Multidões, Ruídos e Solidão…

assin-marisa-costa

 

 

 

 

(São Paulo – SP)

multidaoDesde que o marido morrera de repente, Manuela se viu terrivelmente sozinha na metrópole fria e indiferente. Sua única filha morava noutro país e, se não fosse o seu trabalho, sabia não o que seria dela. Provavelmente, teria dado cabo da própria vida.

Debruçada nas lembranças, na raiva, na solidão, cem horas tinha sua noite, assim como a cidade que nunca dormia.

Olhos grudados no teto, sombras pendendo da parede feito quadros, assombravam-na, proposital, inexoravelmente.

No espelho, a realidade de si mesma: sensações, vivências, soluços. Solidão que é medo.

Geme baixinho o grito que tem preso na garganta. Quer aliviar a dor no peito, mas ela só dói. Dói no corpo, dói na alma.

E não passa. Antes, se agiganta, fica enorme. Aí, começa a roer devagarzinho. Sem dó, sem piedade vai torturando-a, sorridente, mansamente.

Olhos repentinamente brilhantes, Manuela dá o primeiro passo para dar um basta naquele sofrer. Uma morte, um abandono não podiam ser maiores que o amor que devotava a si mesma, pensou. Vestida de coragem sai correndo pra rua, chorando e gritando:

“Estou só. Alguém aí tem pra me dar uma palavra de carinho? Quiçá um abraço amigo”?

O silêncio responde. Ninguém aparece pra lhe estender a mão. Seu olhar perde o brilho, repentina esperança se cobre com o véu da melancolia. Está absolutamente solitária no meio de multidões e de ruídos.

“Louca, sua louca!” ─ ela se condena, arrependida do ato intempestivo. Volta para casa encolhida feito um inerme. .

Amanhã, véspera de Natal, seu desespero tomaria proporcões maiores ainda. Nem abraço amigo, nem rosa, nem amor. Só o abandono regado a solidão.

Talvez chorasse, depois, dormisse finalmente.

cometario

 

4 thoughts to “Multidões, Ruídos e Solidão…”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *