Nadine n 104

 

 

 

 

(Salvador – BA)

Nadine conseguiu.

A lâmina, na sala de testes no laboratório sem nome…. Aquele laboratório plástico e cercado de vozes que vinham de caixinhas de som… e luzes que piscavam de botões por toda parte, que lhe causavam vertigens, pifaram – simples assim – bem rente ao seu pescoço.

Mas antes disso a lâmina tentara ainda uma vez, e Nadine se pendurou numa corda até o máximo que podia. Talvez fosse esse o teste; ficar ali pendurada por um tempo estabelecido. Mas a lamina chegou e lhe cortou o braço esquerdo. E quando Nadine emitiu o grito de dor – alto e agudo – ela mesma se assustou, pois não conhecia a própria voz e assustou-se com ela. Não sabia o que era um grito e não sabia o que era a dor.

E então, na segunda vez que a lamina surgiu e correu em sua direção até o seu pescoço, naqueles poucos segundos, ela soube que tudo ia acabar. “Tudo”, que na verdade não era absolutamente nada. Mas um milagre aconteceu. E a lâmina simplesmente emitiu um ruído esquisito. Soltou fagulhas, um barulho de coisa quebrando veio das paredes e ela finalmente parou, RENTE ao pescoço. E Nadine não sabia o quanto era sortuda, pois não sabia o que era sorte.

Correu até a porta, e não havia dúvidas ou escolha, porque era a única. E ao abrir havia uma escada muito longa que dava em outra porta. E ao sair por aquela porta ela estava numa rua escura e pouquíssimos carros passavam. Haviam algumas mulheres ali, elas tinham a aparência diferente de Nadine. Suas vestes eram extremamente apertadas, sendo muitas vezes, até transparentes e seus corpos apareciam. Era diferente da roupa látex branco que revestia todo o corpo de Nadine, dos pés até o pescoço.

Algumas começaram a rir e acenar para alguns automóveis que passavam reduzindo a velocidade. Mas nenhum parou e elas puseram-se a manusear algo com os dedos e os lábios e aquilo era muito estranho pois soltava fumaça. Nadine sentia que conhecia tudo… tudo o que via.

E chegou a desejar o cigarro, mesmo sem fazer ideia do que era. E até mesmo sentiu vontade de tocar os corpos daquelas moças. De repente uma delas a notou e fez uma cara confusa. Nadine sentiu um medo terrível de que ela resolvesse se aproximar. Mas a mulher apenas passou a encará-la com curiosidade e um sorriso desconfiado no rosto. De repente um carro chegou.

Era um carro preto e os seus vidros também eram totalmente negros. As mulheres não gostaram daquilo e em vez de se aproximarem como abelhas em mel, como normalmente o faziam, se afastaram e ficaram unidas num pequeno beco, encolhidas e preocupadas.

Um dos vidros se abaixou e um homem de óculos escuros e roupas também escuras, acenou para Nadine. Mas Nadine se encolheu encostada num poste, sem mesmo saber de onde vinha aquele medo feroz que crescia diante daquela pessoa. O homem deu um suspiro entediado ao ver que Nadine não se aproximava… fechou-se novamente no carro e começou a cantar os pneus, com fúria. O barulho era ensurdecedor. Neste momento todas as putas sumiram. Menos uma. Menos aquela que tanto encarava Nadine.

A fumaça subiu e um cheiro de borracha queimando, junto ao barulho do motor tomaram conta de toda rua. Assim como no momento da chegada da primeira lâmina, Nadine não fazia a menor ideia do que estava por vir. Mas a puta sabia.

E então quando finalmente ele acelerou e voou em cima de sua cobaia fugitiva, a mulher sem nome atirou-se em cima do carro, rolando por cima e indo parar bem longe. Nadine gritou pela segunda vez em sua vida e correu pela segunda vez também. Correu sem parar por várias horas a se perder vista.

O homem saiu do carro e andou vagarosamente em direção ao corpo da mulher que morreu. Parou ao seu lado, tirou os óculos, mostrando seus olhos que também eram totalmente negros, e os coçou, novamente suspirando com muita tristeza e um tanto de tédio.

– É deste tipo que precisamos. – Ele disse sorrindo.

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