O Aniversário de Isabel

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(Natal – RN)

Bezerra ficouisabel de mutuca nos quatros cantos da piscina para ver em qual deles a mulher iria aparecer. Dificilmente errava o ponto. Tinha o faro bom para essas coisas. Apostara no canto do barzinho. Errou feio: Isabel surgiu na quina em que mergulhara.

“Pelo olhar de decepção, peguei você, não foi, meu caro Bezerra?”, gritou Isabel, sorrindo.

Bezerra deu uma coçadinha na cabeça, estirou a língua e ficou a admirá-la. Quis ir lá, mas preferiu deixá-la com os pensamentos. Se quisesse papo, Bel teria vindo aqui, matutou.

Isabel dirigiu-se à mesinha do pé de palmeira, seu sítio predileto. Gostava daquele cantinho porque era ali que os amigos bem-te-vis vinham saudá-la. Acomodou-se, ligou um sonsinho e beijou as flores que o marido lhe aninhara nos seios. O ser humano é engraçado, pensava Isabel, referindo-se ao comportamento dela e ao do marido naquele oito de março, Dia Internacional da Mulher e de seu aniversário.

Em todos os anos, naquela data, o casal largava as obrigações profissionais e abraçava o amador ritual de ficar na cama até tarde. Obrigavam-se tão somente em agradecer a graça divina de serem sentimentais. Namoravam como se fosse o último namoro, entregavam-se como se de único domicílio. Depois isolavam-se na piscina, onde brincavam de tica, beliscavam petiscos, deleitavam-se com músicas clássicas, dançavam. Curtiam-se, enfim.

Isabel releu a mensagem de aniversário presa ao vermelhão das flores:

Pessoas nobres recebem, em dias de aniversário, auras cósmicas que as iluminam. Simultaneamente, porém, repassam essa irradiação divina aos amigos que delas se aconchegam. Porque aconchegado já vivo, sinto a cada segundo o resplendor dessa dádiva.

Parabéns, Bel. Pelo aniversário e pelo seu dia que é todo seu.

Do todo seu e somente seu.

Seu amor

Isabel queria palavras para descrever o amor pelo marido. Escrever e estilizá-las, posto que, desprotegidas, podem esmaecer com o tempo. Mas inexistiam palavras cujos significados exibissem a seiva da entrega incondicional. Amo-o mais do que tudo na vida diziam o óbvio. E Isabel fugia da obviedade. Ela e o esposo, especialistas que eram em triturar rotinas. Pelo que presenciavam nos casais amigos, o óbvio fazia a ardência amorosa ir se amornando. Neles, não. A lua de mel aos 35 anos de cada um, com 10 de casados, constituía a comprovação da fortuna carnal. Fortuna que provinha da mouquidão como Isabel escutava algumas amigas:

“Os homens, Isabel, são iguais em tudo. São traíras, cachorros e galinhas”, diziam elas. Isabel ria, punha água fria na fervura da generalização e deixava faminta a conversa. Não dar ouvidos a certas falas é ouvir a sabedoria. Esse era o lema dela. De mais a mais, o esposo cultiva o que para ela é o atributo supremo do homem: compreender a mulher. Só prende aquele que nos compreende, diz ela. E o esposo a compreendia. Em todos os sentidos.

“Do todo seu e somente seu” fez Isabel chorar. Chorando e sorrindo, fez finca-pé e mergulhou na piscina.

Bezerra viu o vulto correndo e ficou alerta. Tremenda gazela, falou consigo, depois de mais uma coçadinha na cabeça. Ah se meus pensamentos chegassem aos ouvidos dela. Diria que a amo, que a venero, que a idolatro. Que jamais a trairei, que nunca farei cachorrada com ela, que galinhar não é comigo.

Bezerra adorava os franzidinhos dos olhos de Isabel, aplaudia o jeito de ela jogar o cabelo pra trás, arrepiava-se com a maciez das mãos em seu corpo. Nada lhe faltava. Parecia que Isabel adivinhava os pensamentos dele.  Tinha por ela uma fidelidade canina, ainda que ficasse chateado em razão da exclusividade amorosa que Isabel exigia dele. Ela confundia fidelidade com exclusividade. Ele era exclusivo no instante em que estava dando atenção à pessoa, mas a exclusividade se dirigia para outro indivíduo tão logo a atenção mudasse de foco. E isso Isabel não queria entender. Achava que exclusividade a alguém implicava infidelidade a ela.

Bezerra compreendia tudo, afastava a chateação e sorria. Ou melhor, mostrava os dentes.

Agora, sim, Isabel saia no ponto imaginado por Bezerra: onde ele estava. Isabel sentou-se ao seu lado, ficou alisando-lhe a fuça, abriu a boca a fim de falar alguma coisa, mas um barulho fez os dois desviarem a atenção para aquela direção.

“Meu gatão”, disse Isabel, pondo Felipe, o gato da casa, sobre a toalha que lhe cobria as coxas. Bezerra presenciou o afago, fingiu indiferença, mas ficou rosnando de ciúme. Mas depressa o tangeu. Assim como não sou exclusivo dela, ela também não é exclusiva minha, pensou, conformando-se.

Bezerra gostava de Felipe, às vezes até brincavam juntos, mas a secular rixa entre cachorro e gato se mantinha.

Foi nesse clima que Euclides, o marido de Isabel, encontrou os três quando chegou do mercadinho, meio dia em ponto:

“Maçã para você, querida, peixe abiscoitado para o nobre Felipe e ração de cordeiro para o nobre Bezerra”.

Isabel serviu-se duma banda de maçã, serviu-se dos “nem me pega, nem me pega” para atiçar o marido e pulou na piscina. Euclides mergulhou atrás.

Bezerra e Felipe se entreolharam. Conjecturavam. Bezerra supunha eles aparecendo no pé de palmeira. Era bom nessas coisas. O faro de Felipe não era lá essas coisas, mas ele tinha certeza de que a dupla surgiria na palmeira. Já assistira àquele filme várias vezes. Apareceriam e começariam a chupar língua. Dali a minutos a Bel começaria a gemer. Não deu outra. Quer dizer, saíram no pé da palmeira e se danaram a chupar língua.

Bezerra sorriu. Ou melhor, mostrou os dentes.

“Ainda dou umas unhadas no Ocrido que é pra ele deixar de machucar a Bel”, jurou Felipe.

Foi assim, servidos de ração e de amor, que dois novos personagens encontraram o quarteto e desejaram os bens para Isabel:

Bem! Bem! Te-vi, te-vi. Bem-te-vi, bem-te-vi.

8 comentários em “O Aniversário de Isabel

  1. Caro colega e amigo Tião!
    Muito merecido o selo de destaque para seu conto, que é delicioso e com final surpreendente.
    Seu jeito irônico e satírico de descrever coisas simples, juntando gíria e detalhes regionais, transforma uma estória de amor em aventura romanceada.
    Já comentei sobre seu trabalho com alguns colegas, que disseram ir em busca de seus textos.
    Seja como for, quero parabenizá-lo pela excelente produção.
    Qualquer dia destes vamos trocar ideias por aqui. Abração!

  2. Essa é a beleza de um conto! Estória inventada, bem explanada, boa de se ler, principalmente pela brevidade. Português correto. Um verdadeiro “causo” contado por escrito. Contos longos vou ler em um romance o que faço pouco, pois demora para me satisfazer. Parabéns Tião Carneiro!

  3. Grande Tião! Boa disposição é uma característica nos seus textos. Os meus parabéns vão para o texto e pra frase “deixava faminta a conversa”. Adorei!

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