela e fazer o sinal da santa cruz era dizer; – “Bem Dito seja Deus”, e não da forma equivocada, a qual ele habituava falar que era; “Maldito Seja Deus”. – Há bão seu padre pode deixar que eu num vô mais erra. Afirmou o Matheus.

Eis então que aquele indivíduo campestre entregou ao padre Sebastian, o tal bilhete que trazia da parte do Coronel Macambira. O sacerdote abriu o pedaço de papel, leu e logo afirmou para o caiçara que o pedido do coronel seria atendido, e que ainda naquela semana vindoura ele iria celebrar uma missa de ação de graça na fazenda, atendendo ao pedido do coronel.

Satisfeito, ao contrário do homem angustiado que havia saído de sua casa, agora estava com as esperanças renovadas. O padre iria rezar na fazenda onde ele ganhava a sua subsistência e da sua família. Seria uma benção o vigário se prontificar a celebrar a missa, dali pra frente às coisas haveriam de melhorar. O sermão, e as súplicas de um homem de Deus, como era o vigário deveria sensibilizar ao céu, a ponto de fazê-lo chorar, mais chorar tanta lágrima de chuva, que a terra árida do sertão iria fazer proliferar as sementes enterradas em suas vísceras desde o inicio das eras, e assim haveria bonança no sertão.

Enfim foi chegado o quão esperado dia, não apenas por Matheus, mas por todos os outros sertanejos esperançosos por dia melhores tamanha é a fé do homem do campo. Era lá por volta das dez horas da matina quando o Padre Sebastian chegou a Fazenda Flor de Cactos, de propriedade do Coronel Macambira. A euforia foi grande com a ilustre presença de um sacerdote, um verdadeiro homem de Deus, assim sendo, o vigário tomou o seu lanche e logo providenciou os preparos para dá inicio a tão esperada missa.

– Pai filho, Espírito Santo, Amém! – São primícias do sermão de abertura da Santa missa celebrada a campo aberto sob o sol acalentador do sertão. Eis que enquanto o Padre Sebastian realizava a missa deu-se inicio algo esplendoroso, nuvens negras começaram a se formar no horizonte do firmamento do sertão, em seguida orvalhos de miúdas gostas de chuva deram procedimento a um verdadeiro dilúvio. E assim chovia no sertão.

Não se sabe ao certo se fora a fé sacerdotal, ou a fé deste bravo povo do sertão que fez lagrimejar o céu. Foram dias, e mais dias de festa na Fazenda Flor de Cactos, o povo trabalhava a lavoura e festejava ao mesmo tempo. O coronel Macambira mandou matar um boi, não dos mais gordos, pois não tinha devido à seca que castigava, e sim dos menos magros que possuía, e foi aquela festança da cabroeira e dos trabalhadores rurais.

Quanto o sertanejo Matheus retornou a missa, no trimestre seguinte, foi logo observado pelo vigário, que ficou perplexo ao vê-lo caminhar normalmente em solo sagrado. O curiboca não mais flutuava como antes. Intrigado o Padre acenou em sua direção, gesticulando que teria uma conversa com ele ao término da missa.

E quando a missa chegou ao fim, o Padre Sebastian foi ter com Matheus – Diga meu filho, o que aconteceu? – Indagou o Vigário. O caboclo sem saber a quê o religioso se referia respondeu com outra pergunta… – Como assim seu padre?… Sebastian afirmou que ele não mais flutuava, como antes, quando adentrava na capela. Então Matheus disse que a única coisa que ele mudou foi que, antes ele dizia, ao se benzer; Maldito seja Deus, e ao lembrar-se do Padre Sebastian, corrigia; Bendito seja Deus.

O sacerdote pensou, e em seguida afirmou para o bravo sertanejo… – Meu filho, pode dizer o que você quiser, ao se benzer, desde que você pense em Deus, e não em mim, está tudo bem. E assim se sucedeu que três meses depois, o singelo homem estava planando sobre o solo sagrado. O padre Sebastian o olhou e sorriu, pensando consigo mesmo; ”ele voltou a pensar em Deus, e olha que eu quase desencaminho este atilado homem de pueril coração”.

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