O Fio de Cabelo

 

 

 

 

(Goiânia – GO)

Pela manhã, depois do café, Dona Ana pegou as roupas sujas da casa para lavar. Naquele tempo não havia tanque. As roupas eram lavadas numa bacia. As mais sujas precisavam ficar um bom tempo de molho, e depois, expostas ao sol para quarar. Por isso, ela as levou para o quintal. Sentada numa cadeira, foi separando-as uma a uma. À sua frente, desfilavam diversas peças, vestidos, saias, blusas, camisas, calças e cuecas. Súbito, notou um fio de cabelo louro preso num botão de uma camisa do marido. Atônita, não quis acreditar no que viu, esfregou os olhos com as costas da mão, abriu-os ainda mais; constatou que o fio de cabelo louro continuava lá.

Um pensamento terrível permeou sua cabeça enchendo-a de desconfiança, ciúmes e tristeza. Sentiu-se infeliz. Quem diria?” Ele me apunhalando pelas costas”! “Quem mais eu quero na vida”. Quanto mais ela pensava no que viu, mais injustiçada se sentia. A dor crescia e ameaçava explodir em seu peito. Uma mão de ferro lhe comprimiu o tórax como num infarto e pensou até que fosse morrer naquela hora.

Mas não morreu. Mesmo indignada continuou a tarefa que havia começado, com uma obstinação disciplinada, tristonha, como se aquilo a ajudasse a controlar seus sentimentos raivosos e, dominar a confusão que ameaçava transbordar em sua mente. Quando terminou, estava mais calma.

À mesa, na hora do almoço, entre uma frase e outra, a dor lhe veio ao peito, e ela pensou em perguntar ao marido: “Não há mais lugar para mim na sua vida, não é”?

Quase engasgou. Sentia de novo o anseio, o suor frio, o coração batendo em tumulto. Não teve coragem de perguntar. Então, procurou disfarçar o sentimento de raiva que tomava conta dela. Lembrou-se que nos primeiros anos de casados, ele a surpreendia quase que diariamente, com uma fala elogiosa. Um jeito diferente de amar. Um sorriso conquistador e jeitoso de quem sabia deixá-la submissa aos seus encantos. Os anos se passaram e vieram as mudanças! Agora descobre que ele a está traindo.

Engoliu a comida e desta vez furiosamente, como se fosse a ultima de um condenado à morte. Dói isto, justo ele! Em quem tanto confiava. Por isso, não ia lhe dizer absolutamente nada. Tem coisa que é melhor não falar, senão vira um bicho de sete cabeças. Esforçou-se para disfarçar sua agonia, enquanto tentava se convencer de que aquela traição já acontecia faz tempo, e que só agora descobrira por causa daquele fio de cabelo loiro. Saiu da mesa desejando que as filhas não notassem sua tristeza; não percebessem sua raiva. Não queria conversar com ninguém. Nem tinha vontade de falar nada. Atravessou o corredor e foi direto para seu quarto. Não conseguiu conter o choro, tinha vontade de morrer. Soluçava. Enxugou suas lagrimas, no momento em que as filhas mais velhas entraram no quarto. Queriam saber o que estava acontecendo para ela ficar daquele jeito. Criou coragem e contou o que viu e comentou com elas da sua suspeita. Agora tinha a prova. Não restava mais dúvida de que o marido a traía, descaradamente, e há muito tempo.

Doralice, a filha caçula, entrou no quarto. A cabecinha loura brilhava a luz da lâmpada. Aproximou-se da mãe devagar e sentou-se na beirada da cama. Aconchegou-se ao seu colo, sobre suas pernas. Ela ficou olhando o rosto da filha, numa expressão amargurada. Alisou seu rosto quente e passou a mão pela sua cabeça dourada, dizendo: — Precisamos cortar esse cabelo. – eles estão muito compridos. Vá lavar a cabeça para sua irmã cortá-los. Curtos, ficarão bem melhores e bonitos. Doralice sorriu e falou: –É mesmo, mamãe! Ontem meu cabelo enroscou no botão da camisa do papai e deu um trabalho danado para soltar. Deve ser porque está muito comprido. Dona Ana suspirou profundamente, e sorriu aliviada.

 

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