O Beijo Escarlate

 

 

 

 

(São Leopoldo – RS)

Aquiles Pedro Viana Brandão, era empresário do ramo farmacêutico. Seu casamento com Erica Miller, durou apenas nove anos. Érica não aguentou quando o marido passou a ter manias absurdas. Primeiro começou a reclamar da higiene da casa, dos aposentos, principalmente do banheiro. No trabalho também era a mesma coisa, a faxineira era obrigada a fazer limpeza do escritório dele a cada duas horas. Não só limpar, desinfetar era o mais importante. As suas manias pioraram quando ele se negou a ter contato físico com a esposa. Foi dormir em outro quarto. Começou também a reclamar da comida, que era malfeita, que a salada não tinha sido lavada, etc. Érica acabou pedindo o divórcio. Aquiles aceitou com naturalidade. Gostava da esposa, mas no pensamento dele, com o tempo, Érica foi se tornando desleixada, se descuidando da aparência e da higiene pessoal. Após o divórcio, Aquiles passou a morar no mesmo prédio da empresa. Mandou construir um quarto no andar em que ficava o escritório. Ele queria evitar as aglomerações de pessoas na rua, nos corredores, e no elevador. Contratou uma secretária especialmente para comprar suas roupas, produtos de higiene pessoal, etc. Para ele, a rua era um ambiente nocivo à saúde.

Algum tempo depois, Aquiles passou a preparar suas próprias refeições. Na entrada do escritório mandou instalar uma cabine de descontaminação para purificar as roupas da secretária e dos diretores que precisavam conversar com ele pessoalmente, ou mesmo em reuniões da empresa. Depois, as reuniões e os contatos com seus diretores e funcionários, passaram a ser por videoconferência. Aquiles isolou-se por completo em seu escritório-apartamento, e dali não saia para nada, com medo de se contaminar com as bactérias e germes que existiam em toda parte, inclusive no ar.

Certa noite ele acordou em sobressalto. Teve um sonho horrível, um pesadelo! Sonhou que estava amarrado com os pés e mãos numa cama larga, em um quarto sombrio e frio. Completamente nu, estava indefeso, vulnerável. Da porta, como um portal para um mundo desconhecido, surgiu o vulto de uma mulher, uma silhueta esguia, que aos poucos foi se aproximando. Enquanto ela se aproximava saindo da luz ofuscante, ele foi enxergando melhor a sua aparência. Ela estava com uma capa escura seus pés pareciam revolver a poeira dos mundos infernais. Sombras ondulavam seu ao redor, como ondas encrespadas em um mar de veludo negro. Ela se aproximou dele, inclinou-se e o beijou. Imobilizado, ele não conseguiu evitar o contato com aquela boca vermelha e úmida, cheia de germens!

Sentiu na boca, aqueles bichinhos horríveis se contorcendo e se reproduzindo às centenas. Acordou angustiado. Mesmo com as luzes acesas, vislumbrou sombras se esgueirando pelos cantos. Logo que bateu as 8 horas, ele pegou o telefone e ligou para a secretária. Precisava conversar com alguém. Janete não atendeu. Passavam das oito horas, ela já devia estar na empresa! Ligou para Rita, a telefonista. Também não atendeu. Walter, o diretor geral nunca saia da sala dele. O telefone tocava lá e Walter não atendia. Aquiles achou estranho que ninguém atendia o seu chamado. Será que era domingo e ele não sabia? Não pode ser! Pelas suas contas era terça-feira. Resolveu mudar de roupa e ir até a sala da secretária. Colocou uma máscara cirúrgica descartável e calçou umas luvas para poder tocar nas maçanetas, provavelmente cheia de imundícias. Pouco depois descobriu que a mulher não estava na sala dela. Não havia ninguém naquele andar. Será que todo mundo se escondeu dele? Ele resolveu seguir adiante e desceu para o outro pavimento. Ali também não havia ninguém. Desceu mais. O edifício estava vazio, deserto. Ele temia ir até o saguão, onde muitas pessoas transitam trazendo micróbios da rua. De repente, ouviu murmúrios. Vinha do laboratório de microbiologia, no subsolo. Abriu a porta corta-fogo, desceu as escadas. As lâmpadas se acenderam automaticamente. No laboratório não tinha ninguém. Os instrumentos e aparelhos estavam em ordem e higienizados, os armários com as poções, as fórmulas, produtos químicos, vírus e toxinas, estão em ordem.

Súbito, soou uma risada. Ele se voltou. A risada vinha de toda parte. Aquiles cambaleou, assustado esbarra na mesa. Vidros caíram rolaram se partindo. Estilhaços voaram para os lados. Produtos químicos escorreram para o chão, soros, poções, cultura bacteriana se misturaram entre frascos partidos. Toxinas, germens, micróbios e vírus se espalharam pelo ar. Uma sirene começou a soar. Portas foram lacradas. As luzes piscaram. Aquiles tentou abrir a porta, mas estava trancada. Ele levou as mãos à cabeça. O barulho das sirenes é ensurdecedor!

O homem começou a sentir um calor infernal, mas não havia nenhum fogo na sala! Ele começou a transpirar. Despiu o paletó, depois a camisa. Andou de um lado para o outro a procura de uma saída. Só tinha uma porta e ela foi lacrada. Havia germens e vírus por toda parte. Micróbios, ele os sentia nas mãos, nos braços, eles entraram pelos poros, pelo corpo inteiro. A pele começou a ficar vermelha e a coçar. A coceira é tanta que ele coçou violentamente com as unhas até os braços ficarem em carne viva. Aquiles urrou de dor. Girou de um lado para o outro, numa dança louca. Sua vista ficou nublada e ele esbarrou no armário. Mais vidros quebrados. Uma névoa cinzenta começou a brotar do piso.

Aquiles sentia que seu corpo estava sendo consumido pelos germens vírus e micróbios. As carnes se tornaram flácidas primeiro, depois escorreram dos ossos como uma pasta gelatinosa. Suas pernas descarnadas não suportaram mais, sem tendões, se dobraram e se desconjuntaram. Os dedos sem carnes e músculos não conseguiram se segurar na beira da mesa, se partiram nas juntas e caíram quicando pelo chão. Os últimos pensamentos de Aquiles foram como um fiapo de fumaça que se desfaz no ar. Sua última visão foi a mulher de preto com os lábios escarlates e os olhos como duas lívidas estrelas brilhando no miasma negro em que ele, por fim, mergulhou.

 

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