O Coxo

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

 

Alfredo Carriço teve uma juventude desafogada quando comparado com os outros rapazes da mesma idade. Numa altura em que ter uma simples bicicleta era um luxo, já Alfredo fazia roncar a sua Famel, uma motorizada de três velocidades.

O despique entre ele e Rui Ruas, também ele, menino rico, da aldeia vizinha, era constante. O barulho das motorizadas em acelerada competição arredavam as pessoas dos afazeres para ver quem ia à frente. No entanto, eram ambos bons rapazes, acabando quase sempre por pagar umas rodadas aos amigos de ambos na taverna.

Depois da inspecção militar, ganharam, ora um, ora outro, uma moto BSA. Porque ambos os pais também competiam, se o filho de um tinha, logo o outro arranjava igual.

Indiferentes a estas disputas entre familiares, os dois jovens davam azo à sua irreverência, agora em velocidades assustadoras em estradas de macadame. Quis a pouca sorte que numa curva um tanto apertada, Alfredo se tenha despistado, chocando com um carvalho que ladeava a estrada.

Gravemente ferido, Alfredo, não viu o choro convulsivo do seu amigo e companheiro das corridas. Entre os inúmeros ferimentos, constava uma perna quase desfeita. Fez diversas intervenções cirúrgicas para lhe salvarem a perna. Salvou-se a perna, mas ficou para sempre a manquejar.

Rui ficou de tal forma traumatizado, que acabou por nunca mais andar de mota. Apesar do seu amigo, sempre bem-disposto, lhe propor umas voltinhas para matar a saudade.

Rui acabou por seguir a carreira militar, enquanto Alfredo é dispensado devido à perna. Assim, ficou a gerir a empresa do pai; Tractores e máquinas agrícolas.

Passados umas décadas, os cabelos brancos, não roubaram de todo, a alegria aos dois amigos, que confraternizavam sempre que podiam. É num desses jantares que o senhor coronel e o empresário vão revivendo momentos que as peripécias da vida lhes proporcionaram.

– Era eu alferes quando vi a minha companhia ser flagelada com um ataque nocturno. Muitos refugiaram-se nos abrigos, mas, abrigados não respondíamos ao fogo inimigo. Um cabo cozinheiro deu o exemplo, saltando para a metralhadora pesada respondendo ao fogo. Com tanta metralha foi um milagre não ter sido ferido. Sem qualquer ordem de comando, eu e uma dúzia de homens respondeu com morteiros, silenciando as forças atacantes.

Só para veres o que é o destino, aquele rapaz que saltou do abrigo para responder ao fogo, morreu de uma morte estúpida, em pleno sono.

– Olha meu caro! As minhas guerras foram outras. No tempo em que estive no hospital vi muita miséria, mas foi lá que fiz um grande amigo. Um amigo que teve menos sorte do que eu ao cortarem-lhe a perna.

Numa altura, resolvemos ir até à capital ver uma peça de teatro. As dificuldades para arranjar lugar junto ao teatro, levou o meu amigo a estacionar num lugar reservado a deficientes. Mal tínhamos estacionado quando um polícia nos abordou, apontando pra placa.

Argumentei que embora não tivéssemos no automóvel identificação de deficiente, o carro era o de um. Com uma gargalhada o polícia rematou que embora coxeasse isso não me dava o direito de ocupar o lugar.

O meu amigo que se tinha adiantado veio até nós dizendo que o deficiente era ele. O agente desta vez não se riu, ao ver um homem muito elegante a caminhar perfeitamente, pensou em gozação, e ali mesmo, ameaçou-nos com ordem de prisão se prosseguíssemos na mentira. É nesta altura que devido ao nervosismo o Carlos começa a gaguejar, com o polícia impávido a tomar nota da matrícula e a pensar que a gaguez seria a deficiência daquele malandro. Quando o vê agarrar-se ao tornozelo que puxa, e atira aos pés do polícia. O espanto do polícia foi tal que recuou meio assustado ao ver meia perna ali aos seus pés. «Então, sou ou não sou deficiente?» Gritou o meu amigo aos saltinhos para se manter em pé.

Uma gargalhada solta pelo coronel temperou o jantar, mas torceu o nariz ao convite do amigo para ouvir novamente o ronco da mota.

– Não leves a mal Ernesto, mas desde o teu acidente jurei que nunca mais me sentaria numa mota. Com certeza que compreendes e respeitas esta decisão.

– Claro que sim! Já eu não sou assim. Aqui há dias fui ao armazém ver a minha “menina”. Depois de a limpar resolvi dar um passeio com a desculpa de tomar um café fora de portas. Tranquilo e devagarinho fiz o meu gostinho. Quando ia estacionar e descer, esqueci-me e apoiei-me na perna coxa. Resultado; sem força na perna, caí com a mota por cima. A senhora do café e o marido ajudaram-me a levantá-la. Aflita a senhora perguntou se me tinha magoado.

-Não, minha senhora, não foi nada! – Respondi.

– Ai magoou, magoou, o senhor vai a mancar tanto!

4 thoughts to “O Coxo”

  1. Meu caro Lorde. Coxo pilotando moto (ou mota em PT) é fácil. O difícil é mantê-la em pé quando ao parar. E se cair, vai que tem uma “senhora do café” por perto.!
    GRANDE LORDE!

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