No Badalar dos Sinos

 

 

 

 

(Presidente Prudente – SP)

Olhando para a taça quase vazia pediu ao barman outro drinque.

Voltado para o interior do bar, sentado sobre uma cadeira alta, corpo inclinado à beira do balcão não desviava o olhar para lado algum a não ser para a vistosa bebida. Aguardava imóvel o preparo de mais um coquetel pedido enquanto o barista exibia habilidade e destreza com a taça, provando a sua perícia com chacoalhadas para o alto e para o baixo, movimentando o liquido colorido, espumante, tentador, contido no copo de cristal. Nos fundos um cantador da noite exibia sua voz melodiosa – para ninguém – dedilhando as cordas do seu violão e procurando tornar o ambiente o mais agradável possível. Bryan soltara a gravata e seu terno de grife, já amassado, não demonstrava o alinho costumeiro. O salário, nada modesto, recebido naquele dia ainda estava alojado em sua carteira num dos bolsos da calça, esperando para ser trocado de mãos – pelo menos uma boa parcela – com o caixa do estabelecimento.

Sempre assim ultimamente. Dia de recebimento mensal Bryan, levado por um táxi, seguia direto para qualquer barzinho da cidade, desacompanhado, disposto a se embriagar até não mais poder. Sempre a sós, pois esse modo foi iniciado há anos e motivado por um amor surgido das profundezas do apego por uma mulher que não mereceu seu coração, sua idolatria. Acreditava que o verdadeiro remédio para esquecer amarguras era o álcool. Juras de não mais se envolver amorosamente encontrou guarida nas consequências da embriagues, por enquanto esporádicas.

Dedos sedosos, macios alisando seus cabelos sem sair da altura da nuca, foram sentidos por Bryan. Dedilhavam delicadamente os caracóis formados atrás, na base da cabeça. Podia sentir a mão espalmada conter alguns fios rebeldes e tornar a enrolar aqueles insurgentes, num toque delicado. Unhas suaves comichavam as raízes carinhosamente, sem abandonar a região.

− Dedos de badalos − exclamou Bryan sem se mexer.

− Os grandes templos têm seus sinos ou gongos repicados, a fim de serem ouvidos dentro das muralhas da intimidade dos seus fiéis e são badalados por mãos possuidoras de dedos especiais – respondeu a dona de uma voz meiga, carinhosa.

− Mas o bimbalhar de sinos também é anunciador de alegrias e tristezas… – replicou Bryan sem se virar.

− Não é bem assim. Paulo Coelho escreveu em seu “O Manual do Guerreiro da Luz” mostrando como os guerreiros da luz se alimentam de pequenas tristezas ou alguns percalços para criar uma grande vitória. Pense, abatido jovem, que um guerreiro da luz não se entrega com facilidade por motivo de uma derrota − contrapôs a meiga voz.

Colocou o drinque sobre o balcão e chacoalhou a cabeça como para expulsar pensamentos invasores, buliçosos, que vinham tentar dominá-lo. Impressionado pelo diálogo, pelas respostas astutas, Bryan lentamente se virou e deparou com uma bela mulher, elegantemente vestida, lindos olhos castanhos e boca bem torneada discretamente pintada, com um sorriso meigo que, mantendo a atitude de acariciar seus cabelos, o saudou graciosamente:

− Olá!

Emudeceram por longos minutos. Fitavam um ao outro sem pronunciar palavras. Só os dedos femininos tocavam os cabelos masculinos, agora a duas mãos. Oferecendo um drinque à moça e quase sussurrando perguntou como é seu nome.

− Yasmin – respondeu a garota.

− Yasmin das mãos de sino, dos dedos de badalos! – exclamou Bryan visivelmente perturbado, mas continuou − seus dedos carinhosos me fizeram voltar aos tempos de criança em uma urbe interiorana, quando eu subia aos altos da torre da igreja para apreciar o tocar dos sinos por uma das moças da cidade. O movimento pesado era patrocinado pelo velho sacristão puxando as cordas grosseiras, porém a batida dos pêndulos em cada sino era ordenada pelos dedos da bela jovem, produzindo notas musicais com sons desde os muito graves até os muito agudos. Daí ecoava uma melodia delicada e penetrante que faz, ainda, lembrar toda a forma de ternura, despertar saudades, exprimir a inocência e marcar a distância física ou temporal. A música ao se espalhar no ar produzia uma harmonia suave, bela e inesquecível. É como, até hoje, ouvir de um coração de ferro fundido as vozes de um coração humano!

Com o silencio do homem a moça pediu:

− Continue a falar, você fala tão lindo!

− Esses momentos se foram há tanto tempo e voltam agora, repentinamente trazidos pelas suas mãos de sino, pelos seus dedos de badalo. Lembram todas as formas de ternura vividas na minha infância. Dizem que quando um sino toca, um anjo vai para o céu. Permita-me agora silenciar todos os sinos do mundo para que mãos de anjo com dedos de badalo, como as suas, não se percam de mim!

E completou, passando-lhe a taça de um drinque anteriormente pedido:

− Agora fale um pouco de você!

− Não há muito o que dizer. Venho de uma família modesta, estudei por conta de meus esforços trabalhando para custear os estudos. Sou formada em engenharia civil e trabalho numa famosa construtora nesta cidade grande. Sou divorciada, livre e sozinha. Se encontrar alguém que me faça feliz estou disposta a compartilhar essa felicidade a dois.

Olhos nos olhos e um beijo na boca selaram o início de uma amizade, talvez um romance, quiçá uma vida com quem dividir um apartamento até então solitário. Animado, refletindo, concluiu: a nossa existência é surpreendente com seus acontecimentos inesperados.

O álcool era consumido sem tréguas, projetando na atmosfera situação prevendo um período repleto de felicidade, preparando o espírito para novos tempos. A noite correu célere, amanhecia e o bar já tinha suas portas cerradas, suas mesas e cadeiras amontoadas, o violão silencioso e um garçom agora mal-humorado pedindo para se retirarem, pois a conta já estava fechada. A mulher pediu licença para ir ao toalete, seguindo a passos firmes o indicador do reservado e o homem, cambaleando dirigiu-se ao caixa para pagar as despesas da noitada. Procurou a carteira contendo todo seu dinheiro, cartões e documentos. Apalpou e revirou os bolsos, obstinadamente, e nada, nada encontrou.

Ficou, inutilmente, à espera da companheira que não voltou. Sumiu!

Seu relógio de valor considerável não foi suficiente para garantir o pagamento futuro do consumo daquela noite. Seu par de sapatos e seu cinto confeccionados com pelica italiana, feitos sob medida, conjunto caríssimo, compuseram o valor da penhora compulsória e imediata apreensão improvisada pelo estabelecimento. Os dois leões-de-chácara mal-encarados levaram-no até a porta e com um empurrão violento jogaram o beberrão, descalço, no meio da rua!

Continuou passo a passo, ziguezagueando, segurando as calças com as mãos, pés inchados e feridos pelas pedras do caminho até chegar ao apartamento, ainda solitário.

 

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