O Espelho

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(Goiânia – Goiás)

Ele não tinha muito o quespelhoe dizer, permaneceu calado. O silêncio sempre representou uma espécie de refúgio mental, os pensamentos podiam fluir melhor. A terapeuta dava conselhos profissionais, mas ele não conseguia escutar apesar de manter-se olhando para ela sem enxerga-la. Era um rapaz gentil mesmo quando desinteressado no mundo à sua volta. Despediu-se da terapeuta e fez o trajeto de volta para casa através da praia. Não era necessariamente para ver o mar, e sim, para ouvi-lo. Seus olhos estavam acostumados a maré do fim de tarde, porém, ouvir as ondas parecia-lhe algo continuamente inédito. M sentou-se de frente para vastidão da praia em um banco de cimento, mergulhado no silêncio aquoso de sua mente onde o único pensamento que rodopiava era “o que acontece comigo?”. Sentia-se tão distante de si era como se seu corpo estivesse ali estático e sem vida enquanto a alma vagueava solta em alguma dimensão paralela, onde as ondas do mar poderiam alcançar seu rosto.

M sentia a leve brisa marítima estremece-lo, um medo crescente dominava-o, e isso o fazia se sentir muito infeliz nos últimos dias: “Estou enlouquecendo? Caminhando através do processo irreversível da completa loucura?” Essas perguntas se entrelaçavam em uma cascata, iam escurecendo todos outros tipos de pensamentos racionais e objetivos.

Por fim, deslocou-se para casa, não podia ter controle sobre a maioria das armadilhas mentais e pensar muito tempo sobre elas dava a nítida sensação de descontrole que um sujeito insano, provavelmente, possa sentir antes de atos absurdos. Ao chegar em casa passou direto por quem quer que estivesse ali, pais ou irmã, e se trancou em seu quarto: aquele submundo particular do tédio e do pânico velados. Havia um espelho encostado em sua cabeceira, ele o manipulava diante si quando quisesse. Era algo que M achara em algum canto da casa. Como costumava fazer religiosamente toda madrugada ele esperou o mundo dormir e passou a encarar o que havia no espelho tendo como iluminação apenas uma pequena lanterna.

A imagem no espelho era sua, a escuridão da noite o envolvia deixando o rosto flutuar pálido e envelhecido. Noite após noite ele notava a transformação drástica. Com o passar dos dias não eram apenas a terrível imagem envelhecida no espelho e aquela sensação de insanidade pairando sobre si. Não era apenas isso. O grande dilema existencial foi que ele passou a sentir o peso daquela velhice, as dores no corpo, os olhos perdendo suas funções pouco a pouco, a memória abandonado sua mente juntamente com a claridade da sanidade, ele não se sentia como um rapaz, mas sim, como um ancião com décadas vividas. Refugiado naquele mundo passou a procurar obsessivamente o antigo eu no espelho, alguém que ele se quer imaginava se existia, que poderia sorrir sem temores, alguém que não fosse aquela sombra decrépita e, irremediavelmente, ensandecida.

A busca era inútil, decidido a colocar um fim naquilo por ordem da terapeuta se livrou do espelho, jogou no lixo. A obsessão apenas incubou dentro dele. Ainda sentia o mal, os próprios pés levando-o a saltar do abismo em que agora parecia pender. Passado um mês desde que se livrou do objeto, M tentava colocar sua vida dentro da esfera do aceitável. Passava boa parte do tempo rabiscando desenhos, era muito bom nisso, porém, inevitavelmente suas ilustrações sempre terminavam retratando a figura envelhecida e insana que o espelho refletia. Aquilo havia se tornado seu martírio, uma verdadeira tormenta. M cogitou tirar a própria vida diversas vezes, não era pela angústia que aos poucos estava sendo apaziguada pelos seus contínuos tratamentos, mas para se ver livre daquela obsessão, daquela sensação irrefreável de insanidade.

Naquela noite, acabara de tomar seus psicotrópicos antes de cair em um sono dopado, e ao fechar os olhos, sonhos atordoantes e surreais o levaram para longe. No sonho ele despertava e o espelho estava ali de volta, assombrando o mundo pelo simples fato de existir. M se debateu em aflição lutando para sair daquela prisão onírica. Sobressaltado, abriu os olhos e buscou um ar que parecia queimar seus pulmões, coberto de suor frio e sentindo o pulsar do coração na garganta, sentou-se na cama, tateando na mesa de cabeceira pelos óculos, sua mão trêmula e gelada tocou a ponta de um objeto, ao desviar os olhos apertados pelo sono, e pela miopia, notou que era o espelho encostado ali, empoeirado pelo tempo.

Levantou da cama, a sensação de estar preso no sonho ainda o alarmava, tirava o fôlego. Encarou a imagem refletida a única iluminação era a luz da lua que havia do outro lado do espelho. Atrás de si uma figura se mostrou lentamente, uma garota branca quase translúcida se aproximou dele, sustentava um sorriso calmo no rosto, seus olhos revelavam ondas suaves. M ficou em silêncio, em seu refúgio. Ela tocou seu ombro com uma gentileza desumana, nenhum ser humano parecia capaz de um toque daquele, M não sabia ao certo se teria coragem de virar, de tirar os olhos do espelho, não era mais a sensação de medo que o paralisava, e sim, uma sensação de perda. Se virasse o rosto para longe da imagem refletida perderia aquele momento sereno para sempre. Sua imagem ali era tão jovial e tão arrebatadoramente feliz, no espelho fazia sol apesar do quarto estar envolvido no breu de uma madrugada gélida e chuvosa. Ele não sabia se tinha falado ou apenas pensado mas pediu, quase em uma súplica, para que a garota-com-olhos-de-mar não fosse embora. O medo de voltar a ver a imagem horripilante do velho insano em seu próprio rosto transformado havia desaparecido, a angústia, a insônia, o pânico e o tédio, a monotonia de sua alma haviam desaparecido. Seu rosto no espelho era de alguém cheio de sonhos. Ele sorria como se o sol estivesse preso dentro de si, e seus olhos queimavam não por lágrimas, mas por transbordamento de alegrias.

M sentiu o corpo vivo, pertencia a si mesmo, estava sob seu próprio controle. O mundo poderia ser seu se quisesse, sentia-se tão capaz de ser quem era que por um momento aquela madrugada transformou-se na eternidade de instantes felizes que são soprados para longe pela dura realidade metálica do abandono. Com a intensidade dos trovões lá fora o espelho espatifou-se. Aquele momento escapou por seus dedos frios, M sentou-se na cama, as mãos na cabeça, sentindo aquela tormenta da insanidade antiga e torturante voltar a espreita-lo do escuro, mas quando se obrigou sofregamente a levantar o rosto o que viu foram os primeiros raios do dia ultrapassando a chuva que insistia em cair. Sentiu o calor tímido e molhado tocar seu rosto pela janela entreaberta. Aquela sensação de tormenta parecia encolher-se cada vez dentro da imagem que viu refletida pela última vez no espelho que agora jazia estraçalhado em cacos minúsculo que reluziam. M sobrevivera a si mesmo.

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