Nas Sombras de Gigantes

Douglas Barres

(Porto Alegre – RS)

terra gigantes 2A subida na montanha tomada pela neve foi sofrida. O Mago com mochila remendada nas costas, cabelos amarrados e roupa de frio feita com pele de urso, tentava recuperar o fôlego. Seu familiar, um lobo das montanhas, acompanhava cada passo de seu aliado. A montanha encontrava finalmente uma pausa nas escaladas para assim a dupla encontrar, na montanha mais a frente, um esqueleto cem vezes maior que o Elfo. A espada cravada entre os ossos do ser descomunal era ainda mais assustadora quando se falava de tamanho. Só que tamanha visão não espantou a dupla, era bem normal de ser encontrada em todo Plano Terreno.

Os gigantes cravaram uma luta que durou séculos. Desceram de seus palácios nas nuvens para brigar em solo dos minúsculos, como eles mesmos chamavam os seres que habitavam abaixo deles. Nunca traga sangue para onde vive, seria o lema deles.

Do sangue de tais seres que adentrou o solo sem piedade, nasceu plantas nunca antes vistas. Além de feias como Harpias sem asas, ganharam vida. Aos poucos comiam as plantações ao redor e cresciam, ficando gigantes com o passar do tempo a cada novo alimento que digeriam. Com suas formas variadas, atrariam monstros e animais variados, fazendo que depois das montanhas geladas um campo inteiro fosse habitado por plantas carnivôras sedentas por sangue, qualquer que fosse.

A dupla, sabendo o que enfrentaria, soube se preparar com êxito. O lobo foi equipado com uma armadura resistência porém leve, forjada pelos Anões do Sul, conhecidos por criarem armaduras de pele muito resistentes. O Elfo tirou de seu roupão azul várias poções, cada uma com uma vantagem diferente. A azul era conhecida por aumentar dez vezes mais o vigor. A verde para adrenalina. A amarela como cerveja, porque ninguém é de ferro.

Seguindo seus instintos, o Lobo partiu em direção ao campo aberto preenchido somente por criaturas grotescas. Assim que pressentiram ameaça, as mesmas entraram em modo de ataque, seja abrindo suas enormes bocas ou preparando seus espinhos. O Lupino, conhecido como o Mais Rápido do Norte, conseguia passar por todas rapidamente, como se bailasse em alta velocidade enquanto o Elfo invocava os espíritos da noite com sua magia negra. Assim que soldados mortos apareceram para somar a dupla, o mago entrou na batalha enquanto disparava bolas de fogo nas criaturas que queimavam facilmente.

A batalha foi fácil demais, pensou o Elfo. Estranho para descendentes de sangue dos Gigantes, que um dia já foram considerados os mais temidos de todos os tempos. Tanto que a única forma de ver tais seres mortos foi quando os mesmos começaram uma guerra entre seu povo. Traição, luxúria e ganância sempre vai existir, não importa o quanto demore ou a raça que seja. E sempre que aparecer vai surgir a guerra. Ainda é possível presenciar sinais da mesma ao explorar o ainda desconhecido mundo que as criaturinhas habitam – seres que não são gigantes.

Cuidando para não pisar nas plantas mortas, a dupla atravessa o campo de batalha enquanto o mago toca em sua flauta. Além de ter conhecimentos de Magia Arcana e Magia Negra, tem um pouco de conhecimentos de Bardos, Magia Barda, como gosta de chamar. A música da flauta ajuda a desacelerar os corações nas redondezas, trazendo paz para os aflitos que presenciaram tamanha matança. Mesmo sendo Plantas carnívoras que comeriam qualquer um que passasse por ali, segundo o Mago, todos os seres merecem ser respeitados e matar não é algo tranquilo de se fazer. Envolve muito sacrifício, seja da parte de quem morre ou de quem mata.

Não muito longe, um vilarejo iluminava a noite nublada. O fogo, originado das mãos de um jovem futuro mago, destruía casas e tirava vidas. Os rebanhos eram libertados como último sopro de vida dos camponeses. As crianças que sobreviveriam precisariam daquele rebanho para continuar com vida. Depois de tanta morte e cheiro de carne queimada, a dupla presenciava o que Magos poderiam fazer se não fossem controlados desde criança.

Magos nascem com o dom da Magia. O Condado manda exploradores para todos os cantos do mundo para capturar crianças com o dom antes que aconteçam desastres como o que acontecia noite anterior. Como o Mundo ainda é pouco conhecido pelos habitantes não Gigantes, evitar catástrofes cometidas por Magos sem experiência é uma tarefa quase impossível.  A sorte tem de estar sempre ao lado do Condado.

Dois dias depois, no fim dos rastros dos sobreviventes, O Mais Rápido do Norte não conseguia sentir mais o odor de Magia que emanava do jovem incendiário. Dentro da caverna, lugar onde os rastros se extinguiram, a dupla deslumbrada pelos desenhos antigos nas paredes, não havia prestado atenção no canto escuro que adormecia um Troll de barriga cheia.

As escrituras, criados com alguma Magia desconhecida propriamente para registros, contavam a história por trás dos Gigantes e sua guerra. Nada que já não estava registrado nas bibliotecas do Condado, só que tudo tem variações e cada povo tem sua versão. Essa contava que um ser, desconhecido e temido por todos, traduzido como Demônio, fez a cabeça do Gigante Rei dos Quatro Cantos, traduzido como Continentes, para que o mesmo transformasse o Mundo Plano das Nuvens e Terreno em um só. Cego por ambição e riqueza, o Gigante assim o fez. Os que não foram com a ideia lutaram. A Guerra aconteceu nos dois planos e terminou com a extinção do povo Plano de Cima, traduzido como Plano das Nuvens.

O Trolls dificilmente atacarão sem estarem com fome, por isso resolveu fugir na calada enquanto a dupla observava as escrituras. Para seu azar, era gordo, enorme e barulhento. O Lobo estava com seus instintos em alerta e não bastou muito para correr em direção ao monstro e arrancar uma perna com a mordida. O urro de dor nunca ouvido antes ecoava pela caverna. Não tendo paciência e sem querer que sua cabeça explodisse com tanto barulho, o Elfo resolve a situação congelando a criatura que saia de sua mão esquerda, enquanto a mão direita gerava uma pressão em forma de Magia dentro do corpo do monstro para que o mesmo explodisse. O lugar não foi tomado por sangue pelo fato do Troll estar congelado, ficando em pedaços dentro do gelo que tomava todo seu corpo. Através da estrutura transparente a dupla presenciou a natureza de sua forma mais brutal: todas crianças e o próprio jovem Mago mortos dentro do Troll.

A missão da dupla estava completa. Com a morte do jovem Mago, os dois partem então em busca de outros. Em um mundo inóspito vale tudo para sobreviver, até se encrencar ainda mais para encontrar aspirantes a Magos para então vendê-los ao Condado.

Com o sol caindo no horizonte e gritos de Harpias acima das montanhas, uma aventura da nossa dupla termina de forma horrenda, mas normal para quem vive e sobrevive nos dias de hoje. E outra começa.

2 thoughts to “Nas Sombras de Gigantes”

  1. O conto agrada pelo desdobramento envolvendo situações fantásticas. Prende a atenção do leitor e valoriza o inusitado, mas termina (?) com a sensação de que vamos ter de esperar a sequencia, o que não me satisfez nesse quesito.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *