Medricas

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(Povoeiras – Tocha – Coimbra – PT)

medricas– Salta! Vá, vá não tenhas medo, vais ver que não custa nada…

– Não consigo! – Balbucia Zeferino, do alto.

Farto de ser humilhado pelos demais, Zeferino afoitou-se a subir para cima do barril e saltar para a água, provando à malta que também era capaz. Empoleirado, tentava não deixar transparecer o medo que sentia ao ver a altura do salto, mas sentia um terror enorme naquele mergulho de pouco mais de um metro. Não, não era apenas um metro, mas uma altura complicada para ele, pelo receio de cair mal. «Não gostava de correr riscos e daí?»

O problema não era assim tão simples, uma vez que as escusas constantes faziam-no alvo de troça, tornando a convivência difícil com os amigos. Não entendia o porquê daqueles desafios absurdos de testar a coragem, mas para quê? Para se gabarem de que não tinham medo, pois ele tinha. Tinha e muito, tinha medo de cair mal e se aleijar, como tinha acontecido ao Tó Maninho que partiu a perna ao saltar do arreto (socalco de terreno).

– Se não saltas, sai daí e deixa os demais saltarem! – Exclamou o Zé Pitáfio, em tom de ameaça.

Mas nada do Zeferino se resolver, notava-se no seu rosto um pânico, como se tivesse que saltar para um escuro abismo. Corpo meio dobrado, mascara estampada na cara, as pernas a tremer, eram motivos mais que suficientes para mais de uma semana de chacota.

– Olha para ele, parece uma menina a tremer…MEDRICAS!

Subitamente sentiu um empurrão e a seguir o voo no vazio, depois a dor com o impacto de um “chapão” na água. Sem preparo e apanhado de surpresa sentiu que o ar lhe faltava e na atrapalhação absorveu uma grande golfada de água. Quando subiu à tona, por entre risos e apupos, dava para se notar o vermelhão no peito do Zeferino. O que ninguém notou foram duas grossas lágrimas que se confundiram com a água que escorria do cabelo. Sentia uma dor enorme pelo contacto na água, mas a maior dor era no interior, no seu peito de menino. O ser gozado, eram dores, quais facadas injustas por não o compreenderem.

Foi sempre alvo de ditos pouco elegantes quanto à sua maneira de ser, todavia, a vida ia correndo. Chegou a altura de cumprir o serviço militar a que todos os mancebos estavam obrigados. O País atravessava uma guerra de guerrilhas nas Colónias, e todos eram poucos para lutarem pelos interesses Nacionais.

Fez a recruta e a especialidade sem se fazer notado. Mais tarde foi mobilizado para a Guiné. Cumpria com rigor todas as ordens, mas era reservado quanto a euforias despropositadas. Não alinhando em saídas nocturnas a esta ou aquela cubata, chegando muitos a pensar que das duas uma, ou tinha medo ou era maricas.

Sim tinha medo, um medo que lhe vinha desde criança pelo desconhecido, um medo por riscos inúteis, que para além das doenças com aquelas prostitutas, o medo também de uma agressão na escuridão ou sabe-se lá que mais.

Para quê arriscar? Tinha-se dado bem assim e assim pensava continuar. Faltavam três meses para acabar a comissão. «Três longos meses!» As saídas fora do aquartelamento eram quase diárias. O inimigo estava forte. Isso via-se pelas emboscadas amiúde. Havia trilhos a patrulhar, zonas a vigiar e o rio que servia de fronteira e de via de transporte de víveres, era por eles patrulhado em pequenos barcos cedidos pela marinha.

Numa dessas patrulhas com o barco longe da margem, foram alvejados por morteiros e a coberta barrida por rajadas de metralhadoras, posicionadas na outra margem. O comandante foi o primeiro a tombar. Perante o poder de fogo inimigo, o pânico instalou-se, saltando para o rio, toda a tripulação que assim tentava escapar às balas. No entanto, o equipamento e o pavor faziam com que estivessem em risco de se afundarem. No barco só ficaram Zeferino, os feridos e o marinheiro responsável pelo leme. Ziguezagueando e respondendo ao fogo com a metralhadora pesada da embarcação, Zeferino e o marinheiro conseguiram calar as armas inimigas e assim salvar a quase totalidade dos companheiros que se debatiam com dificuldade na água.

10 de Junho, dia de Camões. Na Praça do Comércio recebiam os combatentes que se distinguiram em combate, as honras por esse feito.

Orgulhosos, os habitantes da pequena aldeia, viam um filho seu, agraciado com uma das maiores condecorações militares, Zeferino de seu nome, conhecido noutros tempos por “medricas”.

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