O Bonachão Felinto

 engraxates

Tião Carneiro

(Natal – RN)

“Sabe, gente boa, a mulher não tem culpa de nada. Não é ela a perdição do homem. A gente é quem se perde com elas. Raros são os homens que entendem as mulheres, compreendeu? Por isso ficamos plantando desavenças. A verdade verdadeira, gente boa, é que sempre fomos impiedosos com as mulheres”, reconhecia a estupidez masculina o experiente, ricaço e bonachão Felinto, trocando de pé na cadeirona de engraxate, mas com os olhos se estocando no rosto do vizinho de cadeira.

Esse reconhecimento se dá por volta dos anos oitenta, na Pracinha do Diário, em Recife.  Gente boa é como o bonachão Felinto chama o engraxate Diel. O vizinho de cadeira é conhecido por galego, mas é desconhecido ali, posto ser aquela a primeira vez que ali engraxava os sapatos. O engraxate dele é o Rui.

O bonachão Felinto está saindo da casa dos sessenta anos. Na poeira ficam os engraxates Diel e Rui, já que estão entrando na estrada dos vinte, e o cliente Galego, que destrava a cancela dos quarenta.

Cliente semanal do Diel, o tema preferido do Felinto era as aventuras com mulher. Diel concordava devolvendo risadas. O Rui ora ria, ora emudecia. A conduta ia depender das risadas ou da mudez de seu cliente. Naquele instante, por exemplo, Rui mantinha-se fechadão, porquanto fechadão mantinha-se o cliente novato. Bons negociadores mentais, a dupla.

Felinto, estocando mais e mais o olhar no vizinho, o galego, atendeu a um pedido do Diel:

            – Você gosta desse episódio, não é, gente boa? Eu também, porque tem um belo final, conquanto mostre a baixaria do homem, o nosso secular machismo. Passou-se assim, gente boa.

Adão, presidente de nossa confraria, convocou uma assembleia para discutir absurdo prenúncio de independência organizado pelas mulheres. Adão anunciou a safadeza:

Escutem, companheiros, tenho como modelo a líder delas, a minha senhora, a Eva. A Eva é danada de inteligente. Ontem, enquanto conversávamos, ela fazia a relação das compras, divertia-se com as brincadeiras da sobrinha e encantava-se com o cabelo de uma caminhante. Ninguém aqui faz isso, companheiros. Dar cordas a pessoas desse tipo é pedir que das cordas elas se apropriem e aprisionem o nosso braço-de-ferro.

A Eva sente as coisas, compromete-se, apaixona-se. Devemos sentir inveja da Eva, pessoal.  Precisamos puni-la. Punição que sirva de exemplo às suas possíveis lideradas. O plano é este. Na próxima terça-feira, oito de março, internaremos a Eva no manicômio do Dr. Frankenstein. Já acertei tudo. Está encerrada a assembleia. Amanhã, Matusalém, você prega a ata no portão da frente.

Mas a Eva passou longe do hospital. Aconteceu o seguinte, gente boa:

De ressaca, Matusalém confiou a missão de fazer a ata ao companheiro Noé. Noé pegou o rascunho do Matusalém e leu este garrancho: terça-feira, oito de março, dia da internação da mulher de Adão. O desastrado Noé passou o garrancho a limpo, prendeu a ata na porta da associação e destacou a principal deliberação: terça-feira, oito de março, dia internacional da mulher de Adão.

Grata a Noé pela homenagem, a Eva convida as colegas para comemorar o dia dela. Os homens também são convidados, é lógico. Vão, putos da vida com o Noé, mas vão. Vão fazer a festança na casa de praia da família Noé. Começam a tomar vinho, então, gente boa, lá pras tantas, todo mundo melado, D. Noêmia, a esposa do Noé, faz a cabeça do marido no sentido de que ele denomine aquela data como o dia de todas as mulheres. Então, gente boa, à revelia de Adão, Noé sobe num tamborete e proclama o Dia Internacional da Mulher.

            Sempre que o Felinto acaba de narrar esse episódio, o Diel começa a fazer cera no passar a cera nos sapatos e se dana a puxar pelas boas lembranças do Felinto. Sabe que a gorjeta é proporcional ao positivo estado mental do cliente. Por sua vez, o Felinto nunca se faz de rogado e pegue ousadias amorosas. Agora, na última prosa, a melancolia se apresenta. É uma historinha de política com amor. A nostalgia, contudo, está longe de diminuir a caixinha do Diel. Pelo contrário, aumenta. O Diel habituou-se a esporar assim o Felinto, embora já tivesse a historinha decorada:

            – O Dia Internacional da Mulher costuma lembrar o amor de sua…

            – Costuma, gente boa. Lembra-me uma mulher especial, meu grande amor, porquanto o que vou lhe contar ter se dado num oito de março. Sabe, gente boa, essa mulher fez de mim o homem mais feliz do mundo, ao mesmo tempo em que enterrou a minha carreira política. Eu era prefeito de importante cidade do interior. Até…

            Desconhecia-se o motivo, mas o nome da cidade, assim como o nome da mulher, nem a pau o Felinto revelava. Continuemos com o Felinto.

            Até corriam boatos de que eu seria nomeado governador de Pernambuco. Eu, gente boa, era pastor, fazendeiro rico, bem casado, muito querido no meio evangélico. Acontece que me apaixonei pela secretária de meu Partido político. Vinte aninhos dela contra os meus quarenta e tantos, ficava receoso de um escândalo. Até porque, gente boa, ela desconhecia essa paixão.

            – Mas o doutor achava que ela se fazia de…

            – Exatamente. Ela se fazia de tonta. A mulher conhece essas coisas, gente boa. Bom, seis horas da noite dum oito de março, está só eu e ela na sede do Partido. Ah, gente boa, não resisto e beijo o rosto dela. Ela riu amarelo, ficou por ali, beijei de novo. Aí ela fechou a salinha e me agarrou, respirando com dificuldade. Não dá pra descrever o quando animalescos nos tornamos, gente boa.

            – Ela ficou buchuda, não foi?

            – Foi. Mas vim saber disso passados três meses. Ela falou de nosso encontro pra alguém e a história caiu nos ouvidos de meus adversários. Falaram até de estupro. Deu o maior bololô. Pra resumir, a jovem pegou uma nota preta de meus adversários a fim de confirmar a boataria, a minha escalada política foi para o brejo e a jovem foi para um lugar desconhecido. Tentei localizá-la, mas fracassei. Não sinto rancor dela, gente boa. Pelo contrário, sinto amor. Ela era muito jovem, foi levada a fazer aquilo. Queria muito encontrá-la. Queria saber… Minha mulher não podia ter filhos, gente boa, então a história da gravidez deixou-me eufórico. Já pensou se ela tivesse tido um menino? Mas…

            Nesse ponto, o engraxate Rui, por desatenção ou demasiada atenção, bate forte com a escova no calcanhar do cliente, o galego. O galego grita, avermelha os olhos, pula da cadeira e fala, atropelando a voz.

            – Ah, meu Deus. O senhor, o senhor…  Foi prefeito em Petrolina, foi? O nome da jovem é Gracinha, é? O senhor é, é… O senhor é meu pai. Minha mãe saiu da cidade porque sentia muita vergonha do senhor. Ela me contou tudo.  Ah, meu Deus!

            Aí foi a vez do Felinto pular da cadeira e falar atropeladamente.

            – Ah, meu Deus! Você é meu filho. Como se chama? Sua mãe tá bem? Você tem uns traços da Gracinha. Por isso eu olhava tanto pra você. Escute…

            Não vou descrever a emoção da dupla. Certo é que saíram abraçados para um restaurante. “Que coisa, Rui”, gaguejou o Diel. Rui apenas riu.

            E rindo foi visto na praia do Pina, coisa de nove da noite. Bebiam ele, o galego e uma moça, a namorada dele. Falavam de negócio. A moça argumentava:

            – Mereço, sim. Foram três meses aguentando o fungado do velhote. Saber o nome da cidade até que não deu trabalho. Trabalho mesmo foi arrancar o nome da Gracinha. Tás arrumado, galego. O velho tem um bocado de prédio aqui em Recife.

            No dia seguinte, a alegria do Felinto não cabia na cadeira do Biel. Dizia ele:

            – Sabe, gente boa, a mulher não tem culpa de nada. Não é ela a perdição do homem. A gente é quem se perde com elas. Raros são os homens que entendem as mulheres, compreendeu?

2 comentários em “O Bonachão Felinto

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *