O Armazém Maldito

 

 

 

 

(Salvador – BA)

Sara olhava o portão daquele lugar… Que mais se parecia um armazém. Nunca via abrirem a porta.

Dentro dele, Jeremias tentava dormir…, mas a dor lancinante lhe despertava. Era um pulsar dolorido, que fazia tremer seu ventre e eriçar seus pelos… Ele quase conseguia berrar, por trás do esparadrapo que sufocava sua boca suja.

O torturador sem face e sem nome, com sua voz abafada por uma meia calça escarlate que seus risos e lamentos tapava diante de cada atrocidade… Se desculpava, logo em seguida.

Foi tirando-lhe unha por unha, com um alicate. Foi lhe queimando o toco dos dedos… O toco que sobrava, quando lhe arrancava as pontas com uma faca suja. Fazia-lhe urinar-se em dosagens ocasionais de choque elétrico. E depois… Beijava a sua testa.

Eu te perdoo… – Dizia o torturador, aos prantos.

Mas… VOCÊ pode se perdoar?! Você pode seguir daqui… Tentando COMPENSAR, para sempre, tudo o que você fez?

E, acredite Jeremias… EU SEI! O que você fez.

Sara encarava a porta, dia após dia. A porta que não se abria. E Jeremias queria dormir e sonhar. Mas a dor o fazia acordar o tempo inteiro. Rezando bestamente, tremia…

Se eu sair daqui eu prometo… Se eu sair daqui, eu prometo… Se eu sair daqui, eu prometo…

Mas no fundo Jeremias sabia que não poderia… Nunca poderia mudar.

O torturador se aproximou mais uma vez e Jeremias não mais gritou. Apenas fitou o chão, com um olhar parado. O olhar de quem desistiu.

Foi removida então a fita que sua boca cobria.

Não. Eu não me perdoo… Eu não posso mudar. Talvez eu não queira mudar… Talvez… Talvez eu não QUEIRA.

E então o torturador revelou sua face e seus olhos eram rios de lágrimas. Era a menina Sara. E o armazém maldito talvez fosse sua casa. Se não fosse, talvez agora pudesse se tornar.

– Por favor… Me mate. – Ele pediu.

E ela… Confortavelmente e com pouca ligeireza. Posicionou uma chave-de-fenda em seus olhos… E foi empurrando devagar. O corpo agonizou num estopim de dor e sangue. Sara teve paciência… Sara tinha tempo.

Depois da dor excruciante…

Jeremias se calou, sorrindo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *