Missão Cumprida

 

 

 

 

(Itabi – SE) 

Linda era uma garota de 17 anos. Sim, era. Viveu durante esplêndidos dezessete anos. Ah, como ela soube viver, era apaixonada pela vida. Nada e nem ninguém podiam lhe tirar o prazer de acordar com um luminoso sorriso em seu rosto.

Infelizmente, de vez em quando, a natureza se encarrega de colocar um ponto final, mesmo que pareça ser injusta. Sim, a vida não é justa. Não para todos. E foi em uma dessas cruéis injustiças que Linda caiu. Uma jovem ativa, inteligente, esperta, amabilíssima, merecia um pouco mais. Mas sua partida não foi em vão, como sempre, Linda contribuiu para a vida, pela última vez…

Exatamente às 07:00 horas da manhã de uma segunda ensolarada, Linda acordou. E acordou tal qual é o seu nome, linda, entusiasmada, afinal era um dia muito importante para ela. Ali estava fechando mais um ciclo, o do ensino médio. E a tão esperada formatura, que vinha planejando por oito meses. Levantou-se da cama e a primeira coisa que fez foi verificar se o seu vestido estava do jeito que tinha deixado antes de ir dormir, não via a hora de colocá-lo e ir comemorar com seus amigos.

Desceu as escadas.

– Bom dia mãe. E a abraçou, com repetidos beijos em sua bochecha. Sentiu a necessidade de sentir sua mãe por completo, não queria soltá-la.

– Querida vai se atrasar para a escola, hoje é o último dia, mais tarde a tão aguardada formatura

– Por favor mãe, faz muito tempo que eu não sinto seu calor sobre o meu corpo. Te amo muito. Depois da escola vou pra casa da Letícia, iremos nos arrumar lá. Te vejo no salão de festas. Te amo!

E saiu, estava um dia lindo, em hipótese alguma poderia acontecer algo de ruim. No meio do caminho para a escola, avistou uma moça que aparentava ter sua idade com uma criança em seus braços, pedindo esmolas. A criança estava em fraldas, muito magrinha, com algumas feridas pelo o corpo. E decidiu que deveria parar e prestar ajuda. Ao chegar mais perto algo lhe chamou a atenção.

– Oi, eu te conheço?

– Como não, sou eu. Celina. Estudamos juntas o primeiro ano.

– O que houve com você? E essa criança? Você sumiu.

– Logo quando as férias chegaram, descobri que estava grávida. Escondi o máximo que eu pude do meu pai, mas ele descobriu e me expulsou de casa. Fui a procura do pai da criança mas ele não quis, nem a mim e nem ao meu filho. Desde então vivo de pensão em pensão, não consegui pagar o mês passado e tive que sair de lá. Eu sei que fiz muitas escolhas ruins nessa vida, mas não me arrependo de ter tido meu filho, sabe. O amo mais que tudo nessa vida. E você como está?

Linda ficou atônita, não sabia o que dizer.

– Estou bem. Poxa…

– Não precisa ficar assim, sério. Só peço que ajude o meu bebê, vê-lo assim é como a morte para mim.

Sentaram no banco da praça, ficaram conversando por quase duas horas. E Linda a todo instante tentando pensar em alguma coisa que pudesse fazer para ajudá-la.

– Já sei. Minha madrinha está precisando de uma empregada doméstica, tipo ela tem muitas condições financeiras, você poderia trabalhar lá e deixar seu filho em uma creche. Ela é uma senhora, viúva, os filhos moram longe, tenho certeza que ela te ajudaria. E sem contar que você seria uma companhia para ela.

– Você acha?

– Claro, podemos ir lá agora.

De repente o celular tocou. E uma voz muito estressada e nervosa falou através do telefone

– Linda, cadê você? Só falta tu aqui, todo mundo está te esperando para as despedidas. Não acredito que você não vem.

– Calma Letícia, estou tratando de um assunto muito sério. Não posso ir.

– Não, você tem que vir agora. Poxa, último dia, não faz isso comigo amiga. Preciso de você.

E o celular desligou.

– Realmente preciso ir agora, você me entende, último dia de aula. Mas vou te dá o endereço da minha madrinha. Quando você chegar lá diga que foi a Linda que te mandou. Ok? Depois passo lá pra saber o que aconteceu. Boa sorte.

– Muito obrigada, lembrarei de tudo o que você está fazendo por mim e pelo o meu filho.

Correu, correu muito. Mas chegou atrasada, todos haviam ido embora. Preciso me arrumar, pensou ela. E correu mais ainda, porém não olhou para os lados quando foi atravessar a rua, e um carro a atropelou.

– Alguém chama uma ambulância.

Não conseguia mais pensar, tudo foi parando. Sua visão, audição foram escasseando aos poucos. Até que tudo parou. Traumatismo craniano, a pancada em sua cabeça foi muito forte.

A ambulância chegou, mas já era tarde. Linda morreu. Morreu antes de usar seu vestido azul, com rendas florais na tão aguardada festa de formatura. Morreu sem conseguir se despedir dos seus colegas. Morreu depois de dar esperança a uma mãe desesperada. Morreu com o coração puro e com sentimento de missão cumprida. Morreu, morreu…

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