O Grande Prêmio

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

Chegando ao escritório pela manhã, pronto para iniciar mais um dia de trabalho, o recado transmitido pela secretária foi breve: o Jorge Japonês estava preso! Fazendo meia-volta, rodopiando no calcanhar e rompendo a marcha com o pé regulamentar, na forma como aprendi quando no quartel cumprindo o serviço militar obrigatório, dirigi-me ao 1º Distrito Policial, na Rua Roberto Simonsen. O prédio construído com grandes tijolos de barro e beirando o alinhamento da rua, àquela época já antigo estava localizado junto ao Pátio do Colégio, lá na Capital do Estado de São Paulo.

Descendo a Avenida da Liberdade, atravessando as praças João Mendes e a da Sé, em passos largos e acelerados, entre muitas pessoas também apressadas, sob uma garoa fina, fui pensando com meus botões por que o Jorge agia assim. Um jovem nissei de baixa estatura, magro, típico dos padrões orientais, elegante, com os pequenos olhos amendoados marotos e espertos, taxista de profissão e com ponto de estacionamento na Praça da Sé quando ainda São Paulo era uma cidade relativamente pacata e se podia ir à noite, no centro, aos cinemas e restaurantes sem riscos.

Apesar de ser dono do taxi, “chofer de praça” como se dizia naqueles tempos, o Jorge trabalhava pouco com o veículo, o suficiente para fazer um pequeno capital e ter algum para arriscar a sorte no carteado, nos cassinos clandestinos que proliferavam nos imundos porões e sótãos do centro velho da Capital. Naquele ambiente enfumaçado, era ele ágil na manobra do baralho, de uma habilidade impressionante com as mãos para esconder uma carta na manga, na meia, atrás do colarinho ou qualquer outro lugar que o facilitasse no trapacear, motivo este de sempre se envolver em brigas violentas, quando na maioria das vezes levava a melhor em razão dos seus conhecimentos na prática de judô, apesar de ter abandonado o esporte. O resultado era sempre ser conduzido ao Distrito Policial e ficar a minha espera.

Por volta da meia dúzia das vezes que ali estive continuamente em razão dos mesmos fatos conseguia liberar o Jorge sem muitas formalidades, beneficiado que sempre fui pela amizade com o delegado, meu ex-colega de turma e cúmplice de algumas artimanhas nas provas mensais, quando nos bancos escolares da Faculdade de Direito.

Ocorre que naquele dia o delegado era outro, um jovem e aguerrido defensor das licitudes e o Jorge já havia sido autuado em flagrante, aguardando apenas a remoção para a Casa de Detenção. Após esperar a presença do prisioneiro naquela sala tenebrosa, no antigo casarão de teto alto com seu estuque deteriorado onde estava instalada a delegacia, fui ter com ele, reservadamente, quando então, visivelmente preocupado, exibindo algo que possuía escondido, falou:

─ Doutor, tome isto e leve consigo ─ com voz quase imperceptível ao mesmo tempo olhando para os lados ─ é um bilhete inteiro da loteria, com as três séries do mesmo número, do grande prêmio de São João a correr na próxima semana. Este bilhete vai ser premiado por indicação de fontes fiéis junto à Loteria Federal, de onde veio diretamente e com a ajuda de um amigo cambista de ampla influência naquele meio; o senhor fica com uma das séries e as outras duas entregas ao meu pai. Com o dinheiro do seu prêmio considere pagos os serviços que já me prestou e mais este agora para me libertar desta prisão e defesa no processo. Também diga a meu pai faça o que quiser com os que foram entregues a ele, só não deixar de adquirir um taxi novo, zero km, para mim, pois o meu foi dado em pagamento da compra do bilhete.

Em resposta, disse-lhe primeiro que sempre soube das trapaças existentes no carteado, das indicações do cavalo vencedor em determinado páreo das corridas, das artimanhas em muitas competições, mas não imaginava que existisse falcatrua no sorteio dos bilhetes da loteria.

─ Lá é pior, doutor, acredite! ─ respondeu o Jorge com convicção.

─ Ainda mais ─ continuei ─ tenho vindo atender aos seus chamados em consideração ao seu pai a quem estimo muito, e também pela liberação informal que acontecia até agora graças ao meu amigo delegado, porém, daqui pra frente vai ter que contratar outro advogado, especializado no assunto já que minha área é no cível.

─ Faça como achar melhor, fica a seu critério doutor e tranquilize meus pais, por favor, além do mais saiba que foram muito poucas as vezes que obtive sorte no jogo e essa será a minha real oportunidade de tirar eu e meus pais da pobreza em que vivemos há muito tempo ─ murmurou o Jorge visivelmente abatido.

Mandei entregar os dois bilhetes ao senhor Hijichi, em envelope lacrado, alegando ao portador da encomenda que não sabia o que continha e pelo telefone comuniquei as mazelas do seu filho. Ouviu tudo com a dignidade de um respeitável imigrante oriental e agradeceu-me ao mesmo tempo em que retribuí os agradecimentos pela maneira com que sempre se referiu a mim, recomendando meu trabalho entre seus patrícios, razão de contar meu escritório com uma boa clientela junto à colônia japonesa na cidade.

Não pude evitar minhas lembranças de uma das vezes que estive pessoalmente com o culto senhor Hijichi, um franzino homem de pele pálida e aspecto austero, olhos amendoados e penetrantes, quando me foi ofertado com toda a cordialidade, da melhor boa vontade possível, o romance “A Chave” obra de Junichiro Tanizaki, leitura através da qual me tornei admirador do escritor e da cultura japonesa. A sua atitude foi admirável e minha fascinação por essa história ocorreu, talvez, devido a relação do autor com as fraquezas humanas, agora convividas explicitamente na conduta de seu filho. Detalhe importante do fato é que o humilde exemplar, que me foi emprestado, estava traduzido para o português e cuidadosamente manuscrito por alguém cujo nome não me foi revelado, mas que sempre acreditei ser o próprio senhor Hijichi.

Aquela semana pareceu transcorrer mais lenta que a normal, devido a minha ansiedade, jamais negada. Finalmente chegou o sábado e de olho no relógio e atenção no rádio, fui ouvir a transmissão do sorteio feito diretamente do Rio de Janeiro. Minha mente agasalhava um turbilhão de ansiedade e sentado ora no sofá da sala, ora na cadeira próxima, a agitação não podia ser controlada, pois uma espécie de loucura fora vivida a partir de quando o lápis em meus dedos – indicador e polegar – por conta própria começou a riscar o caderno de anotações, dando mostras de tornar complexos os movimentos involuntários de sua ponta. Senti-me agasalhado com minha peliça predileta quando começaram as aparições de figuras de homens e monstros com membros retesados, puxando desvairadamente seus longos cabelos, tentando e conseguindo arrancar algumas, não todas as moedas de ouro incrustadas neles, ao mesmo tempo em que eu recolhia as poucas caídas com gritos de alucinada satisfação.

Absorto em reflexões acreditava ser aquele o ato preparatório da cena a produzir a satisfação máxima: o resultado do grande prêmio! Em seguida, afastados os fantasmas, assisti ao espetáculo no palco imaginário agora amenizando as visões e meus devaneios foram suavizados, quando com o acompanhamento de apenas duas leves batidas de palmas, chamei:

– Leopoldo… Leopoldo! – Ele atendeu rapidamente, vestido com seu impecável fraque negro, altivo como todo mordomo profissional altamente remunerado.

– Traga-me minha caneta preferida, quero anotar os números – ordenei.

Imediatamente retornou, apresentando uma caneta de ouro cravejada de brilhantes, colocada sobre veludo vermelho numa bandeja de prata, elegantemente trazida na palma estendida de uma das mãos, à altura do peito.

Os vinte vigésimos que me pertenciam, componentes de uma das três séries do inteiro do grande prêmio ficaram guardados no fundo de uma gaveta e com a rica caneta, agora fantasiosamente substituindo o paupérrimo lápis, anotei todas as dezenas de milhares premiadas do primeiro ao quinto prêmio. As mãos tremiam e depressa precisava eu de muita coragem para o ato da conferência.

A riqueza e a ostentação já desfrutadas antecipadamente levaram meu entusiasmo para muito mais longe e reviveu em mim um desejo antigo, guardado no subconsciente: solicitar ao meu amigo, meu guru, o escritor José Mauro de Vasconcelos para permitir que eu, agora em companhia do Jorge e do senhor Hijichi, conhecêssemos o seu Palácio Japonês, que afinal ficava bem perto, ali mesmo na Praça da República. Ele, muito atencioso, não pode nos acompanhar devido aos seus inúmeros compromissos culturais, no entanto, na entrada junto ao grande portão central liberou-nos com sua autorização para a visita e então após percorrermos a trilha iluminada pudemos apreciar, ainda a distancia, o majestoso Palácio Japonês. Ultimamente, nas condições de multimilionários, podíamos ter acesso ao belo, ao suntuoso e conhecer o Príncipe Tetsuo, seu preceptor Kankuji, o Mestre e também acariciar os tigres Cing e Ling passando as pontas dos dedos em suas manchas sedosas. Subir as escadarias de mármore que rodeavam todo o castelo, admirar a grande sala das armas exibindo, entre tantas, aquelas armaduras dos antigos guerreiros samurais e apreciar os lindos tapetes de seda bordada esticados nas paredes dos aposentos. Caminhar pelas alamedas de seu esplêndido jardim repleto de lagos com lindas carpas vermelhas de caudas douradas nadando suavemente e por fim, atender o magno dos meus desejos, o de conhecer o Palácio de Ouro pertencente ao pai do Príncipe Tetsuo.

Os alardes produzidos pelo locutor da rádio anunciando o início do sorteio interromperam o curso das minhas visões, afastando completamente as ilusões que me acometeram. Após alguns segundos como que procurando lembrar-me onde estava, ouvi uma voz no íntimo ainda me incentivando com intensidade quando bebi com gulodice um necessário copo de água com açúcar.

Anotação dos números em uma das mãos e resultado na outra foi o bastante para não querer acreditar, ao mesmo tempo em que secando o suor frio escorrendo pela testa, respiração forte e pesada, com os olhos no começo semicerrados e em seguida arregalados, esbulhados, fui conferindo devagar e com a máxima atenção a divulgação dos algarismos premiados. Eu gritava por dentro, mas som algum passava além de minha garganta. Aquilo não era possível: no primeiro prêmio… Isto mesmo, no esperado primeiro prêmio… Nenhum número, mas nenhum mesmo concordava com os do bilhete em minhas mãos que melhor destino não teve quanto aos demais prêmios.

Estava, enfim, totalmente “em branco” o bilhete do Jorge.

Retornando à realidade, reclinei no sofá, cansado, exausto, quando senti meu gato vira-latas, de estimação, esfregar-se preguiçosamente entre minhas pernas, alisando-as carinhosamente e mostrando ter atendido ao meu chamado. Consternado, exclamei:

─ Foi uma pena, hem Leopoldo! Era um bonito, lindo número!

 

One thought to “O Grande Prêmio”

  1. Uma maneira peculiar de pagar. Pena é que deu branco. Mas se desse certo, teria provavelmente pesadelos. Ou talvez não. Meu caro amigo, cá estou de volta e muito feliz por ver que continua em forma.
    Abraço!

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