O Coxo Chegou!

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

 

Caminhando vagarosamente pelas laterais de uma estrada da região centro-oeste brasileira, suportando o calor intenso e as agruras do seu andar inclinado para o lado, pastagens, cercas, vacas, e casebres sempre a vista, percebeu indícios de proximidade de uma povoação. Acabava mais uma das estradas empoeiradas, longas e silenciosas de um percurso sem fim. O remate da rodovia se mistura com a rua principal da pequena cidade interiorana. Mercadinhos, bares e lojas de produtos baratos aumentam de número a cada passo em direção ao ponto central, uma praça onde em seu centro posiciona a Igreja Matriz tendo à frente um coreto, jardins e bancos para sentar. O chafariz seco e maltratado oculta a exuberância de dias melhores. Moradores desocupados passam boa parte do dia por ali, misturados com a singeleza e a pobreza do lugar. Ruas descalças proliferam à volta mostrando as deficiências do Poder Público, pouco atuante, tão desanimado quanto a população. Todas as vias da cidade se pareciam iguais, quase todas as casas paupérrimas estavam circundadas por cercas de três fios de arame e um portão capenga sempre aberto. Mangueiras sombreavam as moradias, crianças nos quintais e nas ruas brincando, mulheres sofridas, peitos caídos, vinham olhar a redondeza e homens simplórios caminham a passos lentos ao encontro de amigos, carregar algum objeto ou procurar ganhar o pão do dia.

Manquitolando ele forçou mais passos a sua caminhada e seguiu em direção a um dos assentos de concreto, sombreado por uma figueira antiga e, cansado, se acomodou deitando displicentemente. Colocou sob a cabeça a mochila pesada e fez dela seu travesseiro. Tirou do bolso seu instrumento musical inseparável e começou a tocar a sua gaita de boca. A melodia agradável convidou a chegada para mais perto alguns frequentadores da praça que já tinham aquele estranho sob a mira da curiosidade desde que apontara na entrada da cidade.

A notícia correu célere entre os moradores:

“O coxo chegou”!

Dia seguinte mais moradores enxeridos envolveram o homem que continuava a soprar o instrumento preenchendo a praça de musicalidade. Ganhou pão, café e simpatia dos moradores que o rodeavam e pediam mais músicas e mais informações do aventuroso. Horas passada e alguém se atreveu:

– Por que você manca, moço?

– Vou contar. Há muito tempo fui trapezista, era o maior espetáculo do grande circo. Exibia de todas as formas minha destreza como acrobata aéreo nos saltos, nas acrobacias, na apresentação. A cama elástica finalizava todo show suportando meu corpo jogado a cada término de espetáculo e meu ego vibrava infinitamente com as aclamações dos espectadores. Sempre recebendo muitos aplausos que me orgulhavam de todas as formas, cada dia mais confiante até chegar a dispensar a devida proteção. O dia fatal foi breve e fui lançado ao chão sobre o picadeiro, sofrendo inúmeras fraturas e escoriações. Suportei e venci todas as intervenções, cirurgias, imobilizações, fisioterapias, mas uma das pernas ficou mais curta que a outra, impossibilitado de voltar ao trapézio que deixei definitivamente. Ouvi muitas palavras de consolo e outras tantas de censura, tais como; displicência, abuso, vaidade, ostentação, ingenuidade, inocência, etc.

Parte da curiosidade coletiva satisfeita, alguém ainda indagou:

– E agora, estás à procura de alguém, aventureiro?

– Inocência. Estou à procura dela por todas as paragens e não entre as crianças, pois elas não servirão – respondeu.

Os presentes, visivelmente espantados, incrédulos, não entenderam bem a resposta e um deles perguntou a todos sobre alguém do lugarejo que atendesse por aquele nome, sem receber qualquer resposta. Um jovem ainda trouxe a vaga informação que uma certa dona Inocência sumiu depois do passamento do finado Leocádio, capataz em uma certa fazenda. O visitador, apesar de esperançoso por uma indicação voltou a tocar a gaita, como que conformado, mais uma vez. O coreto passou a servir de abrigo noturno e o banco do jardim acolheu o visitante durante o dia.

A notícia correu célere entre os moradores:

“O coxo procura a Inocência”!

Certa tarde, um idoso acercou-se do aventureiro e gentilmente identificou-se como pessoa educada em literatura e filosofia. Cuidadosamente explicou que os livros informavam o estado mental do viajante, que seu intelecto atuava como o de uma pessoa que assumira personagem inexistente, fictícia e, portanto, a sua procurada Inocência não existia realmente. Explicou que tal personagem foi criada por Taunay nos idos do século XIX, filha de Pereira, um fazendeiro abastado, e curada de uma enfermidade por Cirino, falso médico que perambulava por aquele sertão. Tanta dedicação do “doutor” criou o ambiente para ambos se apaixonarem e passaram a se encontrar, às escondidas, no laranjal da fazenda. O capataz chamado de Manecão, sertanejo, vaqueiro bruto a quem fora prometido a donzela pelo pai, começou a seguir os passos do rival e enciumado um dia interpelou-o, descarregou uma garrucha em Cirino que atingido pelos dois tiros da arma caiu por terra, pedindo água e sussurrando o nome de Inocência, morreu em seguida.

O viajante ouviu com atenção o relato do conselheiro e completou:

– Muito bem, caro amigo. Ainda podemos acrescentar na história a importância da figura verídica do alemão Guilherme Tembel Meyer, que em 1863 apresentava ao mundo a sua descoberta, a borboleta até então desconhecida: “Papilio Innocentia” nome esse dedicado a espécie como homenagem à Inocência, a moça do sertão de Santana do Paranaíba, Mato Grosso. Logo após ela também morre de tristeza profunda, inconformada pela perda do homem amado.

Impressionado com o acréscimo ditado pelo viajante, surpreso pela sua cultura, passou a discutir outros detalhes do livro, ponderando ao final:

– Muito bem homem, diga então quais as características de sua figura buscada.

– Inocência! Sob o frio trazido pelo inverno ou o calor do verão, é de longa data o início das minhas tentativas de a encontrar entre os adultos. Não procuro um ser ingênuo pois este é aquele que não sabe ou ignora o que deveria saber, seja porque se esperava que ele soubesse, seja porque se aborda algo que é amplamente sabido. Também não é imbuído da capacidade intelectual natural em diferenciar entre o certo e o errado. Desbravei céus e terras procurando incansavelmente a inocência. Ela é um produto raro no reconhecimento da riqueza da vida. Faz parte da perplexidade humana, uma mistura de deficiência e desejo. Nas minhas andanças eu a procuro de uma forma diferente, que é mais forte do que eu e não cessa em minhas entranhas, no meu objetivo e me faz sempre ir em frente, cada vez mais. Não existe fisicamente, não é um ente, uma pessoa, é uma formação sentimental imbuída na originalidade de alguém de quem o mundo não roubou a infância. Uma raridade, que um dia, talvez, eu vá encontrar. E nesse dia vou soprar minha harmônica sem parar, por muito tempo, em agradecimento e homenagem ao encontro. Não tenho esperança que esse dia vá chegar!

Despediu-se do interlocutor, esticou sua esteira sobre o piso do coreto, deitou e adormeceu. Logo ao amanhecer um galo cantou ao longe, o frio da manhã abraçou o vento que empurrou as estrelas para longe dando lugar ao sol ainda vacilante. Olhou sem pressa ao redor, desejou bom dia à vida, jogou um beijo para a árvore acolhedora, um olhar zombeteiro para alguns passarinhos dorminhocos, apanhou a seus míseros pertences e partiu.

A notícia correu célere entre os moradores:

“O coxo foi embora”!

 

One thought to “O Coxo Chegou!”

  1. Primeiro pensei em plágio, mas logo reconsiderei e que talvez o coxo resolvesse dar uma voltinha de moto. Todavia esse é um outro coxo, mais filosófico, que me deixou uma palavrinha que desconhecia “manquitolando”. Um abraço Flavio!

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