O Homem do Chapéu

 

 

 

 

 

(Itajubá – MG)

Eu bem sei. Vocês não vão me acreditar! Foi numa noite dessas. Andava eu pelo apartamento feito um bicho acuado, de um lado para o outro, sem vontade de dormir. Cismei de dar uma volta para ver se o sono chegava. Coisa perigosa, afinal os tempos são outros. Mas assim mesmo fui. A noite estava deliciosamente quente. Arrisquei uma volta pelo quarteirão. Percebi que o poste da esquina estava com a lâmpada queimada. Tão tarde, mas não vou me demorar, pensei eu. Dois ou três jovens passavam com suas alegrias e rumores. Sorri na minha solidão, pensando na juventude despreocupada e feliz. A algazarra dos jovens foi ficando cada vez mais longe, até que não ouvi mais nenhum som.

Pensei em muitos assuntos, ponderei algumas questões e quando dei por mim, percebi o adiantado da hora. Agora, já bem tarde, a rua estava deserta. Fiz meia volta e peguei o caminho de casa. O curioso é que já tendo andado bastante, parecia que eu estava no mesmo lugar. Mas que diabos era aquilo? Andava, andava e a caminhada não rendia. Senti um calafrio na espinha. Apertei o passo. Lembrei-me do aconchego de casa, já arrependida de ter saído assim, tão irresponsavelmente.

Algo me fez olhar para trás. Lá bem longe vinha alguém. Era um homem. Um homem magro e alto. Usava terno e chapéu. Coisa esquisita! Não mais existem homens de chapéu! E muito menos a esta hora da noite. Senti um pavor sem remédio e apertei ainda mais o passo. Mais adiante, olhei outra vez para trás. Lá vinha ele, só que agora estava mais perto de mim. Tentei correr. Inútil. Minhas pernas não obedeciam, como que programadas para uma única velocidade, igual a das esteiras rolantes. Quis olhar para trás, é melhor não, pensei eu, mas não resisti. Aterrorizada, vi que o homem ganhava espaço, agora já há poucos metros de mim. Minha respiração ficou difícil, o suor já escorria pela minha testa, queria gritar, mas engoli o grito. Desejei ardentemente que os rapazes alegres voltassem. Ah! já podia avistar meu prédio. Vou conseguir! Ainda faltava uma pequena ladeira. Passei pelo poste apagado. Agora já podia jurar que o homem me alcançava. Reunindo o máximo de coragem, olhei para trás. Juro que é verdade. O homem estava bem perto, bem perto e que Deus me livre, ele estava agora da altura do poste. Caminhava elegantemente na sua magreza. Suas pernas eram tão compridas que lembravam aquelas pernas de pau que os artistas usam no circo. Eu tremia toda. Alcancei meu portão. Não mais olhei para trás. Entrei em casa arrepiada e enlouquecida. Que homem era aquele? Eu bem sei. Vocês não vão acreditar. Foi numa noite dessas…

 

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