O Covarde

 

assin-henrique-britto

 

 

 

(Salvador – BA)

lago-taquaralA brincadeira no lago era uma brincadeira de assassinos. O lago era fundo e moradores locais diziam que estava cheio de piranhas, mas era um modo de impedir que as pessoas se aproximassem. Não acreditamos na mentira. Mas mesmo assim algo me dizia que se fossemos, não iríamos retornar. Uma brincadeira não vale o risco.

O desafio era aparentemente simples: atravessar o grande lago nadando. Ninguém nunca tinha conseguido atravessar. O mal vivia dentro daquele lago. Algo tão ruim que fazia as pessoas desaparecerem. Os corpos nunca eram encontrados. Éramos apenas quatro adolescentes procurando adrenalina. Dois casais.

As meninas chegaram atirando suas roupas pra cima e entrando juntas imediatamente em meio a gargalhadas. Meu amigo e eu nos sentamos no capô do carro assistindo e incentivando, rindo e bebendo cerveja.

Na metade do caminho escutamos gritos sufocados. Não eram exatamente ruídos de afogamento, era como se algo as machucassem, as torturassem… e só em seguida as afundassem no rio aos gritos misturados com engasgos desesperados. Tentavam acenar em desespero e meu companheiro saiu correndo em pânico, dizendo que tínhamos que salvá-las. Eu dei vários passos para trás caindo sentado no chão.

Eu não lhes contei ainda, mas, sou um grande covarde. E é por isso que estou aqui, vivo, contando rapidamente o que aconteceu.

Meu amigo correu bestamente em direção a morte. As meninas já tinham desaparecido. Corri e alcancei o alcancei, derrubando-o no chão. Tentei convencê-lo de que já não tinha mais jeito. Ele me esbofeteou a cara e eu caí chorando. Meu bravo amigo atirou-se na água. Fiquei sentado observando e ele foi ficando cada vez menor… estava perto do outro lado. Tive uma pequena esperança. Ele ia conseguir?! Não! Não ia. No meio do caminho foi pego, assim como as outras.

II

Permaneci sentado chorando como uma criança por um tempo que nem sei. No fundo eu não acreditava na lenda do lago. Mas agora acredito. E estou aqui sozinho e vivo… porque sou um covarde.

III

Alguns dias depois do acontecido, eu estava chegando ao meu apartamento, era meia noite. Ouvi um barulho vindo de dentro. Pensei “meu deus tem alguém em casa!” Mas consegui o mínimo de coragem e abri a porta tapando os olhos e abrindo apenas depois de conseguir acender as luzes.

Para o meu completo horror me deparei com todos os meus amigos mortos. Tinham suas peles podres e em estado de decomposição, riam de mim e se aproximavam lentamente. Uma das garotas estirou o braço quase sem pele e tocou minha face como se quisesse me acariciar. Os outros dois pegaram com força meus dois braços e me conduziram pra fora. Desmaiei.

Acordei num arrepio ao concluir que estávamos no lago. Não sei por que, mas eu não gritava por socorro. Sentia-me culpado desde a ultima vez por ser o único sobrevivente.

“Tenha coragem! ” Disse um dos monstros me empurrando em direção ao lago. Eu olhei e pensei, não há esperança… sei que vou morrer… não preciso ter medo. E então corri em direção ao lago e nadei de olhos fechados, com força e desespero, pensando apenas que seria pego e assassinado por aquela coisa demoníaca que ali vivia até afundar e morrer.

De repente toquei o chão. Olhei em volta, estava raso, fiquei de pé. Estava no outro lado do lago. Meus amigos mortos sumiram. Voltei a pé pra casa e andei por muitas horas no escuro do mato me sentindo uma pessoa nova, numa nova vida sem medo.

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