Mea-Culpa

 

 

 

 

(Presidente Prudente/SP)

Os cabelos grisalhos, o corpo constantemente cansado e a pele marcada pelo tempo são algumas mostras atuais de sua figura, inseparáveis em todos os momentos e se revelam intensamente, especialmente quando asfixiada pela insônia.

Desceu a escada íngreme daquela velha casa com cuidado atinente aos idosos e a passos lentos dirigiu-se à varanda de sua modesta morada onde esperou por um pouco de conforto do momento. Um tremor nas mãos que emagreceram bastante é denunciado na pele solta cobrindo os ossos, já não se parecem mais com as que sempre existiram pois estão fracas e vãs, assim como são poucos os seus cabelos e frágil todo o seu vulto.

Recostado em uma poltrona simplória e confortável, disposta sob o abrigo do sereno e voltada para um belo cenário proporcionado pela natureza, noite soberba, nenhum som emanado das incontáveis estrelas que proliferam no imenso firmamento, naquele ocaso tão azul mostrando as cadentes desabando tão ligeiras e proporcionando um lindo espetáculo espacial. O tempo parou para ele apreciar aquela paisagem enquanto o sol se assenta para esconder aquelas estradas que não existem mais, contudo por onde passou inúmeras vezes deixando marcas profundas naquele velho coração.

Sem receio algum do sombrio ali produzido pela urbe iluminada, apenas o caminho do pensamento a orientar sua viagem onírica pelo tempo e pelo espaço. O vento anêmico não assusta, o ruído mortiço não amedronta e assim a alma não emudece, tudo isso proporcionando ao homem, mais uma vez, a reflexão.

Seus pensamentos tomaram forma de viagem e na trajetória indagaram em voz alta:

– Que estará fazendo ela naquele momento? Existirá ainda?

Pensar no medo, naquela sensação de perigo contínuo, naquele receio imaginário de perdê-la, de não mais participar de sua alegria foi constante, eterno, verdadeiro tormento a fazer-lhe companhia em outros tempos. Olha para o firmamento e vê as nuvens compondo a silhueta dela, seu perfil emoldurado por corpos celestes brilhantes. Juras gritadas para quem quisesse ouvir de manter eternamente amor e paixão declarados para todo o sempre foram esquecidas, não foram cumpridas. Hoje não mais existem. Ouviu seus bramidos, mas apenas a visão inerente de tê-la deixado com os olhos marejados de lágrimas, em uma das curvas na estrada da vida obstinadamente acenando e implorando seu retorno persegue-o, assim como o persegue aquele suave perfume exalado da bela rosa branca invariavelmente colocada em seus cabelos negros. Fixa o olhar mais atento e, pasmo, sente, ouve que gargalhadas zombeteiras, tipicamente feminina eclodem ao alto e riem de sua imagem desfigurada pelo tempo, de seus chinelos desgastados e suas meias rotas calçadas para afastar o frio, da sua figura atual.

Armadilhas do destino!

Elencar os amigos de infância, companheiros diários das tantas alegrias e travessuras que nem sequer sabe quem ou quantos estão vivos; os que se fizeram grandes amigos na juventude, companheiros considerados indispensáveis se perderam no tempo e não se encontram mais. Cúmplices, pessoas com quem criou relações de amizade duradoura e afetiva, mas que foram sumariamente abolidas. O destino determina quais as pessoas que entram na sua vida, mas jamais você decide quem fica nela. E a consciência lhe faz sempre a pergunta que não quer calar: Quantos e quais pessoas queridas então indispensáveis, você descartou, atirou fora?

E os seus amigos e companheiros durante parte da vida, da sua existência, dos seus sonhos? Enumerar cada um impossível, pois desistiu de muitos, renovou outros tantos, riscou da tabela vários e apagou inúmeros! Mas em sua administração pessoal apurou o saldo consolador no preservar apenas alguns.

Nessa angústia a outrora mocidade deslumbrada o encontrou novamente ouvindo os seus pensamentos, aos gritos, renovando os seus sonhos. Alaridos, clamores estranhos em tons cada vez mais altos fizeram com que uma forte sacudidela na cabeça os atirasse para bem longe, calando-os e tornando-os acovardados, medíocres. Nessa amargura lembrou que foram tantos os segredos e agora não consegue entender a razão de tê-los guardado pois hoje, se revelados são tolos demais e a ninguém interessa.

Ciladas do destino!

Esforçava-se para esquecer, porém a lembrança teimava em mostrar dias passados que pretendia eliminar, quando outra personagem cada vez mais viva e incisiva, se mostrava. Tentou fechar os olhos apagando a visão formada pelas estrelas no firmamento e esquecer aqueles momentos existidos há tanto tempo, quando segurou as mãos delicadas da jovem donzela dos cabelos de fogo e o contato direto, carnal, fez estremecer todo o seu corpo antes rígido, tenso. Os braços da fêmea puxados com violência tanta que seus pequenos seios saltaram do vestido modesto, acendendo ainda mais os desejos brutais que explodiram como fogos estourando em festejo de passagem do ano. Veio a tentação e ato seguinte foi romper alguns botões e rasgar aquela roupa trazendo à mostra toda a formosura das curvas, dos quadris, da pele jovem em exposição, percorrendo loucamente todo aquele corpo com suas mãos gulosas enquanto justifica seus atos com palavras impensadas aos sussurros mentirosos “eu te amo”. E a moça impassível não dava mostras de recusa assim como não correspondia aos seus desejos. Momentos irracionais se seguiram e por fim, perturbada saiu lentamente, cobrindo o corpo e tentando esconder os bens contornados seios desnudos que não encontravam abrigo. Provou a realidade dos romances tolos lidos e das novelas romanescas assistidas e começou a choramingar fingida, afastando-se com a visível satisfação da experiência existida. A comoção dela lhe trouxe uma fatia de vaidade, quase a certeza de ter sido o primeiro a lhe despertar o desejo, a ser o primitivo a tocar seu corpo com intimidade e cobiças, tempo em ela fugiu correndo para jamais ser alcançada.

Emboscadas do destino!

Na trilha do tempo caminhou sobre acontecimentos verdadeiros e outros tantos mentirosos. Sempre renegou a mentira, mas por tantas e tantas vezes foi obrigado, pelas circunstâncias da vida, a participar das falsidades de determinados atos sempre tentando corrigi-los, alguns com sucesso, outros não. É certo que continuamente houveram imprevistos, fatalidades, mas também foram encontrados luzes, lágrimas e sorrisos.

As lembranças já não tão vivas chegam apagadas, destituídas de senso, mas os tempos, carregando marcas, ora de alegrias, outras de melancolia, são lembrados!

O tempo passa e os primeiros clarões no horizonte denunciam o novo dia.

Ao final tudo desaparece!

 

2 thoughts to “Mea-Culpa”

  1. Olá Flávio. Você é um escritor muito sensível e equilibrado, principalmente ao destacar a dramaticidade da moça. Igual aos romances tolos e novelas romanescas. Até pude imaginar a cena. Grandes lembranças.

  2. E tudo por culpa da poltrona que vai entretendo a mente em etapas faseadas da vida. A mim, mesmo sem silêncio das estrelas, proporcionou um idílico momento ao ler o momento de posse sobre a pobre donzela. Pobre, sim! Pois o vestido era modesto e mesmo assim foi rasgado. Eheheh. Parabéns Flavio Dias Semim!

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