No Tempo Em que Os Animais Falavam

 

 

 

 

(Vieira de Leiria – PT)

No tempo em que os animais falavam, era um tempo avançado no tempo, quando o tempo era diferente do tempo que temos hoje. Só por isso, era o tempo em que os animais falavam.

Ao contrário da sua amiga, a pulga Beatriz que passava o dia por detrás do balcão dum café servindo pulgas e outros seres que ali vinham, a pulga Belmira gostava de passear, apanhar o sol da praia, bem esticada ao lado de outras pulgas que por lá apareciam e também por isso se sentia feliz. Era uma pulga, diferente das outras pulgas da sua geração.

Habituada aos prazeres da vida não dispensava tudo o que de bom a sua vida de pulga lhe podia dar. Três dias por semana, a pulga Belmira assistia a uma seção de cinema que ainda ficava um pouco distante e voltava de lá, sempre com histórias para contar.

As outras pulgas ouviam-na em silêncio, tristonhas por serem pulgas pobres e não poderem acompanhar a pulga Belmira que era uma pulga bem remediada.

Até que um dia, algo correu mal. A pulga Belmira chegou ao café, tremendo como varas verdes em dia de temporal e disse para a sua amiga, a pulga Beatriz:

—Amiga, por favor tira-me depressa um café, mas bem quentinho, pois estou morrendo de frio!

—De onde vens em tal estado? Diz a pulga Beatriz, vendo a amiga numa tremedeira como nunca vista.

—-Olha, venho do cinema! Arranjei boleia (carona) no bigode de um homem e para meu azar o homem veio de mota! Apanhei tanto frio, tanto frio, que estou no estado que me vês.

—-Ó criatura de Deus – as pulgas também são criaturas de Deus – disse a pulga Beatriz: Quando voltares ao cinema, tenta arranjar boleia nas cuecas (calcinhas) duma moça nova, e verás que vens ali tão quentinha, que até vais pensar que estás no Paraíso.

—Obrigado amiga, é isso que vou tentar fazer – disse a pulga Belmira saindo porta fora!

Mas passados dias e para espanto da pulga Beatriz, a pulga Belmira voltou ali, tremendo ainda mais que na outra vez. Abeirou-se do balcão e com tremeliques na fala, pediu para a amiga:

—-Depressa, por favor, serve-me um café bem quentinho, pois venho com tanto frio que mal me seguro de pé!

—-De onde vens novamente num estado desses? – disse a pulga Beatriz por detrás do seu balcão.

—-Olha, venho do cinema!

—-Do cinema?! Oh criatura de Deus, dos anjos e arcanjos, tu esqueceste o conselho que te dei? Que quando voltasses ao cinema que arranjasses boleia nas cuecas duma moça nova e que estarias lá mais quentinha que os anjos no Paraíso?!

—-Não, não me esqueci e foi o que eu fiz, mas o meu problema começou aí. Ao terminar a sessão, corri para a porta e ao ver passar uma moça nova e muito bonita, zás, trepei (subi) pelas suas pernas e arranjei um cantinho dentro das suas cuecas, e tudo o que disseste, era rigorosamente verdade: Sentia-me lá tão quentinha, tão quentinha que adormeci. O pior veio depois!

—-Que aconteceu – pergunta a pulga Beatriz?

—-Quando acordei, vinha novamente no bigode do homem da mota!

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