Memórias

 

 

 

 

 

(Pelotas – RS)

Veridiana é uma mulher de baixa estatura, franzina, comedida nos movimentos e nas palavras. Não é de grandes prosas, roda de amigas, riso solto. Ao contrário. Tudo nela é escasso, comedido, controlado.

É de um tempo em que mulher não se desnuda, não ri alto, não sai sozinha com homem, não desobedece ao pai, mãe, marido. Talvez por isso não casou. Não queria só mudar de dono.

Reúne-se com as companheiras de habitação nas refeições, no horário de assistir televisão. Assunto só o habitual. Trivialidades sobre a refeição, o tempo ou o que assistem na televisão.

Não possuem afinidade, não revelam o passado-seus tesouros-, não desvendam intimidades, gostos, preferências. Não se deixam conhecer. Talvez desejem preservar em seu íntimo as lembranças de tempos memoráveis. Outras, sequer se reconhecem.

Se fosse revelar suas memórias, talvez não a compreendessem, poderiam achar que fantasiava ou julgá-la pedante, esnobe ou mentirosa. Também para que serviria contar o passado? Ali naquele local estavam em igualdade de condições. Sem família, sem afetos.

Vivia em seu minúsculo quartinho, com as paredes pintadas de branco, cama muito simples, fino colchão de espuma, um pequeno roupeiro que nem combinava com a cama, um criado-mudo, uma cadeira e uma pequena televisão que ganhara de um sobrinho neto que vinha visitá-la de ano em ano.

Sair só quando algumas pessoas de entidades assistenciais vinham de ônibus buscá-las para um evento especial, passeios geralmente proporcionados em épocas festivas, Páscoa, Dia das Mães, Natal.

Gostava de relembrar o passado. Fora feliz. Essas recordações lhe abasteciam nesta época de escassez, e não a deixavam sucumbir nesta vidinha pequena e sem graça.

Vivia no passado, quando os negócios do pai -um curtume- ainda era próspero e lhes proporcionava muito conforto e riqueza. Seu pai era rico, porém sem muita cultura, mas, era bom pai, bom esposo. Viviam felizes. A infância, adolescência e juventude foi desfrutada em meio ao conforto e segurança.

A mãe, de família tradicional, era uma pessoa requintada, elegante, culta e de notório poder que lhe era conferido pelo nome de família.

Viviam na zona do porto em um confortável palacete. Recebiam pessoas influentes da cidade, do estado, de outras regiões, e até políticos. Nessas reuniões seu pai costumava conquistar comerciantes indecisos que não resistiam ao bem receber da família.

No verão iam para a chácara que possuíam em Teodósio, onde se deliciava no imenso pomar, na sombra das frondosas figueiras, e no açude. Adorava ver o trem passar cheios de passageiros. Naquela época tudo era Pelotas. Emancipação sequer ouvira-se falar. Isso é coisa da política mais recente.

Sua mãe a ensinou tocar piano, a ler em nosso idioma e em Francês, a recitar versos, a cantar para alegria dos familiares e visitantes nos pequenos saraus familiares.

Gostava disso. Passavam horas agradáveis reunidos na confortável sala, em reunião íntima, ocasião em que saboreavam as deliciosas guloseimas preparadas pelas mulheres da família- sua mãe, ela, irmã e a avó- sempre auxiliadas pelas serviçais da casa que as acompanhavam desde que sua mãe era novinha.

Ainda sente o aroma dos licores, o sabor das bolachinhas amanteigadas, dos pastéis se Santa Clara, dos fios de ovos, dos bolos de laranja, chocolate, baunilha, dos doces de figo e pessegadas feitas com as frutas que vinham da chácara.

Há uns anos atrás ainda podia sair e passava em frente ao palacete no qual viveu toda sua vida. Ali estão guardados os melhores anos de sua vida.

Hoje, não anda mais só e nem sabe como ele está.

Quando os negócios de seu pai começaram a ruir e os credores a aumentar foram junto com o palacete, além dos bens materiais, o status, a tranqüilidade, a segurança, o conforto e a alegria. Esta sumiu com perda do pai que não resistiu ao golpe financeiro e da mãe que no ano seguinte morreu de tuberculose.

A última a abandoná-la, não por vontade própria foi Glorinha que fora criada junto com ela e a irmã, hoje também falecida e cujo filho mora em outra cidade.

Moraram juntas na pequena casa para onde se mudaram. Glorinha ficou enferma, com sequelas de um derrame que a acometeu. Não pode ser aceita onde ela está, asilo este que não aceita enfermos, só pessoas que não tenham perdido a autonomia física ou mental.

Hoje, vive das lembranças de um passado feliz, de uma época de grande esplendor que só uma parcela desta encantadora Princesa viveu e que hoje está envolta nas brumas do tempo.

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *