Nunca Há Um Doido Sozinho

 

 

 

 

(Vieira de Leiria – PT)

Em casa do Benjamim Salvador tudo estava pintado de vermelho. A começar pelos pavimentos que eram avermelhados, o rodapé duma cor igual, as paredes não fugiam a essa cor e só os tectos eram brancos, pois é essa a cor do club do seu coração. Até a “Pantufa e o Tareco”, dois bichanos de estimação, traziam um lacinho vermelho atado à volta do pescoço.

O Benjamim não se cansava de repetir a quem o queria ouvir:

– Eu sou um benfiquista de primeira!

As paredes do seu quarto estavam cobertas de posters da equipa encarnada e na sala não havia mais espaço para pendurar bandeiras e cachecóis, todos com a legenda, BENFICA CAMPEÃO. No hall de entrada, numa moldura gigante, o rei Eusébio dava as boas vindas a quem entrava, fosse ou não benfiquista como o homem que ali morava. Também no cimo da chaminé, uma bandeira do Benfica, mostrava a quem passava, que ali habitava um benfiquista de primeira.

Era com orgulho que dizia que era sócio do Benfica desde o que nasceu, o que também era verdade, pois o pai que “Deus tem”- que morreu de ataque cardíaco no dia em que uma equipa inglesa desceu à Luz para pregar 5 – 0 ao glorioso – inscreveu o filho como sócio logo que este saiu da maternidade. O Benjamim, guarda religiosamente o seu cartão de sócio numa pequena vitrina, como quem guarda um tesouro, um testamento, ou uma relíquia. Se o jogo era lá fora, num país de que nem sequer sabia o nome, o homem acendia uma vela que punha sobre a mesa, o radio a pilhas, que estava constantemente a sintonizar quando a emissão deixava de se ouvir, tinha que estar ali à mão, e um pequeno quadro mostrando Nossa Senhora de Fátima, também ocupava o seu espaço. O Benjamim fazia o sinal da cruz mais que uma vez e com a pulsação acima dos níveis recomendáveis, erguia as mãos para os céus e de olhos fechados rezava em silêncio, esperando que o Artur Agostinho que era o relator de serviço, com a sua voz fanhosa, gritasse golo.

Se era golo da equipa lá de longe, o homem gritava apenas: é golo! Se o golo era do Benfica, tudo mudava de figura e eu ainda hoje não sei onde ia aquele homem armazenar tanto oxigénio. O seu grito, é goooooooolo, parecia não ter fim, e repetia-o duas ou três vezes, como se todos os ouvintes sofressem de surdez.

Quando tal ouvia, o Benjamim levantava-se dum salto, vinha à janela e gritava tanto como o outro: é gooooolo do Benfica, e até o Constantino, um sportinguista moderado que morava em frente, saía à rua a perguntar:

– Ó Benjamim, quem marcou?

– O rei Eusébio, pois claro! O meu Benfica é uma nação!

Mas nem sempre as coisas corriam de feição. Por vezes, o glorioso que tanta alegria já lhe tinha dado, também levava umas “ripadas no canastro”, pois os vencedores de hoje são os vencidos de amanhã. Quando tal acontecia, não havia actividade à volta da lareira e a panela de ferro herdada dos avós, era testemunha muda, da falta de apetite do seu dono. Perdia até a vontade de falar, tal era o seu desgosto. Se aquela bola não tivesse esbarrado no poste, se o Simões tivesse acertado com a baliza, se o árbitro que foi um ladrão, tivesse assinalado aquele penalti….Mas nada disso aconteceu. O homem vinha à rua mais mudo que um convento e era a vez do vizinho sportinguista brincar com ele:

– Ó Benjamim, tu tens que mudar de clube!

Mudar de clube, seria uma traição impensável, para quem era um benfiquista de primeira. Mais depressa mudaria de mulher como era comum ouvir a outros que nem eram tão benfiquistas como ele.

Era sempre dos primeiros a chegar ao estádio, sentava-se num lugar de melhor visibilidade para que nada lhe escapasse e só saía quando à sua volta já todos o tinham feito. Até que um dia comprou um lugar cativo. Não foi nada barato, mas valia bem o dinheiro que pagou por ele. Ali sentado, sentia-se mais importante que um rei sentado no seu trono.

Naquele dia havia jogo grande. Os bilhetes tinham esgotado duas semanas antes e o estádio ia ficar mais cheio que um ovo. Benfica e Sporting discutiam o título taco a taco e quem ali vencesse seria o Campeão.

Ao sair, o Benjamim não se esqueceu de passar pela capelinha de Nossa Senhora dos Aflitos que em tempos idos, um “brasileiro” em boa hora mandou edificar. Era ali que os mais aflitos vinham pedir ajuda ou protecção. Rezou uma dúzia de Ave-marias, na esperança que a Virgem pudesse dar uma ajudazinha ao clube do seu coração, pois como dizia a avó, orações e pratos de sopa, nunca fizeram mal a ninguém. Pelo seu clube faria tudo, até uma novena se necessário. Afinal era um benfiquista de primeira!

De camisola vermelha com o número 10 nas costas, boné e cachecol da mesma cor, dirigiu-se ao seu lugar. Dentro em pouco, a partida ia ter início. O estádio estava cheio. Ali dentro não havia espaço para mais ninguém. Lembrou com tristeza aqueles que ficaram à porta, pois nem no mercado negro conseguiram o bilhetinho milagroso que lhas permitisse, estar ali a gritar pelo seu Benfica.

Com o coração oprimido mas os olhos bem abertos, seguia a bola a que também chamavam de esférico e ainda, vamos lá saber porquê, de 350 gramas de couro. Talvez para provar que somos mestres em complicar o que é fácil, nesta arte de inventar palavras. Chegou o intervalo, o jogo estava empatado, porque o homem do apito era um gatuno que já tinha roubado três penaltis ao Benfica, para já não falar em dois ou três fora de jogo mal assinalados. Aquela barulheira infernal de gritos e insultos calou-se como por encanto, a mãe do homem do apito deixou de ser lembrada e aquela gente podia agora conversar um pouco.

Pela primeira vez, o homem pensou que não era único. Havia ali outros benfiquistas de primeira como ele, que tinham passado o tempo a gritar com todas as forças dos seus pulmões: Benfica, Benfica, como se os seus gritos tivessem o condão de fazer entrar a bola na baliza adversária. Só então reparou que mesmo por detrás estava um lugar que não tinha sido ocupado. Como era possível, num dia em que os bilhetes esgotaram? Teria sido mais uma voz a gritar pelo seu Benfica, pois muitos, nunca são demais. Intrigado, dirigiu-se ao homem que ocupava o lugar do lado.

– Ó companheiro esse lugar está livre?

– Está sim senhor! É o lugar da minha mulher.

– Então a senhora não pôde vir?

– Não! A minha mulher morreu inesperadamente. Sofreu um ataque cardíaco.

– Os meus sentimentos, companheiro! Mas, desculpe a pergunta: não encontrou um amigo que pudesse ocupar o seu lugar?

– Não! Os meus amigos estão todos no funeral da minha mulher!

2 thoughts to “Nunca Há Um Doido Sozinho”

  1. A boa disposição é seu apanágio, e como tristezas não pagam dívidas queremos mais textos que nos façam esquecer as misérias do dia-a-dia, como é o caso das pedreiras em Borba. O pior é que não há culpados de tanta ganância, como sempre. Penso que os amigos do Brasil sabem o que é uma baliza isto a avaliar pelos excelentes goleiros ( Guarda-redes, para nós) que por esta Europa brilham.

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