Meu Eterno Começo

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(Salvador – BA)

penhascoAntes de Clarice se suicidar, ela fez um pedido. Como quando atiramos uma moeda num poço. Só que atirando a si mesma, num grande penhasco. Eu sabia que tinha estragado tudo e que era difícil pra ela se reerguer e pensar no fator de cura do tempo… essas coisas que as mensagens de e-mails sempre nos dizem. Mas, nesse caso é verdade. O tempo cura qualquer coisa.

Nada vinha em minha cabeça que pudesse convencê-la de não se jogar e o penhasco parecia um imã que a puxava mais e mais e ela dava passos curtos, ainda um pouco indecisa.

– Pense em nosso começo, baby… – Eu disse com uma voz trêmula, num timbre que parecia uma criança assustada. – Tivemos um incrível inicio!

Ela deu um passo pra trás e me olhou nos olhos. Havia tanto ódio naquele olhar que senti como se o mesmo sugasse minhas forças. Ajoelhei no chão, em prantos e com as duas mãos esticadas como que tateando o vento, numa tentativa de agarrá-la em meus braços.

E foi naquele segundo, pouco antes de abraçar a escuridão do penhasco – que de tão alto não se podia saber se o corpo tinha encontrado o chão – que Clarice me rogou a maldição.

– E QUE VOCÊ VIVA PRA SEMPRE O COMEÇO! – E então seu corpo caiu e desapareceu na escuridão da neblina.

Hoje estou aqui, um grande dia me aguarda… só que é o mesmo dia, há dias! Sento-me em frente ao computador com uma ideia magnífica de um romance que preciso escrever e mandar pro meu editor. Tenho certeza que é a história da minha vida. Mas tudo o que consigo, todas as vezes, é o primeiro capítulo.

– Não foi um sonho… todas as vezes… foram reais. Vai acontecer de novo… – Me desespero.

Saio de casa…  São quase dez da manhã…

Já tentei a padaria, Mac Donald’s, um cafezinho, sorvete, torta… tento fazer tudo diferente. Tudo que me possa sair deste programa e esquecer Clarice.

Cabulei o trabalho no jornal. Nem vão sentir minha falta. Sou apenas um carinha que escreve textos sobre filmes em cartaz e hoje é sábado… não há filmes em cartaz. O que tenho de importante são meus livros e não escrevo nada há seis anos. Fazer Clarice infeliz parecia ser minha ocupação. Era uma coisa em que eu era realmente muito bom.

Todos os dias, ao chegar à noite, eu tentava procurar um lugar diferente pra passar a tarde. Até que me esbarrei num bordel e lá conheci Eddy.

Eddy era uma puta morena, com tinta vermelha no cabelos lisos de chapinha e apesar de já ter olhos cor de caramelo, claros e lindos, normalmente usava lentes de contato azuis. Sempre que chego lá – para conhecê-la, todas as vezes – pergunto porque ela prefere o azul de mentira ao caramelo de seus olhos e sempre ela me responde da mesma forma:

– Aqui a gente tem que atuar, que-ri-do. – Ela diz enquanto puxa meu colarinho, me levando para o seu quarto fedido, com sua cama redonda e bem forrada. Ao lado da cama apenas um criado mudo com uma gaveta com algum dinheiro, para passar troco.

Sempre que terminamos, ela não se levanta apressada, querendo ser paga, já pensando em se banhar e estar limpa para um novo cliente… Eddy permanece deitada ao meu lado, me olhando, quase sem piscar. Ela sorri. Eu estou ofegante e confuso. Aquela confusão de quem está esquecendo um velho amor (que na verdade foi ontem) E colocando um novo, bem ali, naquele lugar vazio, no peito. É prostituta… E daí? Ontem eu ERA um canalha, hoje já não sou mais. Sou apenas um homem tentando se livrar de uma maldição. A maldição de viver o eterno começo. O início de uma grande ideia, o início de um grande amor.

– Você tem sempre esse olhar… – Ela disse.

– hã? – Balbuciei, imerso em minhas preocupações.

– Parece que você já me conhece… – Ela diz… – E eu conto rapidamente minha história e ela pensa que estou brincando e ri e eu acho ela linda, e linda, e linda…

Sorri com ternura, acariciando seu rosto.

– Cheio de ideias! Deve ser porque tu é escrevinhador!

Eu dou uma boa risada e acaricio seu queixo.

– Olha que com carinho sai mais caro… – Brinca Eddy, agora pegando minha mão e acariciando a pá do seu rosto moreno. Ela é a mais doce de todas as criaturas.

Mas em meu pensamento escuto a voz de Clarice rindo numa risada insana e cheia de eco por todos os lados. Uma risada cheia de sarcasmo, que diz: “já anoiteceu e amanhã começa tudo de novo… do começo! ”. Meus pelos eriçaram. Fiquei inquieto. Eddy me olha confusa, mas despreocupada.

Eddy teve que atender outro cliente e estou sozinho no bordel. É um sujeito gordinho, cabelo bem raspado e um olhar desorientado. Parece louco. Do tipo “virgem de 40 anos”. Eddy dança em seu colo tirando a parte de cima da roupa e esfregando os seios em sua cara. Mas olha o tempo inteiro pra mim, sentado na poltrona da frente. Ela gargalha com ironia, olha pra ele e depois olhava pra mim com um ar de quem diz: “eu mereço esse cara?!”. Me levantei dando risada e fazendo sinal com o copo de uísque, como que brindando a ela.

Ganhei a rua e saio agora andando sem rumo… apenas esperando a chegada da meia noite. Não, não vou tentar suicídio… apenas vou andar e andar e andar… E então despertarei novamente no dia seguinte à morte da malvada, terrível, linda e maravilhosa Clarice, que fiz tanto sofrer. E ela vai me dar uma grande nova ideia… e um grande novo amor… só pra mostrar como ela REALMENTE PENSA a respeito do “começo das coisas”.

2 comentários em “Meu Eterno Começo

  1. Um verdadeiro conto. É como, ao final, ouçamos as manifestações do autor seguindo as vozes da imaginação (!) fervendo em seu cérebro e surge a pergunta, a dúvida: verdade ou mentira? Parabéns Henrique.

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