O Dinossauro Escritor

assinatura-nuno 

 (Tubarão – SC)

 

maq-escreverEleutério (nome fictício) sentia-se diante de uma encruzilhada da vida.

Considerava-se realizado sob vários aspectos. Apesar da idade avançada, ainda gozava de boa saúde, mente lúcida, vida tranquila, família unida, apesar de alguns desentendimentos, vários amigos e admiradores, principalmente, porque seu nome fora imortalizado, no panteão da história literária local, desde que fora admitido como um dos acadêmicos ilustres da região. Paparicado e respeitado, gozava de muito prestígio. Apesar de tudo isso, que aos olhos da maioria representaria sucesso estrondoso, cultivava no íntimo um desassossego, que não tinha cara, perfil, definição ou identificação. Era apenas uma palpitação estranha no peito.

Produzia obras literárias, mas não mais livros. Mesmo saudável, o cansaço próprio da idade não lhe permitia excessos, então se dedicava aos contos, crônicas, ensaios e poemas. Talento não lhe faltava, e os pedidos de textos para jornais e revistas regionais choviam.

Certa feita, convidado que fora a participar de festa literária em região distante, resolveu viajar e mudar de ares, apesar de, excessivamente, caseiro e nunca ter entrado em um avião.

Nunca viajara além de cento e poucos quilômetros longe da terrinha, mas o convite veio, ao mesmo tempo em que sua esposa pedia, insistentemente, para passearem em locais que só conheciam por filmes, revistas e relatos de amigos. Aceitou o que parecia um desafio, e foi, preparado para apresentar-se, como de costume fazia, em festividades locais.

Apesar de alguma insegurança e o medo comum aos que voam pela primeira vez, toda a viagem transcorreu calma. Uma vez no ambiente do evento, porém, assustou-se com tanta agitação, o tamanho gigantesco da estrutura montada, a quantidade de pessoas, a presença maciça de mídia eletrônica, em formatos que ele desconhecia. A grande verdade é que jamais usara um computador. Ainda utilizava sua máquina de escrever elétrica, apesar dos protestos de seus editores e dos veículos de comunicação, que utilizavam o material.

Nunca sentira tanto receio em enfrentar uma plateia como naquele momento, mas ao ser anunciado subiu ao palanque e viu tela enorme atrás de si. Pensou que fosse fazer um pequeno discurso e responder perguntas, diretamente, mas o apresentador lhe pediu que ficasse ao seu lado, enquanto chamava outras pessoas. Viu-se em meio a quinze convidados, todos com idade muito menor que a sua, munidos de aparelhos eletrônicos, com os quais se comunicavam com os espectadores, que ao invés de falar, apenas digitavam questões.

Eleutério ficou mudo, abstraído, ausente, sem entender nada. Depois, ao perguntar quem eram os que lhe fizeram companhia no pequeno palco, soube serem youtubers, mas não tinha a mínima idéia do que isso significava. Percebeu que eles eram as estrelas, e ele só um figurante, um estranho no ninho, desconhecido e desconectado daquela realidade.

Voltou pra casa frustrado e indignado. Chamou sua neta e lhe disse que queria aprender tudo sobre informática e mídia. A menina arranjou-lhe o equipamento e tentou lhe ensinar os primeiros passos de contato com a máquina. Ao fim de algumas horas de vãs tentativas, dava pena ver a fisionomia de cachorro que caiu da mudança, no semblante do pobre escritor. Seu esgotamento era evidente, e nem sequer lograra escrever uma frase inteira na tela. Acomodou-se na cadeira e assistia ao frenético desempenho da menina ao teclado. A tela mudava, vários desenhos e textos se projetavam, continuamente, numa velocidade que não lhe permitia identificar os assuntos. Ele sequer sabia o que acontecia, naquela confusão colorida.

Pressentindo a derrota, frente à parafernália de imagens alucinantes, perguntou à sua neta o significado de youtubers. Ela acessou alguns, e o literato assistiu, durante minutos a performance dos tais, até que um deles, de cabelo azul e alfinete atravessado nas narinas, mencionou seu nome. Espantou-se. O garoto citava um livro seu e dizia que até não era tão ruim, apesar da linguagem meio rançosa. E arrematou dizendo:

– Também, gente, o cara é um dinossauro. Daqueles que ainda escrevem no papel.

A neta, mais que depressa, tirou do ar o abusado youtuber, e tentou consolar o avô.

– Esse cara não tá com nada, vozinho! Eu gosto do que o senhor escreve.

– E qual o texto que você mais gosta, Vivi?

– Ah, sei lá! Um pouco de cada. É tudo muito parecido, né?

Eleutério teve de se render às evidências. Ele era um dinossauro. Escrevia no papel.

Pegou a velha máquina de escrever, pôs uma folha e, antes de digitar, resolveu cheirar. Não é que fedia mesmo a ranço? Além de dinossauro, ele virara um gorgonzola.

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