O Beijo

 

 

 

(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

Lá fora o frio apertava, a geada fazia estalidos ao pisar, mas o pequeno Francisco continuava a catar azeitonas que por ali ficaram depois da apanha. A espaços o garoto soprava nas mãos os dedos hirtos de frio.

O primeiro toque para a missa sobressaltou o menino, mas olhando para o saquito sorriu. Em casa, despejou num saco maior as azeitonas meio congeladas, que escondeu atrás do monte de lenha. «Segunda-feira vou lá», pensou. Subiu as escadas para se aquecer ao lume, tomou o café de cevada com broa migada, aprontando-se de seguida para a missa.

Como sempre, tentava que fosse visto pelo padre para garantir a entrada na sessão da tarde de televisão. A sua atarefada infância roubava-lhe o tempo para a doutrina. Daí que a missa, quantas vezes só parte dela, fosse a sua garantia.

Perante a dúvida do pároco que torcia o nariz pela falta da senha que o garoto garantia a pés juntos ter perdido, logo este, fingindo uma falsa humildade, descrevia o evangelho desse domingo. Prontamente o padre lhe franqueava a entrada, sorrindo pela esperteza do pequeno, embora meio desconfiado de que o espertalhão lera o evangelho no jornal Amigo do Povo.

Era assim todos os domingos. A missa a meio e o pequeno esgueirando-se devagarinho para correr até ao campo, onde as três ovelhas tinham que ser mudadas de sítio para encherem a barriga. Aproveitava o facto de o dono daquela leira que tinha erva que Deus a dava, estar na missa, para se “descuidar” deixando os animais matarem a barriga de misérias.

Deste modo, aparecia em casa antes da hora com as ovelhas de barriga tão empertigada que pareciam prenhas. Estava dispensado dessa tarefa, embora o vizinho desconfiasse que foram as suas ovelhas responsáveis pelo desbaste da erva. Mas como, se andavam presas e ele estava na missa?

Enfim, tinha a parte da tarde de domingo para a brincadeira.

Era o fim de tarde que todos os miúdos ansiavam. Os desenhos animados e a série Rin Tin Tin concentravam a pequenada em frente do televisor por duas horas. Sentados no chão, ninguém tugia nem mugia excepto quando se ouvia o clarim anunciando a carga de cavalaria perseguindo os índios.

“Coitados dos índios”, soltou o pequeno Francisco perante os apupos dos colegas. Na altura não se relevou o facto e perdeu-se na memória fértil do faz de conta da pequenada. A frase tinha sido esquecida pelos meninos que apuparam o coleguinha por tomar partido dos índios, não fora pouco tempo depois, ser o tema do sermão daquele domingo, “os mais fracos”. Focando precisamente o comentário do Francisco ao dizer “coitados dos índios”.

As brincadeiras tomaram outro sentido. A carga de cavalaria deixou de ter tantos pretendentes quanto o “clarim”- com a velha corneta de anunciar a chegada da sardinha fresca da Figueira da Foz – mudou de facção e agora queria ser o grande chefe Touro Sentado. Outros simplesmente queriam ser índios porque podiam atirar setas com arcos de cerejeira, enquanto as tropas do General Custer com as suas espingardas feitas de ripas, pouco mais que mossa faziam do que uma ou outra cuspidela quando lutavam corpo a corpo.

A ceia composta de uma boa malga de caldo com broa migada era o término de um domingo bem passado. Amanhã era outro dia. Dia de escola. Uma rápida vistoria à sacola ver se tudo estava conforme e embrulhar num bocadito de pano o pião e a baraça. Outro dia, outros afazeres, outras responsabilidades que no intervalo eram esquecidas ao fazer pontaria e dar uma ferroadela em cheio nos piões que estavam na roda.

Era já tardinha quando regressou da escola, uma corrida até casa para fazer o que há muito sonhara. O monte de lenha arredado e a saca atascada de azeitonas à vista. Experimentou o peso, pesava mais do que ele, o que lhe empestou um ar de felicidade. A custo conseguiu colocar o saco no carrito de uma roda, e pouco depois estava a negociar as azeitonas no lagar de azeite.

Com o dinheiro bem comprimido no bolso das calças, correu até à aldeia vizinha onde a vira no mês passado. Lá estava, a mais linda boneca que por ali se vira. A nota de vinte escudos deu para a pagar e comprar umas chinelinhas para a mãe. Doutro modo o dono da loja não lhe venderia a boneca. O negócio devia ser bom porque o negociante ainda lhe deu vinte e cinco tostões de troco e uma mão cheia de rebuçados.

Naquele dia tudo parecia ser como os outros domingos, não fora o tempo perdido pelo Francisco em volta do espelho a moldar a popa que teimava em fazer pouco do pente. Até as botas mereceram uma segunda camada de sebo para ficarem mais lustrosas.

Pelo carreiro combinado, lá vinha a Mariazinha, desviando-se um pouco da rota a pedido de Francisco que tinha um presente para ela. Vinha corada, não tanto pelo caminho calcorreado, mas por se encontrar sozinha com ele. Pouco se falavam na escola, porém, os seus olhares quando se encontravam diziam o que a boca não se atrevia.

– Toma é para ti! – Disse Francisco de chofre. Baixando a cabeça de seguida, torcendo e retorcendo o pequeno lenço dos domingos.

Um beijo repenicado na bochecha foi o agradecimento mais que sonhado e que pagava de sobejo o sacrifício de apanhar azeitonas no meio do gelo.

 

One thought to “O Beijo”

  1. Caro escritor Lorde. A história do pequeno Francisco me levou, com as devidas adaptações de sítios, a lembrar de minha infância quando, em dias de domingo, chegava cedo ao largo da Igreja, onde havia também um bar muito frequentado por adultos e ganhava alguns trocados engraxando sapatos “até as botas mereceram uma segunda camada de sebo para ficarem mais lustrosas” para depois, à tarde, gastar o ganho com o aluguel de bicicleta de uma “bicicletaria” na mesma praça. Só não me lembro de alguma Mariazinha para completar aqueles tempos!

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