Meras Coincidências?…

 

 

 

 

(São Paulo – SP)

João Paulo nunca deu importância para o horóscopo. Para ele, portanto, ter nascido sob o signo de capricórnio, com ascendente em peixes, jamais influiu no seu bom humor ou pesou nas decisões que teria que tomar.

Sua mãe, pelo contrário, não se atrevia a dar um passo para fora de casa sem antes consultar as previsões do jornal. Aliás, dizia com orgulho, a união de mais de trinta anos só deu certo porque além do seu signo combinar com o do seu finado marido, no dia em que ouviu o tão esperado pedido, os conselhos do zodíaco eram mais que favoráveis.

E como toda a mãe quer o melhor para seu filho, D. Marta não só tratou de mandar fazer um mapa astrológico de sua futura nora, e cujos resultados muito a alegraram, como também passou a ler com redobrada atenção o que os signos de seus entes mais queridos queriam dizer, pois João Paulo confessara que em breve pediria Raquel em casamento.

Em uma dada manhã, quando lia a coluna esotérica, D. Marta estremeceu. É que os planetas envolvidos não estimulavam nenhuma união matrimonial. Daí que, se neste dia, seu filho fosse pedir Raquel em casamento, por certo que ambos jamais seriam felizes! Portanto, o que restava à desvelada mãe era torcer para que mais uns dias se passassem sem que o anúncio fosse feito.

Mas D. Marta não se limitou a torcer. Para garantir a felicidade dos que mais amava, tratou de ligar para o filho e relatou o que os astros não aconselhavam.

E com toda a paciência deste mundo, João Paulo agradeceu o aviso recebido, e prometeu pedir a mão de Raquel só na semana seguinte, o que, segundo ele, daria tempo suficiente aos planetas para que mudassem de opinião.

  1. Marta aborreceu-se com o pouco-caso, mas a resposta do filho a acalmou. Afinal, era preferível o desdém ao pedido de casamento.

A verdade, porém, é que João Paulo não tinha a menor vontade de esperar a semana vindoura; tanto que já tinha arquitetado como pediria a mão de Raquel.

Sexta-feira enfim chegou. E se o espírito do happy hour já envolvia Raquel, a João Paulo caberia aquele quê da surpresa…

Agindo como de costume, João Paulo dirigiu em direção ao barzinho preferido do casal. No entanto, não parou no endereço, seguindo confiante e sem dizer palavra.

É claro que Raquel estranhou e perguntou por que não tinham parado. A resposta não tardou, mas se fez sob a forma de um olhar provocador. Diante dessa “confissão”, a imaginação da moça alçou um voo estimulante, e ela retribuiu com aquele sorriso que tanto cativava o namorado.

No entanto, Raquel novamente se admirou quando o carro parou em frente a um refinado restaurante.

É fato que a ideia não primava pela originalidade, mas João Paulo tinha certeza de que Raquel ficaria encantada.

Horas antes, João Paulo entregara um lindo solitário ao maître desse restaurante, e que deveria ser colocado em cima da sobremesa que Raquel escolhesse. Assim, somente no final do jantar é que faria o pedido, sendo certo que ela choraria de alegria ao descobrir a joia.

O ambiente requintado, a elegância que reinava, o aroma das iguarias… tudo se somava a uma inesquecível declaração de amor.

As entradas e os pratos principais foram escolhidos sob a orientação do maître, sendo que seu cúmplice não se esqueceu de piscar ao se retirar, declarando, assim, que tudo caminhava a contento. O sommelier, por sua vez, sugeriu um vinho de uma safra invejável, cujo buquê transcendia a qualquer outro que já experimentaram.

Raquel ficou preocupada, pois, como não poderia deixar de ser, em seu cardápio não havia a indicação dos preços. João Paulo, contudo, a tranquilizou, deixando claro que a ocasião merecia. Ora, nem se precisaria dizer o que passou pela mente de Raquel… Mesmo assim, ela não deixou transparecer a dedução, e seguiu com o seu papel.

Um brinde foi feito, e as entradas, sorvidas delongadamente. Um início perfeito para um fim inesquecível! Até que vieram os pratos principais…

Sabe-se lá por qual razão, Raquel resolveu desmanchar aquele montinho de arroz com açafrão. Como recompensa, um fato impensável a um restaurante cinco estrelas acabou se revelando: Um comprido e repulsivo fio de cabelo ali jazia!

A reação da pobre moça até que foi moderada, pois, como era muito sensível, teve que se desdobrar para conseguir reunir as forças necessárias para não vomitar.

Que constrangedor… João Paulo estava atônito; Raquel, branca feito nácar; e o pobre do maître, um misto de estupefação e parvalhice.

Desculpas foram dadas e os pratos, retirados. O maître, então, sugeriu a Raquel que fizesse um outro pedido, garantindo que o jantar não seria cobrado. Nada como um profissional gabaritado, que sabe tratar a clientela e contornar o indesculpável.

Ora, com essa garantia, o casal não se fez de rogado. Mas como Raquel ainda estava indisposta, resolveu abrir mão do prato principal e partir para a sobremesa. Essa escolha fez acender os olhos de João Paulo e trouxe alívio ao maître.

João Paulo pediu morangos flambados, e Raquel, um suflê de chocolate. Essa última escolha, contudo, passou despercebida aos homens. Ora, a consistência da sobremesa seria suficiente para não deixar afundar o solitário?

Esse pormenor só foi percebido na hora em que próprio maître sobrepôs o anel ao suflê. De tão airado, a joia foi direto ao fundo, sendo que o pequeno buraco teve que ser tampado às pressas, por entre o desespero e o que restava de altivez.

As sobremesas chegaram, o maître desejou bom apetite, e, sem que Raquel percebesse, deixou claro a João Paulo que a surpresa estava dentro do suflê. E seria desnecessário dizer que os olhos de namorado se arregalaram.

Fosse como fosse, o melhor a fazer seria aguardar a descoberta. Assim, João Paulo comia devagar, ora fixando o rosto da namorada, ora o suflê.

Mas por força da experiência que acabara de passar, Raquel comia sem pressa, o que angustiava o apaixonado. No entanto, como o suflê estava divino, e a fome voltava a gritar, a jovem passou a fartas colheradas, o que mais e mais excitava João Paulo, que não via a hora que ela descobrisse a preciosidade.

Como Raquel comia com gosto, uma dada colherada teve a infelicidade de levar à sua boca não apenas o delicioso suflê, mas também o anel nele submerso. A consequência foi um engasgo tão inesperado, que a sufocação só não evoluiu para o óbito porque João Paulo agarrou a namorada por trás e pressionou repetidas vezes o seu diafragma, de modo a que ela cuspisse a joia a uma distância considerável.

Passado o espetáculo, com todos os clientes já tendo retornado às suas mesas, o aviso de D. Marta soou agudo à consciência de João Paulo. Assim, questionava-se, esses dois acontecimentos não teriam sido meras coincidências, mas, sim, estridentes maus agouros? Se ele insistisse em pedir a mão de Raquel, mesmo não mais havendo clima para isto, o casamento estaria fadado ao insucesso?

Essas e muitas outras perguntas apareceriam, não fosse um outro cliente vir devolver ao dono o anel que encontrara.

Esclarecido o plano, Raquel chorou, sim, de alegria – e também de ridículo –, e aceitou radiante o pedido de casamento. E a julgar pelos semblantes e aplausos de todos, os astros teriam pouca ou nenhuma influência no futuro do casal.

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