O Bigode

 

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

Farto de encontrar a cama fria e de à noite comer sozinho, Tristão deu consigo a pensar que era altura de dar uma prenda a si mesmo. O natal aproximava-se e também tinha direito de pedir ao menino Jesus um presente.

Viera ao mundo sem conhecer família. Criado num orfanato de onde fugira assim que teve forças e pernas pra correr. Vagabundeou pela cidade, fazendo recados e aguentando quase um ano para aprender a arte, na tasca de um galego.

Quando deu por ela, cortava e assava castanhas na baixa. Acabada a época, com um triciclo motorizado vendia fruta pelas ruas, fugindo quantas vezes da “bófia” ou de algum freguês mais turbulento, que se queixava que pagara um quilo, e não pouco mais que oitocentos gramas.

Era feliz!… Mas desde que entrara nos “enta” (quarenta) começou a pensar que uma sociedade com a Rosa poderia resultar. Ela vendia peixe na praça de Algés, quase de frente à sua banca de fruta. Perante os seus avanços para juntarem os trapinhos, ela ria dizendo que não era homem pra ela, mas quando precisava de ir à lota era a sua carrinha que ela requisitava. Também nunca desdenhara as suas castanhas, embora fosse compensado com um ou outro almoço onde a sua garoupa o consolava.

Tinha casa própria e o negócio corria bem, era só acertarem uns pequeninos detalhes, para se poder deliciar com os pés quentes. Todavia, era nos detalhes que ela batia de frente.

Conhecia-o como ninguém com os seus defeitos e as suas virtudes, mas aí entrava logo a disparatar; que virtudes se as tinha estavam tão bem guardadas que nem ele sabia onde as arrumara. E que tinha que rapar o bigode que o fazia mais velho.

Era por isso que Tristão ia protelando a sociedade em que um dos sócios antes de entrar já estava com exigências. É que em todo o tempo decorrido e quer antes ou depois de começaram a encostar os beiços nunca houvera reclamações quanto ao seu farfalhudo bigode, aliás, dizia que lhe dava um ar de grande senhor. Agora sabe-se lá por que carga de água, virou o bico ao prego e sai-se com essa.

Desculpa de mau pagador era o que era, se ela não gostava de ser mandada ele também não, mas cos diabos, embirrar com o bigode era de bradar aos céus. Que raio, ele nunca se imiscuíra na saia acima do joelho nem nos decotes generosos. Ela dizia que era para mostrar ao povo invejoso o primeiro fio de ouro que comprara ainda era menina. Ela não compreendia que o que mostrava ao mundo era o altar onde ele rezava, deixando-o meio louco sempre que via um olhar guloso. Nem tampouco mostrava má cara quando lhe apetecia um linguado e ela se esquivava oferendo-lhe fanecas de rabo na boca.

Estes e outros “quiproquós” faziam com que a sociedade não fosse firmada frente ao padre Inácio. Este, amigo dos dois, lá os ia aconselhando que após uma boa caldeirada a fruta caía sempre bem.

Tristão concordava, embora por vezes se questionasse sobre os conhecimentos gastronómicos do padre, ela sempre sorridente dizia que sim que estava disposta ao sacrifício de arrumar as cuecas desde que ele rapasse o bigode.

«Raios, outra vez o bigode!» protestava Tristão, procurando solidariedade masculina, ao que o padre respondia que todos tinham que fazer um sacrifício.

«Atão, e ela não abria mão de nada?». A casa onde arrolhariam teria que ser na dela, já que estava decorada pelo bom gosto feminino. Tretas! A dele não lhe ficava atrás, só não tinha rendas nas cortinas. Esquisitices que não entendia. Para além de lhe gastar uma pipa de massa em cortinados, só porque não gostava da cor escura. Para não falar do emblema do seu clube que foi corrido da sala. E vem o prior falar em sacrifícios.

Um dia zangara-se, e durante uma semana não foi à lota. A desgraçada não dava parte de fraca e o serviço de ir buscar o peixe estava a ser fretado ao Chico Lérias. Um galifão daqueles a fazer descontos no frete à sua Rosa, pô-lo em sentido, sim porque o mânfio trazia alguma fisgada, e antes que lhe tivesse que lhe amassar o focinho, cedeu e pediu batatinhas …que é com quem diz, pediu desculpa e fez as pazes.

Uma outra zanga meteu até polícia, quando apanhou em flagrante um figurão com as mãos no peito da sua Rosa. Na fuga, ao passar por ele, enfiou-lhe com uma caixa de limões na cabeça. O infeliz depois de apanhar estendeu o fio que arrancara. Aí sossegou Tristão que pensava que o malandro queria apalpar as gémeas onde ele repousava a cabeça. Rosa toda ternurenta abraçou o seu herói por reaver o fio, mas logo o afastou quando este disse que nem se lembrou disso. Revoltou-se foi com o sacrilégio de alguém tocar no seu sacrário. Foi complicado a Rosa entender isso.

Vendo que não havia volta a dar, acedeu em rapar o bigode desde que a vida matrimonial não o impedisse de ir ao futebol. Ela concordou desde que não a chateasse com os decotes, e, o casamento foi marcado. Na véspera apanhou um susto como há muito não tivera, quando ela fez questão de ser ela a rapar o seu adereço de tantos anos. Quando lhe mostrou o resultado ia caindo da cadeira perante aquele desconhecido que via no espelho.

Casaram. Pouco tempo depois é a Rosa muito meiguinha que pede para que volte a deixar o bigode crescer. Ele acede impondo uma diminuição nos decotes.

 

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