O Alentejano Que Não Gostava dos Espanhóis

 

 

 

 

(Vieira de Leiria – PT)

O António Fragoso nasceu a poucos quilómetros de Badajoz, mas nunca gostou dos vizinhos espanhóis. Da janela do seu pequeno quarto, quase conseguia ver as gentes do país vizinho movimentando-se nas suas lides. No entanto, a vida foi passando e nunca o nosso homem ultrapassou essa linha imaginária a que chamamos linha de fronteira. Foi ensinado pelo pai a odiar tudo o que existisse além dessa linha.

–De Espanha, nem bom vento nem bom casamento! – já dizia o avô, que durou até aos noventa e sete anos, sem nunca abandonar aquela ideia negativa de tudo quanto de Espanha chegasse a esta nossa terra. A confirmar lá estava aquele vento frio que se fazia sentir nos meses de Inverno e que em certos anos se prolongava até Abril. A mãe chamava-lhe “vento espanhol”, um vento maldito que nos gretava os lábios e queimava a pele.

–De Espanha, nem bom vento nem bom casamento! Sempre foi assim e assim ia continuar.

Em menino, o pai levava-o a passear por Elvas, davam a volta às muralhas e era normal ouvir da boca do seu progenitor:

–Vê António, o dinheirão que se gastou com tudo isto, só para impedir que os gatunos espanhóis, depois de roubarem tudo o que encontravam no caminho até chegar aqui, não nos roubassem também a vida.

Rigorosamente verdade. O exército espanhol descia por ali abaixo em direcção a Elvas, deixando atrás de si um rasto de morte e destruição. Tudo lhes servia: cabras, borregos, porcos, galinhas e coelhos, eram retirados das capoeiras dos seus proprietários para entrarem no estômago da tropa invasora. Tudo era saqueado aos pobres agricultores, que fugiam a sete pés à aproximação do exército invasor.

Na escola, o António aprendeu o significado da perda da independência. O Rei Filipe de Espanha era neto do nosso Rei D. Manuel I e, só por isso, acabou por herdar o Reino Lusitano, como quem herda uma propriedade. Ao tempo assim era, e não poderia ser de outra maneira.

Mas quem era Filipe I de Portugal a quem a História chamou o Prudente? Filho de Carlos I e Isabel de Portugal, foi alcunhado por “Demónio do Meio- Dia” e acusado pela História de crimes horrendos, contando depois com a Igreja para uma absolvição total. A Igreja misericordiosa que cometia crimes ainda piores, perdoava Sua Majestade e este continuava cometendo crimes atrás de crimes. Foi este Rei Filipe I de Portugal, II de Espanha, homem sem carácter, sombrio e vingativo, que utilizando a intriga e a corrupção, se impôs a Portugal como legítimo sucessor da Coroa em 17 de Junho de 1580. Certamente que não terá esquecido de dizer aos seus soldados: “é fartar vilanagem” pois coma bênção Real os saques cresceram ainda mais.

–Fomos depenados por essa corja de ladrões! – assim ensinava na escola o professor Fausto, um homem com tanto de sabedoria como de ódio que – também ele – dedicava àqueles a quem hoje chamamos de “nuestros hermanos”.

Depois havia ainda o problema de Olivença, aquela cidade linda que nos foi roubada, só porque os espanhóis com a ajuda dos franceses – assim ensinava o professor Fausto – entenderam que devia ser espanhola, porque se encontrava do outro lado do rio Guadiana. E assim, além da cidade, mais uns quilómetros quadrados de território nos foi roubado.

–Não, espanhóis não! – dizia o António Fragoso. Que não ponham nunca os pés nas nossas terras, pois é assim que faço, nunca me aventurando para esses lados.

Denotando vocação para a música, foi estudar para uma escola em Évora, fixando residência no Monte das Flores a poucos quilómetros da cidade. Aqui foi envelhecendo sem mais voltar à sua aldeia, só para não ter que respirar, os ventos soprados do outro lado da fronteira.

I I

O sr António Fernandez vivia na confusão da cidade de Madrid, onde exercia com mestria a profissão de músico. Era trompetista numa famosa filarmónica da capital espanhola. Passava muito do seu tempo retido nos semáforos, amaldiçoando o tráfico que o obrigava a sair cedo de casa, para percorrer uma pequena dúzia de quilómetros que o separavam do seu local de trabalho. Foi com entusiasmo que se inscreveu naquela excursão para visitar um pouco do país vizinho, onde nunca estivera antes.

O Autocarro deixou Badajoz, entrou pela fronteira do Caia, e Elvas ficava logo além. O guia levou-os ao Forte de Santa Luzia, depois ao forte da Graça – jóias de arquitectura militar, – onde os espanhóis esbarravam nas suas invasões durante a Guerra da Restauração, percorreram as fortificações onde tantas vidas se perderam e deram a volta pelas igrejas da cidade. Elvas é hoje Património da Humanidade e os excursionistas sentiam-se maravilhados com cada metro descoberto.

O autocarro passou por Vila Viçosa onde puderam visitar o enorme palácio construído em mármore, para glória dos nossos Reis, enquanto o povo morria de fome. Daqui regressou o nosso Rei D. Carlos, quando ao desembarcar no Terreiro do Paço no dia 1 se Fevereiro de 1908 levou uns tiros na “caixa dos pirolitos” acabando por morrer nos braços da mulher, a Rainha Dona Amélia de Orleans, tão querida dos portugueses.

De Vila Viçosa, os “nossos amigos” espanhóis desceram para Évora, cidade museu que deixou sem respiração o António espanhol e todos os que o acompanhavam. Foram levados à capela dos ossos – monumento único – onde, ossadas humanas, cobrem cada centímetro de parede.

Seguiram depois para uma pousada de turismo rural onde iam pernoitar, e foi aí que os dois Antónios – o português e o espanhol – haviam de se cruzar. A tarde ainda ia alta, quando o António Fernandez decidiu dar um pequeno passeio pelas proximidades, fascinado por aquelas oliveiras centenárias de tronco tão carcomido que qualquer ser humano podia passar através deles, sobrando ainda espaço. Entrou na pequena praça, onde o nosso António Fragoso passava as tardes sentado na soleira da porta de sua casa.

–Boa tarde amigo! – disse o António Fernandez – num portunholês que deixou o outro de sobreaviso

Olá, uma ave espanhola por estes lados, assim deve ter pensado, ignorando a mão que o espanhol lhe estendia, e se estava sentado, sentado continuou.

–Olhe sou um turista espanhol e estou maravilhado com o seu país!

–Pois fique sabendo que este país seria mais bonito, não fosse a roubalheira praticada pelos seus antepassados!

Mas o espanhol estava ali para conversar e não ia desistir.

–São águas passadas, tempos que já lá vão e não voltam para bem de todos! Podes dizer-me o teu nome?

–Chamo-me António, nome do meu padrinho, pois era assim que se usava nesse tempo!

–António?! Mas que coincidência! Sabes que eu também me chamo António! O que fazes na vida amigo António?

Amigo não! – pensou o António Fragoso – nunca gostou de ninguém vindo do outro lado e não era agora que ia ser amigo dum espanhol

–Sou músico!

–Músico?! – mas que coincidência! Sabes, eu também sou músico! Em Espanha, dizemos que os músicos são boas pessoas, o que não deixa de ser verdade. E que instrumento tocas amigo António?

Outra vez amigo? Isto vai acabar mal, pensou o António Fragoso.

–Toco trompete!

–Mas que coincidência! Como é possível? Sabes, eu também toco trompete!

–E tocas bem? – perguntou o português, já farto de tantas coincidências do homónimo espanhol.

–Olha toco tão bem que ainda há pouco toquei em Madrid na procissão das festas em honra de Nossa Senhora de Guadalupe. Fui o escolhido para tocar, logo atrás do andor de Nossa Senhora, e toquei tão bem que a virgem se comoveu, desceu do andor, veio até mim e deu-me um abraço, debulhada em lágrimas.

–Pois eu, – disse o António português – também fui tocar há pouco na procissão das festas do Senhor dos Passos ali para os lados de Beja. Fiquei logo atrás do andor de Jesus Cristo, que ao ouvir-me tocar, largou a cruz que levava às costas, desceu do andor, veio cá abaixo, e deu-me um grande abraço enquanto me dizia:

–Bravo António! Ainda tocas melhor que um filho da puta dum espanhol, que há pouco fez chorar a minha querida mãezinha!

2 thoughts to “O Alentejano Que Não Gostava dos Espanhóis”

  1. Caro amigo Américo. Ressentimentos assim como mágoas trazidas há tanto tempo somente servem para a história, pois espanhóis, portugueses e europeus outros saquearam e foram implacáveis no devastar os povos da época, sem diferenciar os irmãos nacionais. Felizmente os Fragosos e Fernandez da sua estória não mais fazem parte da atualidade. Hoje somos todos Antónios, Américos, Flavios, e de várias nações, distantes fisicamente, porém como diz a letra da música: AMIGOS PARA SEMPRE!

  2. C’os diabos amigo Américo, fez-nos viajar pela história só para acabar com a gabarolice do António espanhol.
    Gostei como não podia deixar de ser, mas em história, de que gosto muito, recordo-lhe que o Filipe não recebeu o reino de mão beijada, teve que gastar rios de dinheiro para tivesse adeptos portugueses no seu apoio. Penso que a esta hora está por aí no Brasil, assim, só me resta desejar-lhe boas férias.

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