O Botequim da Rua George

 

 

 

 

(São Paulo – SP)

Durante trinta anos, Antônio Garibaldi foi dono de um botequim quadradinho da rua George, no bairro da Lapa no Rio. Desde que comprou o estabelecimento, Antônio, um italiano da cidade de Roma, dizia aos fregueses:

– Botequins como o meu ainda se tornarão motivo de excursões de escola pública. No futuro, as professorinhas ainda dirão aos alunos que naquele dia, eles visitariam um boteco, obra única da arquitetura do século XX.

Garibaldi explicava:

– Vejam estes micros azulejos laranjas espalhados pelas paredes. Não são delicados? Vejam a máquina de café, a mesa de bilhar, o balcão. O boteco é como igreja antiga, mas igreja não tem máquina de café, não se joga bilhar, não tem balança vermelha pra pesar mortadela. Você não entra em paz e come um ovo cozido.

Garibaldi ria muito destas conclusões e, de fato, ele, dono de botequim, nunca quis saber de igrejas, mas sabia preparar pão de queijo. Garantia que os religiosos do futuro ainda diriam que o Jesus de hoje tomava uma média às sete de manhã em um bar antes de sair para as salvações. E completava:

– Talvez o boteco escolhido por Jesus possa ser este boteco!

Os fregueses curtiam as relações que Garibaldi criava entre a sua baiuca e a fé, embora alguns outros, os fregueses evangélicos, menosprezassem a teoria como se ela fosse uma cachaça ruim. Não percebiam que eles mesmos, bebiam no bar de Garibaldi a sua dose de cachaça, simplesmente por ali ser um lugar discreto e perene.

Sexta-feira, dia 15, Garibaldi morreu de falência múltipla dos órgãos aos setenta anos e os fregueses amigos ficaram sem saber se compareciam à missa ou depositavam flores na entrada do botequim do amigo. Muitos preferiram as flores, o que fez a esposa de Garibaldi, dona Suzana, preparar torresmos aos visitantes em homenagem ao marido.

(No final, também por causa dos torresmos, a teoria de Garibaldi se tornou a maior iguaria do boteco).

Garibaldi deixa mulher, três filhos, dois deles proprietários de outros botequins e seis netos. Todos gordos.

 

DO LIVRO: “TOUROS EM COPACABANA”

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