O Almoço da Dona Beatriz

 

 

 

 

 

 (Vieira de Leiria – PT)

Há muito que a dona Beatriz sofria do coração. Os problemas de saúde, começaram era ainda moça, mas os médicos do Centro de Saúde, nunca se preocuparam com aquela doente que amiúde por ali aparecia, mendigando uma consulta, como quem mendiga um pedaço de pão para matar a fome.

No dia em que esta lhe era concedida, só não era a primeira cliente a chegar ao Posto Médico, porque uma senhora africana, a troco dumas moedas, passava ali a noite, embrulhada numa coberta, sobre o banco de madeira que existia no alpendre junto á porta da entrada. Uma cena triste e degradante a que todos nos habituámos.

— Então dona Beatriz, o que a traz por cá desta vez?

–É sempre a mesma coisa, tentava explicar a doente ao médico – sempre apressado – que nunca tinha tempo para a auscultar como devia.

–Desmaiei na horta, falta-me o ar e já nem consigo subir os degraus de uma escada.

–Pois não vá para a horta, não suba escadas, toma estes comprimidos e isso passa.

Não passava. Tempos depois voltava ao médico e vinha de lá com um mesmo tratamento. As caixas de medicamentos iam-se amontoando num canto do armário, sem que a pobre mulher sentisse algum alívio para os seus males.

O marido José Maria, impotente para ajudar a mulher, tentava amealhar umas “notitas” para a poder levar a um médico da cidade, pois via a saúde da mulher a degradar-se e no posto médico do Centro de Saúde, não atavam nem desatavam, como era comum dizerem.

Quando um dia a Beatriz desmaiou defronte à porta, o Zé não esperou mais. A mulher foi metida no carro do compadre Joaquim que ali passava e “ala moço” que se faz tarde. Levaram-na a um médico da cidade. Um electrocardiograma confirmou o que era óbvio. O coração da dona Beatriz estava num estado deplorável, e pela primeira vez na vida, a mulher foi medicamentada para o seu mal.

–Nada de esforços e nada de emoções disse o cardiologista. Se ver a sua casa a arder, vire-lhe as costas e mais tarde fará uma outra! Uma emoção forte pode ser o seu fim.

A dona Beatriz prometeu, segui à risca aqueles conselhos, pois era a sua vida que estava em risco. Deixou de trabalhar na horta, deixou de fazer esforços e a sua actividade resumia-se à cozinha, à volta dos taxos e panelas.

–Eu trabalho por mim e por ti, dizia o marido, um incansável, para que nada faltasse ao conforto da mulher, pois não esquecia aquela conversa que teve a sós com o médico, numa das últimas consultas da mulher:

–A sua mulher pode viver muito se seguir à risca os meus conselhos. Caso contrário pode apagar-se a qualquer momento. Nada de esforços, nada de emoções.

Uma manhã, o Zé Maria subiu para a sua bicicleta para ir á farmácia que ainda ficava um pouco longe, para aviar mais uma receita. Partiu e não voltou. Quem veio ali, foram umas vizinhas com a triste notícia de que o pobre homem morrera atropelado. Elas conheciam o estado de saúde da dona Beatriz, a quem uma emoção forte podia roubar a vida. E agora como fazer, pensaram as vizinhas ?! Discutiram ideias, trocaram opiniões e depois de analisar todos os prós e contras, encontraram a melhor maneira de dizer à senhora que o marido morreu atropelado umas centenas de metros mais acima.

A dona Beatriz descascava calmamente umas batatas para o almoço, quando as vizinhas lhe entraram casa adentro.

–Então vizinha, como vai a sua saúde, disse a primeira?

–Olhe vai bem! Vou seguindo à risca os conselhos do médico: nada de esforços, nada de emoções.

–Sabe vizinha, disse a segunda mulher. Nós estamos aqui para lhe dar uma triste notícia.

–Ah sim! E que notícia é essa, perguntou sem interromper o seu trabalho?

–Sabe o seu marido vinha ali na rua…

–Bem sei! Ele foi à farmácia comprar mais uns medicamentos, antes que aqueles que estão ali no armário se esgotem.

–Pois, disse a terceira mulher, mas vinha um carro descomandado descendo a rua…

–Ah sim disse a Beatriz, e continuou a descascar batatas.

–E o seu marido foi atropelado mortalmente, disse outra das mulheres, baixinho, temendo o pior.

–Olha diz a dona Beatriz, já não é preciso descascar mais batatas!

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