Mentiroso! 

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(Araranguá – SC)

laranjeiraToninho derramou todo o café sobre o moletom.  Uma esfera translúcida acabava de se materializar em seu jardim. A velha laranjeira, plantada por seu avô, pareceu não se importar com a ventania. As coisas ficaram ainda mais estranhas quando, de uma abertura invisível, duas pequenas figuras, de notável molejo, desceram. Toninho sacudiu as mãos, largou a xícara e se livrou do moletom. Limpou os óculos e retirou um celular do bolso. Não hesitou. Ninguém acreditaria em suas palavras. Uma foto, por outro lado, comprovaria tudo.

— Tem certeza que esse é o planeta certo, general?

— Estava nos registros de Barba Branca, milady.

— Então, o lendário tesouro de Lactis permanece escondido aqui?

— Com certeza, milady.

— Esse chão é macio. Veja!

Toninho saiu à varanda e continuou a fotografar. Aquelas estranhas criaturas, pulando sobre a grama recém-cortada, pareciam crianças em dia de chuva. A esfera desapareceu sob um manto de invisibilidade. Ensaiou uma aproximação.

— General… O que é essa coisa se aproximando?

— Deixa eu ver nos registros.

— General…

— Só um pouquinho. Ah, encontrei. O relato é muito vago. Menciona seres gigantes, com dois pares de tentáculos e olhos esbugalhados, de pele esponjosa. Mas não diz nada sobre seu comportamento. Por que a pergunta?

— Corre!

Para sua surpresa, puseram-se a fugir, subindo a velha laranjeira com notável habilidade. Passaram a emitir um som agudo. Toninho, ao perceber que estavam na defensiva, recuou. Colocou o celular em frente ao rosto.

— O que a criatura está fazendo, general?

— Uma tentativa de nos neutralizar… Eu acho.

Fez um sinal de vitória. O flash tornou a selfie perfeita.

— Ah! Meus olhos!

— Maldita criatura! Como se atreve…

O pequeno ser pulou sobre seus ombros, voltando ao esconderijo em seguida. Toninho gritou ao sentir o arranhão em suas costas. Mesmo assim, não desistiu. Encostou os lábios, juntou os dedos e passou a assoviar baixinho. Os instintos mais primitivos daquelas criaturas afloraram.

— O que é isso? Estou me sentindo atraída.

— Não se entregue, milady! É um encantamento, segundo os registros.

— Não posso mais resistir!

Toninho ouviu seus lamentos. Estavam perdidos, pelo visto. Com pena, foi correndo até em casa…

— Finalmente! Vá embora monstro da superfície!

… e trouxe um pires cheio de leite.

— Olhe! A criatura nos trouxe uma oferenda.

— Não é prudente aceitarmos, milady.

— Mas parece tão bom!

— A textura parece agradável. Não! Não posso ceder.

— Eu vou!

— Espere!

De forma cautelosa, desceu e se aproximou. Provou uma pequena parcela daquele líquido branco e viscoso.

— Isso aqui está… Cósmico! Venha, general! Prove!

— Não acho que… Nossa. Você tem razão! Realmente está de corar Andrômeda!

Toninho arriscou passar a mão no dorso das criaturas. Em um primeiro momento resistiram, mas estavam tão interessadas em sua oferta que nem perceberam a imprudência.

— Finalmente encontramos! O lendário tesouro de Lactis!

— Eu disse, milady. Um quadrante inteiro denominado “Via Láctea” só podia ser uma grande pista.

— Mas como vamos transportar a mercadoria?

— Tenho uma ideia.

— A técnica proibida?

— É.

— Espero que dê certo.

Enroscaram-se em suas pernas, ressonando de forma bastante agradável. Toninho pareceu cair em sua armadilha. O que não esperavam era serem agarrados de súbito.

— E agora, general?

— Como fomos capturados tão facilmente? Vou enviar a nave com um pedido de socorro.

— Que torturas horríveis nos aguardam… Será que Barba Branca pereceu assim?

— Peço perdão, milady. Devia saber que o lendário tesouro de Lactis era protegido por monstros da superfície.

A nave partiu, derrubando os frutos em sua trajetória. Toninho apertou os olhos, mas não largou seus novos amigos. Levou-os para dentro. Pensava apenas na foto que havia tirado. Uma gata branca e um gato rajado, descendo de uma nave espacial em seu jardim, em pleno Sol de primavera, com certeza lhe daria passe livre ao “Clube do Mistério”. Bolinha, Carrapato, Laurinha e Catarina teriam de engolir as suas palavras. Agora veriam quem era “mentiroso”…

Ainda mais se olhassem com atenção a foto, e notassem que, na testa de cada felino, havia uma forma discreta, mas bastante chamativa… Um terceiro olho.

2 thoughts to “Mentiroso! ”

  1. Uma mistura agradável de seres de outro planeta com terráqueos. Ilusão narrada com meiguiçe, fruto de uma imaginação fértil. Isso é o verdadeiro conto, uma estória ficticia, mentirosa, porém agradabilissiíma de se ler. Parabéns Brian!

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