O Abandono

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(São Lourenço – MG)

criancaAbandonar, ato de desprezo/ traz tristeza imensa… /o abandonado sente-se só /mais um ser que lhe fora negado o amor/ sem o amor o ser humano é aniquilado//o aconchego dos pais é primordial/ podia ser eu, podia ser você/ que teve esse abandono terrível/São bilhões de seres neste planeta,/ Sim, são eles e suas histórias…

Dr. Jefferson, o jovem Juiz de Direito, aprovado com mérito pela sua inteligência e conduta excepcional, abominava as injustiças, as corrupções e tudo quanto se relacionava com a maldade. Antes de entrar no seu local de trabalho ele parou numa enorme praça, nas cidades grandes essas praças são um verdadeiro aconchego, parece que tudo acontece ali, até coisas misteriosas…

O magistrado nos seus 35 anos de idade carregava uma forte bagagem de conhecimentos, a experiência baseava mais na sua história complicada, marcas profundas ficaram, ainda bem, porque o calejaram bem fundo. Na sua incomparável perspicácia observava atentamente o vai e vem daquela praça movimentada. Sabia que corria o risco de ser assaltado ou até pior. No seu terno impecável poderia ser um chamariz para os malfeitores, entretanto algo lhe dizia que precisava ficar ali para uma firme reflexão.

Depara com um garoto aparentemente de 10 anos, dava pra perceber naquele pequeno ser uma intensa confusão interior, lá no fundo podia perceber uma tristeza inconcebível. Os dois olhares se cruzam e o garoto foge, parecia que o olhar do Juiz pudesse fulmina-lo, medo de polícia, medo de que pudesse denunciá-lo? Talvez até mais do que isso, Dr. Jefferson entendia muito bem. Uma volta ao passado retornou,  como se ele entrasse numa máquina do tempo e ir voltando… voltando até  na sua infância:

– Ele vai recordando a primeira cena drástica, com apenas 6 anos, via sua mãe assassinada na favela onde morava, nem lembrava do pai, mais uma criança sem pai, que fora jogada no mundo pensava ele: — essa criança era eu!!!

Daí em diante só martírio, o Juiz que aparentemente possuía exteriormente máscara de ferro, não podia deixar de chorar ali mesmo naquele local que inspirava tudo, até a volta ao tempo descrevendo passados alegres e passados  cheios de pesadelos.

Recordava dos dias que era colocado em abrigos de crianças desamparadas, sentia a frieza dos seus tomadores de conta, sentia a violência de seus colegas de infortúnio. A revolta acumulava naquele pequeno ser que apenas despontava para a vida neste mundo cheio de contraste.

Os anos foram passando, o pequeno Jefferson fugia, fugia sem parar, algumas vezes capturado, algumas vezes voltava porque a fome e a solidão fazia com que ele voltasse no mesmo lugar que sentia triste e desamparado. Mesmo naqueles lugares mais  terríveis alguns resquícios de bondade de algumas pessoas o atingiam, eram poucos, mas o amor  refrigera a alma.

A sua esperança era de que alguém viesse adotá-lo, aliás já tinha presenciado tantos meninos saindo dali  amparados, mas o menino Jefferson nada de ser adotado. Na sua mente prodigiosa raciocinava rápido e pedia:

— Será por causa da minha cor? Se aparecesse para mim uns pais seria tão bom, poderia até ser feliz!… Jesus, você foi menino também olhe por mim!

Até que um dia alguém lhe diz:

—- Jefferson, vá até à sala da recepção imediatamente.

Acostumado a intensas repreensões ele impassível e preparado se dirige ao local. Na sala imensa e austera mesmo sendo bela, circundada com belíssimos quadros, podia sentir uma pequena frieza, talvez pela impregnação das muitas infelicidades que aconteceram ali. Presentes o diretor e um simpático casal, sim, a simpatia deles deixou o menino menos tenso, até pensa que eles não fossem tão brancos até ia pensar que iam adotá-lo. Seus pensamentos são interrompidos quando o diretor fala:

— Jefferson, estes senhores quer te conhecer.

— Conhecer? Responde espantado o menino.

— Conhecer, tomar conta de você se quiser, é claro! (fala a meiga senhora)

Pela expressão de felicidade do garoto o pacto já estava feito. Feita a apresentação, dona Elen  e senhor Renato saem de mãos dadas com o garoto Jefferson.

Nesses pouquíssimos minutos o imponente meritíssimo Jefferson consegue lembrar disso tudo, continua naquele enlevo completamente extasiado, sim, naquele lugar que inspirava reflexão profunda era como se realmente fosse uma máquina que fazia voltar ao passado, talvez só ali seria possível sentir estar vivendo em outros tempos, então ele continua suas lembranças:

—- Depois dali eles foram meus inesquecíveis e verdadeiros pais. Não foram tudo flores, tomar conta de mim logicamente não seria uma tarefa fácil, mas meus pais souberam dar conta do recado.

Pontualíssimo o Juiz examina a hora, faltava ainda alguns minutos para entrar no fórum, seu local de trabalho, podia continuar nas suas lembranças pensando e falando consigo mesmo:

— Nossa! Eu mal havia completado 11 anos e fiz um verdadeiro reboliço na escola, fui longe demais com meu espírito de lutar pelo que achava que era certo. Um grupo de colegas iriam massacrar um menino indefeso, eu consegui liderar outra turma, nenhum dos dois lados queria mostrar medo. Uma verdadeira guerra no pátio da escola. O resultado foi: cadeiras quebradas, mesas estragadas. A diretora parecia uma possessa.

Toda culpa caiu nos meus ombros. Quando caí em si, uma onda de tristeza me abateu. E meus pais?  Justo eles que decepcionei. Já estava preparado para ser abandonado mais uma vez. Minha mãe foi a encarregada de comparecer na escola. No caminho eu tentava dizer:

— Sabe, mãe?

— Não fale agora, depois nós conversaremos, (resposta de minha mãe com um leve tom de brabeza) soube depois que na escola a  minha defesa não poderia ser de um advogado melhor.

Minha mãe de frente com  todos os envolvidos. A diretora lhe aponta o dedo:

—- Está ciente do que seu filho fez? O prejuízo foi grande. Quantos materiais estragados!

Aí minha advogada começa:

—- Prejuízo? Estou disposta a arcar com a minha parte, mas a senhora diretora sabe de fato como foi o começo de tudo isso? Porque sempre tem uma causa. Se meu filho é o único culpado no meio de dez crianças da mesma idade envolvidas, então ele é um gênio, ou como vou dizer, um excepcional?

— Senhora, está me desacatando? (responde indignada a diretora)

— Não, senhora diretora, eu queria apenas um julgamento justo! A senhora falou em prejuízo materiais, não seria pior se fossem prejuízos relacionados com machucados nas crianças? Além do mais estão aqui os outros responsáveis pelas outras crianças envolvidas, será que elas acham que eles são completamente inocente?

Antes que a sala virasse um verdadeiro campo de guerra cada um defendendo o que é seu e mal ela acabou a sua pequena tese uma mãe pediu a palavra:

— Senhora diretora é verdade, tudo começou porque o filho dela queria defender o meu filho que seria judiado talvez por mais de 5 alunos.

Depois disso o assunto ficou resolvido. Mas a bronca minha mãe me deu com ar muito severo: —- Não faça isso   novamente!!!

E como virar santo se eu entrava em plena adolescência, ainda atormentado pelos monstros do passado. Só sei que quando percebi os anos voaram rápidos. Depois de formado, quase independente fiz a pergunta chorosa aos meus pais:

—- Porque vocês nunca desistiram de mim!?

Eles me respondem em coro como estivessem decorado a resposta:

—- Porque nunca deixamos de te amar!

Quem passasse por aquela praça, conhecesse o digníssimo Juiz, dr. Jefferson não acreditariam no que estavam vendo, o meritíssimo chorava. Ele consegue se recompor e fala consigo mesmo:

—- Ainda bem que ninguém me viu chorar, meu Deus! Realmente o amor é incrível, muito misterioso, tem o poder de salvar a humanidade.

Quase cambaleante de emoção ele dirigiu-se ao fórum no seu local de trabalho a poucos minutos dali. Mal entra e é notificado:

—- Dr. Jefferson, os envolvidos na audiência já estão na sala. Os policiais já estão com aquele garoto abandonado…

5 thoughts to “O Abandono”

  1. Obrigado amigo Lorde. Elogio vindo de tão gabaritado autor é uma dádiva que só aumenta a minha vaidade. Mas a sua menção que uma opinião inserida mostra ao autor ver, pelo menos, que tinha alguem na platéia é magnífica!

    1. Agradeço ao Lorde pelo seu comentário também muito importante sobre o meu texto. Bacana meus amigos, alguém para nos ler, muito bom…

  2. Concordo com o Flavio Dias Semim na apreciação do texto O Abandono. Ao dar os parabéns pelo seu trabalho ao autor José Lourenço Florentino, estendo-o também ao Flávio, pela sua esclarecida opinião. Entendo que opinando, se aplaude ou não um trabalho, mas fica a gratidão do autor que assim vê que pelo menos tinha alguém na plateia.

  3. Um conto com carateristicas apanhadas de fatos da vida real, mas que não emitiu opiniões, julgamentos, críticas ou situações semelhantes que desvirtuariam a essência do conto. Essa é a arte de manipular a escrita!

    1. Agradeço o Flavio Dias Semim pela sua opinião. Comentário lógico sobre meu texto, não deixa de ser um estímulo a mais nesta minha vontade de escrever.

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