O Diabo Surge Na Vila, Oferecendo a Cura


 

 

 

 (Salvador – BA)

Quando completei dezoito anos a gripe que estava matando as crianças da vila já durava quatro meses. Lembrávamos chorosos dos tempos de felicidade e prosperidade. Era uma vila pequena, éramos pouco menos do que cento e cinquenta pessoas, divididos em quatro grandes famílias. Não nos misturávamos. Sei que é difícil para vocês, entender e aceitar esse ponto. Hoje, vivendo na cidade grande já há muitos anos, compreendo os seus motivos. Mas, nossa vila funcionava, coexistia e sobrevivia harmoniosamente… e isso era o mais importante. Porém, acasalávamos apenas para fins reprodutivos e apenas entre membros da mesma família, geralmente primos.

Como disse antes, a vila funcionava perfeitamente à nossa maneira. A família dos Seths era responsável pela agricultura… a família dos Onens, era responsável pela caça e pesca… A família dos Orôs era responsável pela nossa – primitiva – medicina, e também sobre eles cabiam os cuidados das crianças e mulheres grávidas. E por fim… o meu grupo, os Leciths, que era responsável pela proteção da vila e distribuição justa dos alimentos.

Não contávamos o tempo do jeito que as pessoas contam aqui, mas acredito que nossa vila tinha cerca de cem anos, escondida num lugar muito alto e cercado por uma Mata Atlântica perigosa e difícil de desbravar. Era uma vila relativamente antiga, criada por quatro homens e quatro mulheres, – os nossos bisavôs – que chegaram a viver no mundo civilizado e decidiram-se pela criação de um novo – e pequenino – mundo… um mundo quase utópico, livre de violência, desigualdades sociais e fome. Posso dizer com orgulho que se não fosse a moléstia que nos destruiu, teríamos conseguido. E vocês, meus amigos, jamais saberiam de nossa existência.

Me lembro de ter saído de minha oca… nu, ansioso, tenso. Meu corpo estava todo pintado, era dia de iniciação a vida adulta. Comigo estavam alguns amigos de outras famílias, também ansiosos como eu. Geralmente aquela ansiedade, nos jovens, era uma ansiedade boa.

Estávamos nos tornando adultos, praticaríamos o ritual de acasalamento e depois disso, se tudo corresse bem, nos tornaríamos pais. Nossos líderes diziam que a felicidade maior estava no ato de ajudar um ser humano a crescer e dar seus primeiros passos. Por isso, a finalidade mais sagrada para nós era a criação dos nossos pequenos anjos.

II

Mas essa benção estava sendo tirada de nós. Nossas crianças começavam o dia tossindo… E no dia seguinte já estavam de cama e completamente cegas… seus olhos ficavam cinzas como um céu chuvoso… suas peles ficavam finas como papel… podres… e muitas vezes quando tínhamos que movê-las de um berço ao outro, a pele de suas costas ficava. Carregávamos um ser semimorto e praticamente esfolado. Elas gemiam de dor de uma forma tão assustadora que sentíamos vontade de mata-las imediatamente, afim de poupá-las de tanta dor.

Em mais ou menos três ou quatro dias, estavam mortas.

Como eu dizia, eu saí, nu… de minha oca. Provavelmente encontraria alguma irmã ou prima, também nua à minha espera. E todos os outros casais, das outras famílias. Praticaríamos a iniciação. Oraríamos. Pediríamos filhos saudáveis. Mas quando eu saí, o que vi foi um mar de crianças. Um mar de pequenos corpos cinzas. Nossos líderes tiveram que passar a noite inteira empilhando os corpos que começavam a feder e atrair atenção dos animais locais. Uma fogueira foi feita e os corpos queimaram… a iniciação – graças a Deus – foi prorrogada. Não adiantava produzirmos crianças para serem mortas e queimadas dias depois. Precisávamos da cura.

III

Estava anoitecendo. Estávamos todos chorando muito, sentados em volta da fogueira de corpos. Algumas poucas crianças brincavam em sua volta. Outras – a grande maioria restante… – agonizava nas cabanas.

Foi quando ele chegou…

Dois vigias apareceram no centro da vila, segurando-o pelos braços. O procedimento era simples, se alguém nos descobrisse, tínhamos de mata-lo. Porém, matar um forasteiro não era uma tarefa adorada, muito menos de nosso orgulho, como eu sempre digo… éramos muito pacíficos.

Simplesmente nós amarrávamos os invasores num lugar fechado e isolado e os deixávamos lá, para que morressem de fome. Não éramos acostumados a ver pessoas sofrendo.

Esse homem veio sorrindo, sendo puxado pelos guardas. Vestia uma roupa branca, que hoje eu sei que se trata de um jaleco típico dos profissionais de saúde. Segurava uma caixa de vidro transparente com um líquido amarelado. Tinha olhos insanos. De repente, ao deparar-se com os líderes, passou a berrar, dizendo que tinha a cura para a doença das nossas crianças. Estávamos desesperados e passamos a ouvi-lo.

Os guardas foram ordenados a solta-lo imediatamente. O homem tinha um cabelo preto e ralo, era magro demais, magro como nunca tínhamos visto antes. Nós éramos robustos, musculosos, treinados para jornadas de mais de doze horas de trabalho. E ele… sorria. Ele sorria o tempo inteiro… e isso me incomodava. Parecia incomodar também outros membros de minha família. Nós, os Leciths, éramos responsáveis pela guarda da vila e proteção das pessoas. E por isso éramos observadores e muito desconfiados. O homem foi conduzido a uma pequena oca onde estávamos mantendo os recém-nascidos e os casos mais graves. O lugar tinha cheiro de morte. Nossos líderes o conduziram e ele foi logo tirando uma seringa do bolso e aplicando numa criança.

Instantaneamente a criança reagiu. Poucos minutos depois, estava de pé. Horas depois, estava viva e sorrindo.

IV

Costumo dizer em palestras que conheci o Diabo antes mesmo de saber que Deus existia.

Observamos por quase dois dias a melhoria das crianças e revitalização da vila. Parecia um verdadeiro milagre. Sei que o que aconteceu depois foi horrível, mas o renascimento daquelas crianças, nos proporcionou os dias mais felizes de nossa vila. Foram quase dez dias de festa. Porém, não sabíamos que eram os nossos últimos dias…

Os assassinatos aconteceram, numa noite fria de quase chuva.

As crianças passaram a atacar os adultos, como pequenas bestas. Seus dentes se tornaram pontiagudos, seus movimentos, incrivelmente ágeis, porém descompassados. Seus braços e pernas se quebravam e iam ao chão, reformulando-se como grandes patas num formato aracnídeo. Mas o pior eram os seus olhos… vermelhos, brilhantes. E suas faces que eram, pura maldade.

Os poucos que sobraram se juntaram e tentaram se armar com lanças improvisadas e pedras pontudas. Estávamos imersos numa guerra e nem mesmo sabíamos o que era uma guerra. Obviamente acabamos perdendo.

A vila inteira fora devorada justamente pelo que nos era mais sagrado. Nossos filhos. Apenas eu e mais dois irmãos conseguimos correr até encontrarmos outros humanos, acampados não muito longe dali. Fomos conduzidos até a cidade, estupefatos, maravilhados com a imensidão de tudo e pela quantidade de gente. Uma vila gigantesca, com seres humanos misturados em cor, tamanho, tipo, voz, jeito. Compreendíamos o que diziam, mas – excitados demais com o que estávamos vendo, e desesperados e chorosos com a destruição de nosso lar – não conseguíamos interagir com as pessoas.

V

Bem amigos, hoje, faço parte desta sociedade já há oito anos. Quando eu sonho, meus sonhos ainda se passam na vila. Quando abro os olhos todos os dias de manhã, penso por alguns segundos que ainda estou em minha velha oca. Até hoje dizem que aqueles pequenos monstros, criados por aquele homem diabólico, jamais foram vistos de novo. Dizem que sou um charlatão, criado pela mídia, e que inventei a história. Dizem que vivo um personagem, vinte e quatro horas por dia, afim de vender meu livro, minhas palestras e minha imagem.

Mas, caros amigos, hoje sou apenas um cidadão normal… tenho um trabalho, uma mulher e dois filhos. Mas jamais esquecerei todas as faces dos pequeninos que morreram na vila…

Alguns, pela doença… e outros… pela cura.

One thought to “O Diabo Surge Na Vila, Oferecendo a Cura”

  1. Conto interessante, com o poder de prender o leitor no desenrolar dos fatos acontecidos, narração precisa cheia de expectativas, experiências de vidas, daí talvez a pretensão de mostrar algum ar de mistério, eu digo talvez porque a maioria dos escritores tendem mostrar esta coisa inexplicável que é viver, morrer sendo prova do mistério, mas ao mesmo tempo mostrar a lógica de diversas dificuldades da época. Bem eu queria simplesmente dizer que foi muito bom de ler…

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