O Comendador de Bronze

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

A estátua de bronze do comendador é ignorada pelos pombos insolentes.

Quanta sujeira…

Pudera, fica bem no centro da praça, debaixo de um cedro enorme, onde as aves moram. Aves que estavam lá antes de colocarem o homenageado na praça.

Os mais antigos contam que o ilustre viveu décadas atrás, sobrenome estrangeiro, discursava sobre família, religião, tudo o que se esperava de alguém naquela posição social, naquela época.

Gerou numerosa prole, uma única esposa. É, mas segredos, todos os têm. É muito difícil ocultar uma vida paralela numa cidade pequena, em época de moralismo exacerbado. E segredos, todos temos.

Nas recepções, festas e tudo onde fosse solicitada a presença do comendador, a família o acompanhava, era um modelo a ser seguido. Depois das dez, a família era levada para casa, questão de costumes. O nobre retornava ao evento, e tudo recomeçava com requintes de modernidade.

As mulheres contratadas para o segundo tempo não agradavam ao comendador, mas uma simples copeira, a síntese da ingenuidade. Mulata invisível aos olhos dos demais nobres, mas um sol de luz para o comendador. Todos iam embora ao final, o comendador também ia, mas para a periferia de terra batida onde morava a “outra”, cheirando a frituras e suor.

Uma ou duas horas, ela não precisava fingir em seus dezenove anos, tudo era natural. Bastava uma paciência gigantesca com o comendador, que já contava com certa idade.

Mas, ninguém sabia. Imagine, era o comendador.

Passaram-se assim alguns anos, e sem os recursos anticoncepcionais que se conhece hoje, era natural que uma gravidez se rebelasse. Um menino de cabelos ondulados e olhos azuis veio ao mundo. A semelhança era gritante, todos sabiam, mas ninguém perguntava.

Era o comendador.

Quando a idade lhe atingia níveis de proximidade com o fim evidente, a crise na bolsa de valores acelerou a fatalidade com a perda de fortunas para corretores. A família titular herdou alguns imóveis, o suficiente para manter o padrão de vida por mais duas gerações.

A família da periferia herdou o que sempre teve.

Nada.

E de nada adiantou contar à família e à sociedade o que era evidente, era só olhar para o pequeno. A polícia era chamada para tirar da porta da nobreza aquele estorvo, “onde já se viu uma mentira destas”.

O tempo passou, ela desistiu de tentar o mínimo de justiça para o pequeno, algum estudo, um futuro digno. Teve outros relacionamentos, aquela que para a cidade não passava de uma oportunista. O filho tornou-se adulto, sobravam-lhe apenas serviços braçais, onde não se prescindia de estudo, que nunca teve.

Hoje homenageado em posição de destaque, no centro da praça principal da cidade foi instalada uma cópia fiel do comendador, tamanho natural, sentado em confortável poltrona, no mais puro bronze.

Já tem alguns meses que foi inaugurada, mas os pombos não entendem destas coisas de nobreza, não sabem onde depositam seus dejetos. O cheiro já incomoda aos olfatos mais sensíveis, parece abandonado.

Hoje, mais uma confusão no albergue municipal. Alguém que conhecia a história fez alguns comentários sobre a oportunista, já falecida. Que não existiu naquela cidade beleza maior que a dela. Quando o monitor chamou a polícia, um deles resolve fugir e dormir na rua.

Talvez na praça central encontrasse abrigo, não podia ter mais problemas com a lei. Detém-se diante da estátua, ele é a cara do ilustre. Enrolado no cobertor inseparável, encontra conforto nas curvas de bronze.

Algum dia pai e filho dormiriam juntos.

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